quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Agatha: The Real Life of Agatha Christie - Martinetti/Lebeau/Franc

"My life is not a novel."
'Agatha: The Real Life of Agatha Christie', Martinetti/Lebeau/Franc

A história de um escritor entrelaça-se naturalmente com as histórias e as personagens que vai conhecendo na sua imaginação. O mais curioso em Agatha Christie é que é difícil escolher qual a história mais interessante: se a de uma das suas obras, se a a história da sua própria vida. E conhecer tudo isto numa novela gráfica recheada de referências e de um humor muito próprio é absolutamente mágico.

Agatha cresce entre o amor do pai e a 'concorrência' da irmã, também escritora, que mais tarde a incentivaria a escrever. Casa cedo com Archibald Christie, que lhe dá o nome de escritora e uma filha, Rosalind. Mas ao ver-se traída, Agatha torna-se a personagem de uma das suas histórias e desaparece misteriosamente, reaparecendo dias mais tarde, quando Archie já está a ser acusado da sua morte, dizendo não se recordar de nada. É neste momento que a sua vida muda, deixa o marido e conhece mais tarde um arqueólogo com quem se volta a casar. E entretanto surgem as suas personagens mais famosas e inesquecíveis, como Miss Marple, Poirot e Tommy e Tuppence, e muitas histórias com base nos locais que conhece, nas experiências da sua vida e nas suas muitas viagens pelo mundo.

Nesta novela gráfica, não há momento importante da vida de Agatha em que as suas personagens mais carismáticas não estejam. Mesmo quando tem de as abandonar para sempre, perto do final da vida ou apenas por acreditar ter chegado a hora de se despedir delas. Poirot, a personagem com mais casos policiais desvendados e mais histórias protagonizadas, acompanha esta Agatha de banda desenhada - mas tão real - praticamente durante toda a sua vida. Os autores imaginam entre eles diálogos deliciosos, de uma Agatha que deve muito a Poirot mas nem por isso o idolatra e gosta de o ter sempre como uma voz interior a dizer-lhe como proceder, e por outro lado de um Poirot intrometido que não larga a sua criadora nem mesmo quando esta precisa de paz de espírito e liberdade para pensar.

É curioso este elemento fantástico numa história que, apesar disso, parece ter tão pouco de irreal. Mesmo a recriação do desaparecimento misterioso de Agatha é escrita e ilustrada de uma forma muito cuidada, com a curiosa associação às possíveis reacções das personalidades que a admiravam, mas sempre procurando não fugir aos factos mais do que aproximar-se das especulações sobre a eventual premeditação da sua ausência.

É também interessante a presença de Arthur Conan Doyle na sua infância, através das histórias  de Sherlock Holmes que lia e certamente a influenciaram, e mais tarde vê-lo também como admirador de Agatha, recorrendo até ao espiritismo que caracterizou uma segunda fase da sua vida para entender melhor as suas motivações neste momento de desaparecimento e ressurgimento. É aliás este momento que dá início à novela gráfica e a partir do qual se parte para uma narração mais cronológica da vida da autora.

O que nos dá a conhecer, mais do que a autora que via em tudo quanto eram viagens, espaços, pessoas e experiências uma nova história para contar (ainda que, a certa altura, quase as escrevesse por encomenda, mais do que por ter de facto algo para contar ou vontade de o fazer de certa forma), é sobretudo Agatha, a mulher, a esposa, a mãe; a super-mulher. É uma mulher corajosa, determinada, muito inteligente e, com a idade, cada vez mais exigente consigo e com os outros. É a autora que raramente gosta dos filmes que fazem dos seus livros, mas que até gostou de Billy Wilder e da sua adaptação do 'Witness for the Prosecution'. É a mulher que desafiou, sempre que necessário, os seus editores para poder escrever histórias como 'And Then There Were None', em lugar de escrever mais um dos policiais do seu Poirot que o público tanto apreciava.

Esta vida de Agatha Christie é aqui contada de forma muito coerente, bem humorada, emotiva e dramática quando é preciso, recheada de referências para quem conhece as suas histórias e a sua história, e particularmente inspiradora para quem admira a mulher por detrás dos títulos de 'Dame' e 'Rainha do Crime'. De forma simples e maravilhosa, os três autores conseguem homenagear de forma muito bonita a vida de Agatha, a sua obra e tudo o que criou e que, cem anos após a publicação da sua primeira obra (e de Poirot), 'The Mysterious Affair at Styles', continua a fascinar muitas gerações.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Peter Pan & Peter Pan in Kensington Gardens - J.M. Barrie


"All children, except one, grow up."
'Peter Pan', J.M. Barrie

É um clássico da literatura juvenil e uma das histórias mais conhecidas que a Disney adaptou ao cinema. 'Peter Pan' é, no livro que J.M. Barrie trouxe ao mundo, uma personagem bem mais negra do que a que conhecemos - e a sua vida ficcionada uma história dura, adulta e comovente como poucas histórias para crianças de todas as idades.

Peter Pan é o jovem que nunca cresce, que entra pela janela do quarto de Wendy Darling e dos irmãos em busca da sua sombra e muda para sempre as suas vidas. Leva-os a voar para a Terra do Nunca, onde lidera um grupo de rapazes 'perdidos', fala com fadas e depressa faz com que os convidados esqueçam o local de onde vieram, a sua história e a sua família. Wendy torna-se a 'mãe' de todos os rapazes, a que cuida deles em todos os momentos, e Peter o 'pai' que os leva a viver aventuras e a lutar contra índios e piratas como o Capitão Hook.

Nestas histórias de crianças há sempre bons e maus, o bem e o mal representados em certos estereótipos e personagens com as quais facilmente nos identificamos. Há também uma certa idealização dos pais e dos adultos como seres radicalmente diferentes das crianças, que não as compreendem, que não sabem o que é ser criança. Há maus da fita, como o Capitão Hook, e os bons que nunca se abandonam uns aos outros e lutam pela sobrevivência.

Mas há muito mais do que isso nestas aventuras que Peter Pan vive com os novos amigos e os meninos perdidos na Terra do Nunca: há por detrás delas um rapaz que nunca cresceu. Peter não é mais do que um menino mimado que odeia a figura materna, por a sua mãe o ter abandonado e substituído por outro menino; é egoísta, inconsciente e irrealista, só ouve e lembra aquilo que diz,;não conhece nada da vida - não sabe o que é um beijo nem entende o verdadeiro significado das coisas.

"They are the children who fall out of their perambulators when the nurse is looking the other way. If they are not claimed in seven days they are sent far away to the Neverland to defray expenses. I'm captain."

Se Peter esqueceu por completo a sua vida antes da Terra do Nunca, Wendy nunca quis ficar ali para sempre. Quando chegou a altura certa, quis regressar a casa, para junto dos pais, com os irmãos que já não se recordavam bem de ser crianças normais e com todos os novos irmãos que ganhou graças a Peter. Mas Peter nunca quis voltar, só ocasionalmente e enquanto lhe foi possível lembrar-se, por Wendy e por toda a sua linhagem de filhas e netas a quem foi dando a conhecer a sua residência permanente.

É, por isso, mais do que uma história para crianças recheada de aventuras, de bons e maus, de crianças felizes, uma história de falta de amor, escrita de uma forma descritiva mas intensa, com situações verdadeiramente tristes e perigosas, que terminam sempre deixando-nos a lágrima ao canto do olho.

Depois da intensidade da difícil vida de Peter Pan, por quem simpatizamos pela inocência típica do que é ser criança e nunca vir a ser adulto, a segunda história fica necessariamente aquém das expectativas, mostrando-nos a história de todos os que fogem de casa para visitar os Kensington Gardens e a do próprio Peter ao regressar a casa e ver que já era tarde demais. É uma espécie de prequela da obra original, igualmente negra e muito mais adequada a uma leitura adulta do que juvenil. Ainda assim, faz parte do imaginário de J.M. Barrie e é interessante conhecer melhor este mundo alternativo que criou.

Barrie eternizou em Peter 'Pan' - a palavra que vai para sempre caracterizar a eternidade da juventude, a capacidade de nunca ter de crescer e chegar à idade adulta - o seu irmão de 14 anos que morreu precocemente, e ao fazê-lo criou um amigo eterno para todas as crianças que, por o serem, precisam sempre de amigos e aventuras onde desenvolver a sua imaginação, de uma quantidade infinita de pó de fadas como a Sininho para poderem voar até onde a criatividade os levar. Temos de lhe agradecer esta capacidade de mexer com crianças e adultos de uma forma tão diferente e com uma sensibilidade tão própria dentro de cada um de nós.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Roald Dahl: os 100 anos do mágico da literatura infantil


As histórias e os livros infanto-juvenis de Roald Dahl são algumas das primeiras experiências de leitura que muitos recordam. Os filmes baseados na sua linguagem criativa e fantástica continuam a ser dos mais icónicos que uma criança pode ver nos seus primeiros anos de vida. O escritor da nossa infância – e de todas as infâncias, na verdade – faria esta semana 100 anos e a sua vida e obra são celebradas em todo o mundo, em todas as línguas e em cada uma das personagens mágicas e inesquecíveis que criou.

artigo completo em em maquinadeescrever.org :)

sábado, 3 de setembro de 2016

Os Enamoramentos - Javier Marías


"A última vez que vi Miguel Desvern ou Deverne foi também a última vez que a mulher, Luísa, o viu, o que não deixou de ser esquisito e porventura injusto, visto que ela era isso mesmo, sua mulher, e eu, em contrapartida, era uma desconhecida e nunca tinha trocado uma palavra com ele."

Uma prenda também ela enamorada que me conquistou pela fluidez da escrita e pela sensibilidade da história, desde este primeiro parágrafo. É na primeira pessoa que Maria, mera observadora de uma história de amor, se apropria de uma verdade crua que a envolve para sempre com estas personagens quase saídas de um livro e nos dá a conhecer a genialidade de Javier Marías.

Luísa e Deverne são o casal maravilha que Maria, editora de livros, observa diariamente no café onde toma o pequeno-almoço. Até que um dia deixa de os ver, e quando volta a observá-los Deverne já lá não está: foi assassinado por um sem-abrigo que o confundiu com outra pessoa. E de um momento para o outro a vida de Luísa e dos seus filhos é abalada por uma tragédia irreversível. E a vida de Maria muda para sempre com uma aproximação espontânea a Luísa, que a leva a conhecer Javier Díaz-Varela, o melhor amigo de Deverne, e pormenores que nunca imaginou sobre a sua morte.

O que começa por ser uma história de perda transforma-se, a meio, num romance de enamoramentos e desenamoramentos a propósito de paixões alheias, regressando no final, novamente, ao tema do poder do tempo sobre a morte e a necessidade humana de ultrapassar a dor. Mais do que uma necessidade, até, porque ser humano é isso mesmo: sofrer, mas seguir em frente quando o tempo consegue curar a dor.

"Por assim dizer, eu desejava-lhes todo o bem do mundo, como às personagens de um romance ou de um filme por quem tomamos partido desde o princípio, cientes de que lhes vai acontecer algo de mal, de que a qualquer momento algo lhes vai dar para o torto, pois senão não haveria romance nem filme."

Javier Marías oferece à narradora Maria uma grande sensibilidade no relato da história, também por se tornar aos poucos parte da história, em lugar da simples observadora que era inicialmente. Os seus encontros com Javier; a forma como romanceia naturalmente a sua vida e as dos outros (fruto da sua profissão e paixão pelos livros); o que imagina que aconteceu e o confronto destas imaginações com a realidade, quando lhe é apresentada...

Tomamos o seu partido a cada revelação, a cada aproximação ou afastamento dos seus momentos de enamoramento. Sabemos exactamente o que ela sabe, imaginamos exactamente as mesmas formas de romancear a vida, e por isso surpreendemo-nos também, com ela, com a capacidade humana de as pessoas se reinventarem nas adversidades.

O autor mostra ao mesmo tempo uma grande paixão pela literatura, ao entrecortar o seu relato - de forma tão íntima e profunda - com a história de Balzac sobre o coronel Chabert, dado como morto em batalha, que ao regressar vivo já não é bem-vindo pela esposa que deixara viúva. Deverne já não volta, e Luísa já não o quereria de volta de qualquer forma. Porque precisa de seguir em frente e já o fez, de certa forma - fá-lo, aliás, a cada segundo que passa desde o momento em que o marido foi apunhalado e a sua memória fica cada vez mais distante, mais manchada pela dor do que pelas boas recordações de uma vida partilhada.

A escrita apaixonante, mais do que a complexidade das personagens e uma certa novelização da história, torna Marías um autor a explorar, na tradução ou na sua língua original (quem sabe), para que novas histórias nos possam abalar e maravilhar enquanto nos apercebemos das nossas próprias fragilidades enquanto seres humanos.