quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O Inverno do Desenhador - Paco Roca


"Quando disse que ia deixar o banco para ser desenhador, foi como se tivesse dito que queria ser bailarina de cabaré."
'O Inverno do Desenhador', Paco Roca

Um primeiro contacto inesquecível com Paco Roca e as suas novelas gráficas  com carga dramática, escritas e ilustradas com muita sensibilidade. 'O Inverno do Desenhador' é, apesar da sua história documental e profunda, uma primavera de sensações e de histórias magnificamente desenhadas, que deixa aquela vontade enorme de conhecer mais do trabalho do autor.

Em género de documentário, Paco Roca conta aqui a história real de um grupo de cinco desenhadores da maior editora espanhola de BD, a Editorial Bruguera, que em 1957, durante a ditadura franquia, saíram da editora e criaram uma publicação própria, a revista 'Tío Vivo'. Fizeram-no por o seu trabalho não ser devidamente reconhecido na época: não recebiam direitos de autor, pois não detinham os direitos sobre as suas criações, nem podiam preservar os seus desenhos originais.

A aventura de Guillermo Cifré, Carlos Conti, Josep Escobar, Eugenio Giner e José Peñarroya durou  apenas um ano e pouco: como a Bruguera controlava a distribuição e detinha as suas criações mais famosas, não conseguiram que a sua revista se afirmasse junto do público e acabaram por regressar à editora cabisbaixos e sem terem conseguido concretizar o seu sonho. Ainda que não seja propriamente uma história de sucesso, mostra a coragem deste homens em afirmar-se contra o poder instalado durante uma época em que a liberdade era uma miragem e a imprensa se encontrava muito controlada.

E Paco Roca ilustra na perfeição os sentimentos e estados de espírito dos protagonistas, os avanços e recuos da história e da sua tentativa de fugir à ordem instalada, de gerar discussão em torno da questão dos direitos de autor, e sobretudo de procurar uma vida mais digna e melhor para os desenhadores e as suas famílias. Se o seu traço já é, por si só, cuidado e suave, a cor de fundo das páginas a alterar-se consoante a estação do ano e a intensidade dos acontecimentos tornam este 'O Inverno do Desenhador' uma experiência ainda mais inesquecível.

É interessante descobrir como o autor procurou conhecer esta história a fundo, para a poder dar a conhecer na sua arte, a banda desenhada, da forma mais real possível. Para isso falou com os intervenientes ainda vivos desta história e, através destas cores diferenciadas, da descrição visual e textual da época e da criação de personagens profundas e com as quais nos deixamos identificar, construir este mundo da Espanha franquista de 1957 para nos fazer entrar de forma ainda mais permanente na história.

O resultado é uma novela gráfica documental à qual vamos sempre associar esta história dos cinco desenhadores sonhadores e destemidos que lutaram pelos seus direitos.

sábado, 3 de dezembro de 2016

A Leste do Paraíso - John Steinbeck

"Por entre as lágrimas que brotavam, Aron podia ver a expressão dos olhos de Cal, duros e determinados. Não havia lágrimas nos olhos dele."
'A Leste do Paraíso', John Steinbeck

Falar de livros como este é sempre ficar aquém, a leste do que significa verdadeiramente a sua leitura. É a melhor prenda que podemos oferecer ou recomendar a outra pessoa: preenche-nos e2 vai ao nosso íntimo buscar algo que sempre lá esteve mas nunca se manifestou; é uma redescoberta do papel do ser humano no mundo e um grito de liberdade e de vontade própria que redefine a sua capacidade de construir o seu próprio destino.

'A Leste do Paraíso' tem como enquadramento bíblico a história de Caim e Abel, dois irmãos que não são os melhores amigos. O mesmo acontece com o protagonista, Adam, que tem uma relação problemática com o irmão Charles e até mesmo com o pai de ambos. A história de Cathy Ames, uma rapariga perturbada retratada aqui como um verdadeiro monstro, sem coração e sem consciência, é narrada em simultâneo. Adam apaixona-se por ela, mudam-se para o Vale de Salinas, e desta união nascem dois irmãos, Aron e Cal, o primeiro mais calmo, favorito do pai, e Cal o que parece assemelhar-se ao espírito maldoso da mãe. Em paralelo, Sam Hamilton cria com a esposa nove filhos e torna-se amigo de Adam quando este chega a Salinas.

"- Meu Deus - disse ele -, faz com que eu seja como o Aron. Não me faças mau. Eu não quero ser mau. Se fizeres com que toda a gente goste de mim, dar-te-ei tudo o que quiseres. E se não o tiver, irei buscá-lo onde estiver. Eu não quero ser mau e não quero ficar sozinho. Ámen."

Revelar mais do que estes - já demasiados! - pormenores da história seria trair a intenção do autor de dar a descobrir, aos poucos, estas personagens tão ricas cujas vidas se entrelaçam de formas que nunca conseguiremos esquecer. Nas várias 'partes' que constituem o livro, parece intensificar-se o crescendo dramático e a história parece caminhar, de forma comedida, para uma descoberta final que vai mudar o futuro destas personagens.

Se Charles e Adam, numa primeira geração, já apresentavam características semelhantes à história de Caim e Abel, Cal e Aron mostram de forma ainda mais profunda, ainda que talvez mais subtil, a recriação desta história trágica. Há em Cal um conflito constante de sentimentos, uma luta interior do bem contra o mal, fruto da bondade do pai e da monstruosidade da mãe, que o tornam um rapaz constantemente indeciso e interessante do ponto de vista das suas acções futuras - e ao mesmo tempo uma pessoa com a qual facilmente nos identificados nos vários cambiantes do nosso estado de espírito.

Adam, Cal e o sábio Samuel Hamilton destacam-se talvez pela sua complexidade e pelo papel de relevo que têm neste 'A Leste do Paraíso', mas não há personagem com um papel mais importante e interessante como Lee, o criado chinês de Adam que aos poucos se torna um tutor para os seus filhos e um amigo para o pai das crianças. É uma personagem que, ao revelar-se, foge o estereótipo e se mostra inteligente, educada e decisiva na história.

"Não compreendo porque é que a condição de criado tem má fama. É o refúgio do filósofo, o alimento do preguiçoso e, se for bem compreendida, é uma posição de poderia e até de amor. Não percebo como é que não há mais pessoas inteligentes que abracem esta carreira, lhe aprendam os segredos e dela beneficiem."

É ele, inclusive, quem relê com Adam e Samuel a história de Caim e Abel e detecta um erro na tradução para o inglês que condiciona todo o sentimento religioso e toda a interpretação errada da história. 'A Leste do Paraíso' poderia ser descrito apenas numa palavra hebraica cujo entendimento é fundamenta para compreender o nosso papel no mundo: "timshel". Deus não queria dizer "tu dominarás o pecado", nem "tu dominas", mas sim "tu podes". É a capacidade humana de decidir, de escolher, de querer ou não dominar o pecado, seguir o caminho do bem em lugar do caminho do mal. Isto em Caim, e o mesmo em Cal.

O que mais impressiona e entusiasma é esta capacidade de identificação, esta proximidade com as personagens. São verdadeiramente humanas, erram, precisam de acreditar num Deus para sobreviver à loucura, à dor e à vida, e isso torna-as tão reais que toda a sua história nos emociona. Steinbeck tem esta capacidade de nos envolver neste paraíso literário, no entanto trágico e realista, tão melhor que o filme e que qualquer outra possível interpretação noutra linguagem, que nos faz querer mais e mais desta sensação única que nos proporciona.

"Mas 'tu podes' é algo que engrandece o homem e o eleva ao tamanho dos deuses, porque, apesar da sua fraqueza, da sua imundície e do assassínio do irmão, é ele ainda quem dispõe da grande escolha. Pode escolher o caminho, lutar para o percorrer e vencer."