sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A Casa - Paco Roca

Passamos a nossa vida entre casas, desde aquela em que vivemos o primeiros anos, passando pela nossa primeira casa sozinhos, ou pela que partilhamos com amigos, e depois para a casa onde queremos construir família e nela ficar até ao fm dos nossos dias. Enquanto passamos por elas, elas não passam simplesmente por nós: é nelas que construímos as memórias e onde guardamos a nossa vida nas pequenas gavetas do coração.

Uma casa é assim um reflexo de quem nela vive, que a enche de recordações silenciosas ao longo de muitos anos de vida. Quando o seu ocupante desaparece para sempre, tudo o que fica na casa se mantém intacto - menos tudo o que, com o tempo, tende a deteriorar-se se não for bem cuidado. Esta 'A Casa' fica um ano inteiro à espera de voltar a receber visitas após a morte do seu dono. É nesta altura que os seus três filhos a visitam e nela reencontram e enfrentam as suas memórias, a dor da perda e a inviabilidade de se afastarem da infância.

Paco Roca capta na perfeição esta vida e morte das casas, como a das pessoas, que nelas vai deixando restos de si. É uma história muito pessoal que o autor nos revela nesta novela gráfica recheada de imagens bonitas e melancólicas, com um traço muito simples e onde as palavras quase nunca são necessárias para dar voz à história.

Os três irmãos que visitam 'A Casa' fazem-no de forma muito própria, cada um no seu momento, cada um numa diferente experiência individual do que é regressar a uma casa onde já foram muito felizes e onde as recordações parecem regressar em catadupa à sua memória. Os jantares que o pai organizava, as árvores de que cuidava, as histórias de família que contava. Tudo está contido naquele espaço-tempo do qual não se querem separar, ainda que o que os tenha juntado ali tenha sido mais a venda daquela casa de infância do que a homenagem ao pai um ano após a sua morte.

O desfecho é inevitável e um reflexo do dia-a-dia actual, onde queremos ser capazes de muita coisa mas acabamos por nos perder no meio de tantas memórias que não podemos manter, no meio de tanta correria que nos ajuda a ultrapassar demasiado rapidamente as coisas importantes e a que podíamos dar um pouco mais de valor, sejam sofridas ou amadas, ou ambas. Deixar para trás os anos vividos numa casa que tornámos nossa é difícil e triste, sobretudo quando gostávamos de não ter de fazê-lo.

Um relato emotivo, com o qual todos nos conseguimos identificar, verdadeiramente pessoal, bonito e sentido, que se espelha numa maravilhosa novela gráfica de redenção e homenagem.



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

A Língua de Fora - Juva Batella

"Enquanto isto, na cela n.º 013, toda a Turma da Língua de Fora e mais o Eufemismo, os Versos Livres e a Língua bocejavam. Dormiram um sono agitado, sonharam todos o mesmo sonho: um lugar inundado de claridade, talvez uma cidade onde só havia felicidade, afinidade, pouca autoridade, nenhuma arbitrariedade, muita dignidade e amabilidade, os corações cheios de bondade, uma vida de igualdade, relações de lealdade, muita disponibilidade para a descoberta da enormidade de cada espiritualidade, da musicalidade de cada sensibilidade, da verdade de cada subjectividade. Não eram sonhos iguais, porque cada um sonhou o seu sonho - mas todos rimavam com liberdade."
'A Língua de Fora', Juva Batella

Quem diria que a Língua Portuguesa daria o mote para um romance inteligente e original sobre as suas origens, os seus principais intervenientes e todas as revoluções que se vão dando na evolução da língua? Juva Batella pega na poesia da língua portuguesa e na sua complexidade para criar uma obra onde 'A Língua de Fora' é sinónimo de liberdade, união e amor - num mundo em que precisamos tanto de reconquistar estes valores.

Na "janela mais alta do andar mais alto da mais alta torre da majestosa mansão" vive a Língua Portuguesa, protegida pelo Purismo e o Preciosismo, desde a morte do seu pai, Latino Vulgar, rei do Reino das Palavras Livres. Mas só quando o Tom Coloquial e a restante Turma da Língua de Fora a convencem a descer da torre é que a princesa descobre que o seu reino, agora Reino das Palavras Contadas, é regido pelo Verbo e os seus ajudantes Verborrágicos, uma ditadura da palavra que precisa de ser reconquistada para o lado do bem. O grupo rebela-se contra o Verbo numa guerra pela liberdade e pelo futuro da língua, onde no meio de tudo isto uma paixão nascerá também.

O que mais me fascina neste 'A Língua de Fora' é a criatividade com que é desenhada a história da Língua Portuguesa e a poesia que Juva Batella imprime em cada frase ou diálogo - acredito mesmo que a sua criatividade dialógica o tornaria uma óptima peça de teatro para todas as idades! As personagens, dentro do universo da língua e da palavra falada, são muito ricas dentro da sua designação: o Tom Coloquial trata todos por "tu", o Eufemismo procura sempre relativizar tudo, o Pleonasmo passa a vida a reforçar as suas ideias, o Mal-Entendido nunca percebe nada do que se está a passar. E no entanto, apesar de todas as suas diferenças, todos lutam pela mesma liberdade.

"E começaram os seis a discutir, menos o Tom Coloquial, que, deixando-se cair na relva, de frente para a Língua, arregalou os olhos e abriu a boca, completamente encantado, absolutamente maravilhoso, integralmente conquistado pelo som daquela voz a rir, e depois a fitá-lo a sorrir. Ele sorriu de volta, e sentiu que não pararia de olhar para ela e para aquele seu corpo por nada daquele mundo ou de outro qualquer. Ele ficaria ali parado, para sempre, a corresponder àquele olhar. Ele faria qualquer coisa que ela lhe pedisse."
Durante toda esta revolução da Turma, que deita a língua de fora à tirania do Verbo, o romance que se desenrola entre a Língua Portuguesa e o Tom Coloquial (dei por mim a pensá-lo e lê-lo como "tóm", mais do que como "tôm"), duas personagens tão diferentes, torna esta experiência narrativa uma busca pelo caminho que os una na língua do futuro - literalmente falando, no equilíbrio necessário entre a formalidade e a informalidade da língua e da sua necessidade de adaptação aos diferentes contextos de utilização das palavras.

É uma viagem pelos aspectos mais conservadores e revolucionários da língua, ao mesmo tempo que é um romance ficcional simples e eficaz sobre príncipes e princesas, sobre heróis, sobre os bons e os maus. Deixamo-nos levar de forma interessada e maravilhada (como diria o Adjectivo) pela história de libertação de um regime repressivo, onde a cada dia os habitantes do reino têm de recolher a sua dose contada de palavras para utilizarem no dia-a-dia e serem assim controlados, censurados e calados pelo rei tirano.

Há nesta simplicidade de conto de fadas uma camada mais profunda e complexa de descoberta da língua, da existência dos idiomas, da coloquialidade da linguagem, que tornam a leitura mais divertida e complexa - e uma excelente adaptação do português brasileiro para o português de Portugal. Fico feliz por ter sido a minha compra de visita à Livraria Lello, no Porto, que por si só já transporta tanta magia e valoriza tanto a língua e a leitura em língua portuguesa.

Com esta fábula romanceada de Juva Batella aprendemos e recordamos melhor esta língua tão complexa e ao mesmo tempo tão fascinante, cuja gramática tantas dores de cabeça (literais e metafóricas) nos dá nos tempos de escola, e sobre a qual temos uma leitura tão mais interessante enquanto adultos e mais experientes na arte da palavra. Sobretudo se gostarmos tanto de a ler e escrever.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Pugilista - Reinhard Kleist

Uma era que afectou milhares e milhares de pessoas continua a dar-nos a conhecer, anos e anos depois, histórias novas e incríveis sobre os que sobreviveram ao horror do Holocausto. É o caso de Hertzko Haft, cuja história de vida e sobrevivência é retratada nesta obra inesquecível de Reinhard Kleist.

Hertzko Haft, judeu polaco, nem tinha ainda dezasseis anos quando foi levado para um campo de trabalhos forçados após a invasão da Polónia pela Alemanha Nazi. Para trás deixou a mãe, sete irmãos e Leah, a sua amada, com quem esperava casar antes que a guerra os separasse. E tanto mais os iria continuar a separar nos anos que se seguiriam. Mas Hertzko conseguiu escapar já quase no final da guerra, depois de protegido por alguns oficiais que o tornaram "O Pugilista" das distracções dos alemães, e depois de passar por campos de concentração como Auschwitz. Ao perder grande parte da família na guerra, Hertzko parte para os Estados Unidos onde procura apostar no que aprendera como pugilista nos campos e começar uma nova vida.

"Um dia conto-te tudo", diz Hertzko ao filho, que só muitos anos mais tarde viria a conhecer a verdadeira história de vida do pai que com ele fora sempre forte e violento, e a escrever a sua biografia que daria origem a esta bonita homenagem em banda desenhada. Até lá, guarda tudo para si: a dramática chegada aos fornos de Auschwitz, a necessidade de lutar contra outros prisioneiros (muito mais debilitados), e sobretudo de não se poder preocupar com os outros num lugar onde sobreviver é a única coisa com que se pode preocupar.

Apesar de toda esta história de sobrevivência contra todas as provações, como a de um menino super-herói que teve de crescer à força ao partir para a guerra - e isso nota-se na evolução da personagem ao longo da obra, na forma como depressa assume o novo contexto em que está inserido, por obrigação da vida -, Hertzko não é um homem fácil de entender, ou com o qual tenhamos facilidade em nos identificarmos. O que faz para sobreviver, a sua conduta com o filho, a culpa que carrega torna-o um homem amargo e quase insensível perante tamanha dor por que passou.

A sensibilidade reside apenas na memória e na esperança de reencontrar Leah, o amor da sua vida, cujo reencontro será dos momentos mais tocantes do livro e aquele que verdadeiramente humaniza Hertzko perante nós, espectadores e leitores da sua vida a tantos anos de distância. Um homem que nunca desistiu da vida e que nunca deixou de lutar pela felicidade mesmo após de tanta infelicidade. Um verdadeiro pugilista de atitude perante a vida, mais do que nas lides do boxe - ainda que nestas a sua curta carreira se tenha tornado inesquecível por tantos outros homens terem tido o mesmo destino (uns igualmente sobreviventes, outros esquecidos nos campos onde não resistiram) e também por ter enfrentado boxeurs como Rocky Marciano.

Outubro é para mim o mês da Amadora BD, da visita a esta capital da Banda Desenhada, e talvez por isso também aquele em que me apeteceu voltar a pegar num livro de BD e lê-lo de uma assentada em apenas algumas horas. As pranchas quase expressionistas, a preto e branco, mais imagéticas do que descritivas, catapultam-nos para a história de Haft como se dela fizéssemos parte, ajudando-nos a compreender melhor a sua história de vida. E fazem-nos apaixonar por esta novela gráfica tão intensa, dramática e que nos deixa sem palavras e com lágrimas nos olhos quando, no final, já sabemos "tudo" e nos identificamos com muito mais facilidade com Haft.

domingo, 22 de outubro de 2017

Do Androids Dream of Electric Sheep? - Philip K. Dick

’Is it a loss?’ Rachael repeated. ‘I don’t really know; I have no way to tell. How does it feel to have a child? How does it feel to be born, for that matter? We’re not born; we don’t grow up; instead of dying from illness or old age we wear out like ants. Ants again; that’s what we are. Not you; I mean me. Chitinous reflex-machines who aren’t really alive.’ She twisted her head to one side, said loudly: ‘I’m not alive! You’re not going to bed with a woman. Don’t be disappointed; okay? Have you ever made love to an android before?’

‘Do Androids Dream of Electric Sheep?’, Philip K. Dick

Nem todas as histórias de ficção científica têm para oferecer uma experiência tão completa como este ‘Do Androids Dream of Electric Sheep?’. É muito mais do que um cenário futurista ou um argumento puramente fantasioso: é uma história sobre a humanidade e a sua busca constante pelo reconhecimento e pela emoção.

Rick Deckard é, nesta obra de Philip K. Dick, um caçador de andróides no que resta do planeta Terra. Uma guerra assolou de tal forma a Terra que praticamente todos os animais morreram, a humanidade emigrou para Marte e o que ficou no planeta é pó, desordem, alguns andróides, algumas empresas que ainda lucram com a destruição e os chamados “chickenheads”, humanos incapazes de serem verdadeiramente humanos.

A nova missão de Deckard é a de matar seis andróides Nexus-6, facilmente confundíveis com humanos, por uma grande recompensa que lhe permitiria ascender socialmente e adquirir um animal verdadeiro, em lugar da ovelha eléctrica que tem na casa que partilha com a esposa Iran. Nesta jornada aparentemente simples vai cruzar-se com muitas personagens e situações desafiantes que o levarão a conhecer-se melhor.

Não é fácil descrever uma história tão complexa a tantos níveis e com tantas camadas de profundidade. Esta sociedade pós-apocalíptica nada tem a ver com a sociedade que conhecemos, e no entanto identificamo-nos tanto com este desprendimento da vida que nos rodeia. E sobretudo com esta personagem aparentemente sem sentimentos, sem moral, premeditadamente inconsciente dos seus actos, que afinal não passa de um ser humano que só quer sentir que é alguém, num mundo em que os andróides são cada vez mais humanizados e os seres humanos já nem têm lugar para se sentirem humanos.

Nesta vida que resta no planeta Terra, o animal que cada ser humano tem é um espelho da classe social a que pertence. Ter um animal real, vivo, é tão raro que o preço destes animais é muito elevado. Já um animal eléctrico, também com um custo elevado pela tecnologia exigida, tem um custo mais acessível e mostra assim que o seu comprador não consegue comprar um animal de estatuto mais elevado. Este é sem dúvida a primeira motivação de Deckard para matar os andróides e receber a sua choruda recompensa.

Com o passar do tempo, ao cumprir a sua missão e ao cruzar-se com uma andróide especial, a bela Rachael Rosen, Deckard vai-se apercebendo de que talvez tenha, na realidade, uma intenção diferente e mais profunda. Descobre que os andróides não lhe são assim tão indiferentes; que a “empathy box” que todos os humanos têm em casa e supostamente é a fonte de todas as emoções - dentro do Mercerism, a religião que os une a todos na dor de um só homem, Mercer - não se compara à dor real de matar seres que lhe começam a ser queridos; que, para lá da ascensão social, procura viver e sentir verdadeiramente, muito mais do que programar o seu “mood organ” para poder passar mais um dia da sua existência dentro de uma emoção que não é real.

É um mundo em que tudo é artificial, até mesmo as sensações, os estados de espírito, as emoções - que supostamente são o que caracteriza um ser humano como ‘humano’. O Mercerism não passa de uma falsa sensação, de um episódio repetido e partilhado por todos, que independentemente de ser ou não real nunca é uma experiência individual e única para cada pessoa. E, neste contexto, a humanidade dos andróides parece-nos, e a Deckard, tão mais real do que o que agora resta no planeta Terra e nos que por lá ficaram a apodrecer, no meio do pó e da destruição da terra e das almas.

É fácil, por outro lado, perdermo-nos em indagações sobre o que esta leitura significa para nós. E ainda mais quando nos apercebemos de que é uma história que cresce em nós à medida que o tempo passa, não se fica pelo momento de leitura e muito menos pelo terminar das novas páginas a ler. Apetece ler e reler e aprender algo novo em cada leitura, nem que seja sobre nós próprios. E lê-lo em inglês foi uma experiência ainda mais emocionante.

‘Do Androids Dream of Electric Sheep?’ serve de base ao filme ‘Blade Runner’, embora pouco desta sociedade pós-apocalíptica, religiosa e ‘emotionless’ se reveja na obra cinematográfica - não deixando de ser um excelente filme de ficção científica, tal como a sequela estreada este ano. O que o livro de Philip K. Dick traz de novo é um olhar inesquecível e muito actual sobre a dicotomia ser humano vs robô, sobre a humanidade, que nos deve fazer olhar ao espelho e reflectir sobre o rumo da sociedade tecnológica e a importância do que nos torna humanos no meio de tudo isto.

sábado, 7 de outubro de 2017

Sonata a Gustav - Rose Tremain

"- Sabes, sim. Tu percebeste o que nós os dois devíamos ter sido; fui eu quem resistiu. Exceto numa única ocasião, em Sankt Alban, quando eu era o miúdo moribundo e tu me salvaste a vida com um beijo. Pois bem, agora tens de me salvar outra vez."
'Sonata a Gustav', Rose Tremain

Nem sempre as capas bonitas resultam em livros igualmente bonitos, mas há casos em que tal se confirma. 'Sonata a Gustav' é como uma melodia desequilibrada por sentimentos contraditórios, uma história de desencontros e de uma amizade que une e separa duas pessoas em simultâneo durante uma vida inteira.

Gustav Perle conhece Anton Zwiebel na escola, quando ambos têm cinco anos, e desde essa altura tornam-se amigos inseparáveis. Gustav vive com a mãe, Emilie, a sua "mutti", numa casa pobre em Matzlingen, enquanto Anton, cuja família tem origem judia e veio de Berna, vive com os pais uma vida mais confortável. Mas isso não os afasta, pelo contrário, torna Gustav mais próximo também dos pais de Anton, ao sentir a indiferença da mãe e não recordando a figura do pai, morto antes de ele nascer. 'Sonata a Gustav' acompanha esta busca pelo seu passado e por um futuro ao lado do amigo Anton, sempre com a música em pano de fundo.

Anton é pianista, mas tem medo de tocar em público. Coloca em cada tecla toda a sua paixão, enquanto Gustav pouco entende de música, na realidade. Mas sabe que, com ele, Anton se sente sempre melhor. Ajuda-o a "dominar as emoções", expressão que a mãe lhe repete constantemente, herança do seu pai polícia que na sua profissão tinha de seguir mais as orientações superiores do que o que dizia o seu coração. 

Este romance ensina-nos, de certa forma, que nem sempre é possível "dominar as emoções" como se pretende. O pai de Gustav não o conseguiu, e acabou por sofrer com isso na profissão, e por outro lado por descobrir o verdadeiro amor na sua vida pessoal. Já Anton, por seu lado, parece passar a vida inteira a guardar dentro de si o que sente e não quer sentir, o medo de ser alguém, ou de não o ser. E Gustav, no meio de tudo isto, domina-se a si mesmo perante os outros, sente por todos sem sentir nada que se veja cá de fora.

Rose Tremain escreve de forma bela, simples e documentada, pecando apenas por repetir algumas ideias desnecessariamente, a meu ver, e sobretudo por não nos permitir conhecer mais a fundo a complexidade das suas personagens. Gostava de saber mais sobre Gustav, sobre os anos que o livro ignora, sobre esta amizade que podia ter sido mais do que isso. Porque não o foi? A homossexualidade está subjectivamente presente ao longo de toda a obra, e no entanto sentimos sempre que está a fugir das personagens, que os seus corpos não entram bem em lugar nenhum. Falta alguma substância a esta modelagem das suas personalidades, apenas. Um ligeiramente menor domínio das suas emoções.

O que não nos impede de verter a lagrimita nas férias que os rapazes passam em Sankt Alban, ainda novos, ou nos vários momentos em que tanto Adriana como Lottie, como mesmo o Coronel Ashley-Norton, levam Gustav a pensar na vida, na aproximação à velhice, no desperdício dos seus dias sem Anton. Há muitos momentos carregados de emoção, ligados a Gustav e menos a Anton, que fazem este romance chegar um pouco mais perto do nosso coração e encontrar lá o seu lugar para ficar para sempre.

'Sonata a Gustav' segue uma escrita bastante fluida, um ritmo bem estruturado e uma história que nos diz muito às emoções - como uma sonata melancólica, tocada em piano, com os seus altos e baixos, os seus agudos e graves; e como uma carta de amor que descreve toda uma vida em que ele esteve presente nas pequenas coisas.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O Arranca-Corações - Boris Vian

"No seu quarto, também Jaquemort acabava, por seu lado, de apagar a luz. Acalmou-se o ranger distante do colchão da ama que se deitava de barriga cheia. Ficou uns momentos deitado de costas, imóvel. Todas as coisas desses últimos dias dançavam, vertiginosas, à sua frente, e o coração pulsava-lhe impetuosamente. Até que, a pouco e pouco, lá sossegou e então, fechando as pálpebras fatigadas sobre as retinas laceradas pelas ásperas correias de insólitas visões, resvalou para o inconsciente."
'O Arranca-Corações', Boris Vian

Boris Vian é mestre na criação de universos e histórias surreais, onde as personagens são mais estranhas do que perceptíveis e escondem muitos significados ocultos. É o caso deste 'O Arranca-Corações', numa aldeia macabra onde, para mal de todos os pecados, tudo é o que parece - e na ordem habitual das coisas não o deveria ser, de todo.

Jacquemort, psiquiatra de profissão, chega a esta aldeia aparente normal para ajudar a dar à luz três crianças gémeas, três rapazes: Noël, Joël e Citroën. A mãe, Clementine, aceitou mal a gravidez e deixa de conseguir suportar o marido, Angel, assim que estes nascem. Já Jacquemort continua a viver lá em casa, fazendo visitas regulares à aldeia, contactando com as suas peculiaridades, e ao mesmo tempo procurando realizar o seu desejo nesta visita: psicanalizar as pessoas e assimilar os seus sentimentos para tentar preencher o vazio que sente dentro de si.

Este vazio é óbvio no seu temperamento ameno, na forma como procura acalmar Angel e sobretudo psicanalizar tudo e todos, mesmo a empregada Culbllanc, com quem mantém uma breve relação física. Nada o incomoda demasiado, nada o satisfaz demasiado. Apenas as primeiras visitas à aldeia o deixam um pouco abalado ao ver a falta de consideração das pessoas umas pelas outras, o que nas visitas seguintes acaba por já lhe soar habitual. Evita-as, mas passa por todas estas situações sem nada fazer, rendendo-se às evidências e tornando-se também parte delas.

A aldeia é talvez o lugar mais peculiar encontrado numa ficção que, apesar de metafórica, pretende ser bastante crítica e realista, mesmo incisiva, face à sociedade que discrimina e promove a desigualdade: Quem diz que os existencialistas só pensavam no seu lugar no mundo e nas suas dúvidas filosóficas? Nesta aldeia há uma feira dos velhos, um rio vermelho onde um homem - que todos chamam "A Glóira" - pesca com a boca todo o lixo que é atirado ao rio (e por lixo entenda-se tudo o que se quer apagar), uma igreja onde a missa se transforma num verdadeiro ringue de boxe e um série de fábricas onde jovens aprendizes são maltratados e trabalham, se for preciso, até à morte.

Mas Jacquemort nem precisa de sair de casa para experienciar toda esta falta de humanidade e de consciência perante o outro ou, melhor dizendo, esta pouco aparente mas efectiva ausência de coração em tudo o que se faz. Todo este absurdo, portanto. Clementine diz amar os seus três filhos com todo o seu coração, protegendo-os de todas as formas possíveis e imaginárias dos perigos da vida. Só pensa em tudo o que lhes pode acontecer se "isto" e se "aquilo", acabando por não os deixar viver, de todo, uma vida normal. E acabando por transformar este possível amor num ódio premente contra a inevitabilidade da vida.

'O Arranca-Corações' é uma obra negra, verdadeiramente crítica e intensa se a soubermos olhar desta perspectiva subjectiva e interior, mais do que atendendo à sua forma e lendo as suas palavras à superfície. É preciso entrar no universo absurdo de Boris Vian e encontrar, nesta aldeia onde tudo é caótico, um sentido para esta busca pelo amor que nunca se concretiza senão afastando-o ainda mais das suas vidas. Um livro sobre a fragilidade humana, perturbante e sempre actual, que ainda que possa não nos dizer muito acaba por permanecer, pelo menos em parte, na nossa memória literária.

domingo, 1 de outubro de 2017

Murder on the Links - Agatha Christie

"That, when you have two crimes precisely similar in design and execution, you find the same brain behind them both. I am looking for that brain, Monsieur Giraud, and I shall find it. Here we have a true clue .- a psychological clue. You may know all about cigarettes and match ends, Monsieur Giraud, but I, Hercule Poirot, know the mind of man!"
'Murder on the Links', Agatha Christie

Uma obra de Agatha Christie cujo título é "Murder on..." é logo indício de um bom crime à moda da sua carismática criadora. A segunda aventura de Hercule Poirot e do seu companheiro de aventura, Arthur Hastings, envolve a descoberta de crimes do passado e um romance capaz de ultrapassar as garras do crime - e, claro, um detective que encontra sempre o pormenor que desvenda toda a história.

Em 'Murder on the Links', Poirot é contactado por um cliente para se dirigir o mais rápido a França de modo a evitar que um crime grave aconteça. Ao chegar, contudo, apercebe-se de que é demasiado tarde e que o seu cliente foi encontrado morto na sua casa, mais precisamente no campo de golfe. Quando um segundo homicídio acontece, em moldes semelhantes, Poirot e o seu braço direito, Hastings, continuam a investigação ainda com mais dúvidas do que no início.

Entre uma carta encontrada no bolso do primeiro cadáver e os olhos grandes e belos de uma jovem mulher, a dupla de detective e ajudante encontra muitas pistas contraditórias e descobre muitas histórias por detrás dos testemunhos que recolhe. E ainda tem de contrariar constantemente outro inspector encarregue do caso, Giraud, cujo olhar sobre as pistas difere bastante do modus operandi de Poirot.

E Hastings, que já na primeira aventura vivida ao lado de Poirot quase se apaixonara por uma das familiares do morto, encontra o amor e a sua Cinderela nesta história de crime e suspense onde o assassino pode ser qualquer um - até o mais improvável. O que vale é que o amor de um homem resiste a quase tudo e a sua Cinderela torna-se uma peça fundamental na resolução do caso.

Falar sobre as obras de Agatha Christie é sempre uma tarefa difícil, sobretudo porque contar parte da história é já revelar uma grande parte do mistério - e o que dá verdadeiramente gozo é descobrir, a pouco e pouco, como se deu este misterioso crime e como Poirot o vai conseguir resolver com a sua mente inteligente e muito perspicaz.

Mais um pequeno livrinho cheio de histórias e de revelações inesquecíveis, em inglês (com os tradicionais francesismos e "mon ami" de Poirot), e muito ao estilo da talentosa Agatha Christie, que a cada livro me continua a maravilhar com a sua escrita fluida e criteriosa.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Flores - Afonso Cruz

Estava junto aos escombros do meu pai, com os restos dos nossos sentimentos à deriva. O meu corpo ainda dizia o nome dele muito baixinho, como se fosse sangue a correr nas veias. As lágrimas não caíam, ficavam suspensas numa antecâmara qualquer do coração ou lá de que lugar é esse onde as lágrimas são laboriosamente fabricadas.
‘Flores’, Afonso Cruz 

Viver da memória ou viver sem memória, dois caminhos que parecem levar a um fim pouco auspicioso, dão o mote para esta reflexão sobre a vida, o presente e a necessidade de agir em lugar de passar ao lado da existência. Afonso Cruz maravilha-nos com a sua escrita fluida, reflexiva e intensa num romance florido qb., sem floreados e com um aroma inesquecível à flor da vida. 

No prédio do protagonista vive o Senhor Ulme, um velhote que não se recorda do primeiro beijo nem de ver uma mulher nua. Enquanto tenta ajudá-lo a reconstruir o seu passado, olha à sua volta, da vida com Clarissa e a filha Beatriz, em busca do amor que também já não se recorda de viver. ‘Flores’ é um romance sobre o amor, a amizade e sobretudo uma constante procura de nós mesmos numa era em que nos perdemos a toda a hora no meio de uma vida que passa a correr. 

 Não podiam ser mais diferentes, o protagonista e o Senhor Ulme. O primeiro perde as estribeiras com um chapéu abandonado sobre uma cama, fala com personagens imaginárias no espelho da casa-de-banho e não quer saber do mundo lá fora. Já o Senhor Ulme, por não se lembrar do seu próprio mundo, foca-se no que está para lá dele: nas tragédias do mundo, nas notícias. Tudo o transtorna, menos aquilo que não compreende e que a si mesmo se refere. 

Afonso Cruz revela que este é talvez o seu livro mais pessoal, o que se sente a cada momento mais intenso que nos leva a identificar com esta personagem principal. Porque poucos serão como o Senhor Ulme, extrapolados da sua personalidade pela falta de memória, mas muitos serão como o protagonista anónimo, perdidos nas suas memórias pela falta de tempo para se aperceberem do seu lugar no mundo. 

É bonita a forma como, sem saber bem porquê - pela amizade da Beatriz com o Senhor Urlme, para tentar salvar a sua honra num casamento onde o amor já há muito deixou de existir? -, este homem embarca na viagem de descoberta do Senhor Ulme, descobrindo pelo caminho as opiniões contraditórias em relação ao seu passado, sem o poder comprovar por nem o próprio saber, na realidade, quem tem sido nestes já longos anos de vida. 

É de facto o contraste entre os dois que torna esta história tão interessante, tão fácil de cativar o nosso espírito mais humano. As inquietações do protagonista, já as sentimos e vivemos muitas vezes - errámos, sofremos, tentámos outra vez e fazemo-lo todos os dias. Precisamos de algo que nos retire dessa sucessão de dias sem importância: de nos sentir desafiados, do perfume das flores, da vida e do amor. E é tudo isso que as ‘Flores’ de Afonso Cruz nos dão, de forma tão simples, tão bela e tão crua.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

A Avó e a Neve Russa - João Reis

"Agora, ela só tem de o beber para que as dores desapareçam, e quando isso acontecer, ela conseguirá respirar mais porque não sentirá dores, e encherá os pulmões e o ar irá subir-lhe à cabeça e descer até ao coração, e o coração aumentará e não lhe chegará só ao umbigo mas aos pés que deixarão de estar frios, e já poderá caminhar e voltar para casa: voltaremos a ser uma família, mesmo que a Babushka continue a desenhar pássaros na oncologia e tenha icónicos, flores, castanhas doces e fotografias na mesinha de cabeceira para ajudar na cura."
'A Avó e a Neve Russa', João Reis

Mesmo num dia quente de Verão sentimos o coração gelar com esta história de um menino que só quer levar a avó de volta à neve russa da sua infância e salvar a sua família de um destino inevitável. 'A Avó e a Neve Russa' é o relato de uma criança de uma tragédia a que foge através da sua imaginação e da força de vontade - e uma mistura de dor e esperança que se transformam numa experiência sensível e inesquecível para qualquer leitor.

Um menino de dez anos ajuda a cuidar da Babushka, a sua avó russa e idosa, emigrante no Canadá, que está doente devido aos "ares atómicos" e que por isso vive mergulhada nas memórias do seu passado em Chernobyl e da infância na Rússia. O seu neto mais novo ainda não pode ajudar a "aumentar os rendimentos" como o irmão Andrei, mas não desiste de ajudar a Babushka a recuperar, com a ajuda dos amigos, dos "icónicos" que lhe cola no peito, das fotografias que lhe leva e que podem fazer milagres. E nenhum obstáculo o dissuade de crescer mais depressa e partir numa viagem ao México para trazer um milagroso cacto que vai certamente salvar os pulmões da avó.

Este 'herói' anónimo é o narrador da sua própria história, em toda a sua inocência de criança - e ao mesmo tempo com toda a coragem também ela ingénua e inconsciente, mas pura como a neve que a avó recorda com saudade. A sua perspectiva é, do início ao fim da obra, a de uma criança que não se apercebe da gravidade do estado da avó, que acredita que tudo é possível e que as pessoas são boas, mesmo tendo já ouvido tantas histórias de pessoas e tempos maus em que os nazis massacraram os judeus como o seu amigo Matt, ou em que os comunistas perseguiram inocentes como o seu avô que era contra a revolução russa.

"Uma vez, gostei da Élise na escola, quando tinha uns oito anos e era mais criança do que sou, e já não sei bem ao certo como pensava então, porque o cérebro era mais pequeno e não cabiam lá dentro tantas recordações quanto as que cabem agora. Gostava dela e quis dar-lhe um beijo e andar de mãos dadas no recreio, por isso escrevi num papel e perguntei-lhe se queria ser a minha mulher, para fazer as coisas como um homem sério faz. Para meu azar, a Élise nasceu na época errada e não apreciou um homem decidido como eu, por isso, escreveu no papel: 'Não.' Seguimos a nossa vida, ela para os braços de um outro rapaz. É assim que as coisas são hoje em dia, e não como nos filmes a preto e branco ou com cores muito fortes, daqueles que passam à hora a que ninguém os vê."

Quando há esperança e inocência suficiente para se acreditar num final feliz, será que este é possível? Enquanto à sua volta os adultos sofrem e têm sentimentos, o que a seu ver "causa muitos transtornos", ele vê a vida como uma possibilidade, mais do que como o culminar de uma dor inevitável. E ao sentir esta esperança faz tudo o que está nas suas mãos para ajudar a salvar a sua Babushka, mesmo que não haja nada que ele possa realmente fazer.

Todos os outros - incluindo "o senhor doutor da medicina" que, segundo ele, põe a avó a desenhar pássaros para a curar, num dos muitos equívocos da sua percepção - são adultos que só vêem o que está a sua frente e o tratam como uma criança, quando na verdade ele é um homenzinho, que gosta muito de saber usar a palavra "porém" e tem um vocabulário que orgulha muito a sua professora primária.

Emocionamo-nos constantemente com a sua capacidade de ser "adulto" e crescer depressa, com o seu conhecimento da história do mundo e de histórias reais de dor e solidão, mas sobretudo com a sua inocência na incapacidade de ver o mundo real, dos adultos, feio e doloroso, onde a esperança raramente se vê e se sente. Um mundo que ele não desconhece, mas que parece ignorar inconscientemente, para não se deixar levar por tamanha dor, e para um orfanato onde será separado do irmã se a avó por acaso tiver mesmo de morrer às mãos dos ventos atómicos.

João Reis revisita em 'A Avó e a Neve Russa' a sua vivência do Canadá e a sua voz de criança de dez anos, que vê e ouve muitas coisas face às quais sente muitas outras coisas. Uma história muito portuguesa, escrita com uma enorme sensibilidade, sobre a memória e a esperança, que nos deixa durante algum tempo a pensar no seu significado muito próprio para cada um de nós. E torna-se sem dúvida uma obra prima na nossa estante, a começar pela maravilhosa ilustração da capa e a culminar na mistura de sentimentos de alegria e dor que nos continuará para sempre a fazer sentir.

A Amiga Genial - Elena Ferrante

"Perguntei-me o que fazia eu naquele automóvel. Estavam ali os meus amigos, é certo, estava o meu namorado, íamos para a festa do casamento de Lila. Mas essa festa, precisamente, confirmava que Lila, a única pessoa de quem eu ainda precisava apesar das nossas vidas divergentes, já não pertencia àquele mundo, e, faltando ela, qualquer ligação entre mim e aqueles jovens esgotara-se. Então porque não estava na companhia de Alfonso, com quem partilhava a origem e a fuga? E, sobretudo, porque não me detivera para dizer a Nino: fica, vem ao copo-d'água, diz-me quando sai a revista com o meu artigo, vamos falar os dois, vamos escavar uma toca que nos ponha à parte desta forma de conduzir de Pasquale, da sua vulgaridade, dos tons de voz violentos de Carmela e Enzo, e também - sim, também - de Antonio?"
'A Amiga Genial', Elena Ferrante

A especulação em torno da suposta "maravilhosa" escrita de Elena Ferrante, e sobretudo em torno da sua identidade desconhecida, elevou a minha curiosidade ao ponto de me levar a comprar o primeiro livro da tetralogia na Feira do Livro deste ano. E agora, ainda que não me tenha apaixonado do início ao fim, chatice máxima: fiquei com curiosidade de ler os restantes.

'A Amiga Genial' acompanha a infância e a adolescência de duas amigas de um bairro popular nos arredores de Nápoles: Elena Greco e Lila Cerullo. Conhecem-se na primeira classe e separam-se mais tarde quando Elena segue o seu percurso escolar e Lila não, ficando a trabalhar para o pai sapateiro e procurando ajudar a família. Se na infância Lila era sempre a melhor na escola, na adolescência vai ser a mais bonita e preferida pelos rapazes, o que leva sempre Elena a sentir-se inferior a ela, invejosa da sua magnificência e ao mesmo tempo quase obcecada pela sua personalidade corajosa. Mas é ela que permanece, para Lila, a sua eterna "amiga genial".

É de forma gradual, na primeira pessoa e com uma escrita simples mas sentimental, que Elena Ferrante nos leva pela história das duas meninas já quase mulheres, que crescem em caminhos diferentes mas nunca deixam de gostar uma da outra e de se assemelhar de certa forma: ambas cultas, inteligentes e com vontade de aprender sempre mais para se superarem a si mesmas (e talvez uma à outra?).

Nestas fases de crescimento - até um final totalmente em aberto para as próximas "aventuras" da vida de Elena e Lila - sofrem desilusões, vivem experiências que lhes mudam a vida, voltam a cruzar-se com pessoas do passado e sobretudo tentam encontrar o seu próprio caminho num bairro pobre, em famílias pobres que apenas procuram trabalhar para sobreviver, num ambiente dominado pelas intrigas do passado. A sua busca de conhecimento e de um lugar diferente daquele a que parecem pertencer fá-las viver tudo de forma muito intensa e ajuda-nos a identificar-nos com os episódios que Elena vai relatando.

Esta primeira obra das quatro que compõem a história completa da Amiga Genial é ainda muito iniciática, parece-me, do que Elena Ferrante pretende mostrar nesta história de uma vida. Há paixões, amizades, obsessões e invejas desde a infância das duas raparigas, mas o livro termina exactamente como podíamos esperar de uma obra em quatro volumes: em aberto, no meio de uma cena importante para a história, numa inconclusão que nos obriga a procurar respostas nos livros seguintes.

Julgando apenas por este primeiro volume, não me parece fazer muito sentido o hype em torno de Elena Ferrante. A sua escrita, ainda que pessoal e sentida, não traz nada de novo à literatura contemporânea. A história leva-nos na corrente pela facilidade com que nos é mostrada e com que nos identificamos com alguns episódios da sua infância e adolescência, mas nada mais do que isso. Entretém, lê-se rapidamente e de forma interessada, se formos sem expectativas e com vontade e curiosidade de conhecer a autora. Talvez também não pretenda ser mais do que isso mesmo!

Mau Tempo no Canal - Vitorino Nemésio

- Mas não voltas tão cedo… João Garcia garantiu que sim, que voltava. Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua honra. Eram fundos e azuis, debaixo de arcadas fortes.
'Mau Tempo no Canal', Vitorino Nemésio

Qual Romeu e Julieta dos Açores, este 'Mau Tempo no Canal' é uma das grandes histórias literárias portuguesas de amores proibidos, de esperanças frustradas e dores dos corações mais apaixonados. Uma obra densa, com uma escrita descritiva e sentimental, que nos cativa pela complexidade das relações sociais que representa.

'Mau Tempo no Canal' tem lugar na primeira metade do século XX e acompanha a história de duas famílias com rivalidades antigas, em particular dos dois jovens mais novos de cada uma delas, que começam a obra completamente apaixonados um pelo outro: Margarida Dulmo e João Garcia. Quando o jovem de origem modesta parte para Lisboa é Margarida que fica para trás, na Horta, junto da sua família rica em falência, apenas voltando a ser feliz com a chegada do tio Roberto Clark e a perspectiva de ir com ele para Inglaterra e abandonar a vida insular.

"O silêncio do Bairro Alto assaltava-o, como um turno de sentinelas que estão para entrar de quarto, acordando-lhe as recordações e as ideias associadas, para que se pusessem alerta a fim de que o mundo não morresse. O mundo, aliás, nunca lhe parecera tão vivo, representado na sua solidão de solteiro pela própria força do silêncio da noite e do esgotamento de um dia gasto à espera daquela mensagem de Margarida, que dois meses enchiam de uma necessidade dolente e tornavam cada vez mais longínqua."

Neste relato da sociedade açoriana da época, da peste que assola as ilhas e dos ressentimentos existentes entre as duas famílias de classes distintas, ao mesmo tempo que Nemésio pinta um quadro geral dos Açores do século XX foca-se também na história particular destes dois jovens e em particular de Margarida. Respira-se em todo o romance uma necessidade de libertação da insularidade, desta visão fechada sobre as condições sociais - e é Margarida quem o vê acima de todos os outros.

Há, ao longo de toda a obra e de todos os encontros e desencontros que Vitorino Nemésio encontra para demonstrar a ilha que cada ser humano tem a prender uma parte de si, um sentimento de opressão, de tempestade (literal e figurativa) neste canal que separa o Faial do Pico e também no coração dos que ainda têm ambição e esperança de fugir às convenções, ao que a sociedade açoriana impõe.

A escrita densa de Nemésio e o seu "sotaque literário" à moda dos Açores podem atrasar um pouco a leitura, mas não deixam de fascinar pelo detalhe e de promover uma identificação com os pensamentos e sentimentos dos protagonistas. A sensibilidade com que cria Margarida e João faz-nos torcer pela sua liberdade e pelo seu amor - mesmo até depois do final do romance.

sábado, 5 de agosto de 2017

A Fórmula da Felicidade - Nuno Duarte e Osvaldo Medina

Existirá uma fórmula da felicidade que nos torne a todos pessoas felizes apenas por a ouvirmos da boca do seu genial autor? Esta é a premissa também ela genial desta novela gráfica em dois volumes, bem portuguesa e muito bem escrita, que deixa na boca um gosto amargo de dor e esperança na humanidade.

Vitor é um rapaz aparentemente normal, esforçado na escola e inteligente, que vive no seio de uma família disfuncional: sem pai, com uma mãe frágil que atrai homens detestáveis e a atenção de toda a cidade onde vivem. Um dia surge-lhe na mente uma fórmula matemática da felicidade e percebe que, ao dizê-la em voz alta a cada pessoa, estas se sentem mais felizes que nunca. Torna-se uma celebridade e é constantemente procurado por todos, o que o deixa sem vontade de continuar a vestir esta personagem que, ao contrário dos outros, não lhe trouxe felicidade. A vida difícil dos que o rodeiam e o regresso de alguém do passado leva-o a pôr em causa a sua nova realidade e a querer escapar ao que se tornou antes que seja tarde demais.

Se o desenho parece, do início ao fim, um esboço de um trabalho inacabado - propositadamente, parece-me, pois Vitor também não tem a sua vida estruturada como gostaria -, a história está bastante clara na mente dos autores, a fluidez da escrita é um traço muito característica desta obra. As personagens são animais em lugar de pessoas, mas comportam-se como pessoas, vivem num mundo que pertence aos humanos, como se de uma fábula se tratasse, mas sem o final moralista - ainda que, a todos os níveis, forte e sensibilizador.

A forma como o segundo livro desta série pega na história do primeiro e distorce a inocência de Vitor, tornando-o uma pessoa verdadeiramente infeliz com a vida que a inteligência lhe deu (ao contrário do que seria usual), torna este segundo volume ainda mais fascinante do que o primeiro. E isto porque Vitor, novamente, sente que precisa de uma mudança na sua vida e que a fórmula já não serve o propósito que pretendia ao criá-la. O mundo continua a destruir-se, a humanidade continua perdida, e não são momentos frágeis e efémeros de felicidade (efémeros como toda a felicidade o é, sempre) que o vão impedir.

O final triste mas belo, toda a esperança contida naquelas palavras e imagens finais, na vida face à morte, na felicidade real face à inventada/mostrada, na simplicidade da vida e na humanidade, face à maldade e ao que nos torna pessoas piores - tudo isto torna 'A Fórmula da Felicidade' uma pequena grande obra-prima da banda desenhada de cunho nacional :)