sábado, 21 de janeiro de 2017

O Ente Querido - Evelyn Waugh

"A ver aquela macacada com parentes que detestaram durante a vida inteira, enquanto os animais, que os amaram e lhes fizeram companhia, sem numa fazerem uma pergunta nem soltarem uma queixa, na fortuna ou na miséria, na saúde ou na doença, são enterrados como se não passassem de facto de animais?"
'O Ente Querido', Evelyn Waugh

Evelyn Waugh habituou-me 'mal' com o seu maravilhoso 'Brideshead Revisited'. Dificilmente encontrarei uma história mais completa na sua obra, que me mostre o brilho da sua escrita de forma igualmente mágica. Mas 'O Ente Querido' é um bom exercício nesse caminho, com uma narrativa que em nada se compara em termos de emoção, ou que se encontra exactamente no pólo oposto, do ridículo e da falta de humanidade e emotividade.

Está-se em Hollywood no pós-guerra, onde muitos ingleses tentam a sua sorte no continente americano. É o caso de Dennis Barlow, que tentou a sua sorte na indústria do cinema e acaba a trabalhar como funcionário de um crematório de animais de estimação, O Mais Feliz Campo de Caça. Quando o seu bom amigo do cinema, Sir Francis, morre, Barlow encarrega-se de organizar o seu funeral nos Prados Sussurrantes, onde conhece a maquilhadora de cadáveres Aimée Thanatogenos, por quem se apaixona.

Se até à primeira visita de Barlow aos Prados Sussurrantes esta pequena grande obra de Waugh parecia relativamente dentro das conformidades, a partir do momento em que o inglês toma contacto com aquele novo mundo, onde todo o ritual funerário é levado tão a sério como se fosse em vida, todo o romance parece ganhar outro propósito.

"E assim a revelação de que era um mentiroso e um falso o homem que amava e a quem se ligara pelos mais doces votos apenas afectava uma parte do seu ser. Talvez o coração se tivesse quebrado, mas era afinal um pequeno e barato órgão de manufactura local."

Há a denominação automática e massificada de 'entes queridos' para mencionar os defuntos, e de 'ente saudosos' os que lhe sobrevivem e que dele gostavam. Existe nestas personagens que lidam diariamente com a morte uma indiferença total ao sentimentalismo que estes momentos propiciam, e que se espalha também para uma grande e mesmo ridícula indiferença face às relações humanas, entre os seres vivos.

A morte está presente, e se existe algo positivo nesta capacidade de tratar a morte como algo indiferente é a naturalidade que lhe é inerente e a obrigação que todos temos, enquanto seres humanos que se relacionam entre si e que criam laços com os seus animais de estimação, de o aceitar como algo inevitável. Esta inviabilidade atinge, contudo, um nível muito para lá do que podemos considerar como naturalmente aceitável.

Waugh critica o materialismo, satiriza esta ausência de emoções - sobretudo nos momentos em que habitualmente mais as temos à flor da pele. Contrasta o amor dedicado aos animais com o falso amor dedicado às pessoas que deveríamos amar com uma força diferente. Envolve-se de ironia e espelha aqui todo o seu humor negro bem britânico - e bem subtil - para tornar toda a sua história e as suas personagens parte de um mundo alternativo em que o ridículo reina sobre qualquer outra coisa.

Com os seus momentos afincados de comédia e os momentos que deveriam ser de verdadeira dor - para as outras personagens e para nós - mas que acabam por ser, como o resto, desprovidos de qualquer emoção (o que não nos deixa de emocionar pela capacidade do autor de nos fazer entrar no seu mundo sub-humano), 'O Ente Querido' é quase uma tragi-comédia, recheada de mortes, suicídios, desesperos e dores a que nossa personagem principal parece ser alheia.

Não imagino outro autor a satirizar desta forma a sociedade americana, através de um quadro tão irrealista e ao mesmo tempo tão próximo da realidade. Todo o ridículo que nos apresenta, e que nesta obra é aparentemente normal, é absolutamente fascinante. A ler mais de Waugh, certamente.

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