quarta-feira, 27 de julho de 2016

V de Vingança - Alan Moore e David Lloyd

Uma distopia em formato de novela gráfica. Talvez seja a melhor forma de descrever este 'V de Vingança' sem revelar pormenores do seu enredo criteriosa e magicamente criado por Alan Moore. Mais uma prova de que a banda desenhada é para todas as idades e pode ser um veículo perfeito para poderosas histórias de ficção com muito de verosímil.

Em 'V de Vingança', Inglaterra vive sob domínio de um regime totalitário, com câmaras que vigiam cada movimento das pessoas e organismos estatais que controlam tudo o que acontece no país. V, um anárquico anónimo que usa uma máscara, destrói todos os que, no passado, destruíram a sua vida, enquanto aos poucos procura fazer a revolução e inspirar uma jovem, Evey Hammond, a continuar a sua luta pela liberdade.

É uma realidade distópica e alternativa (dizer futurista não é propriamente correcto) aquela que argumentista e ilustrador retratam nesta banda desenhada. Não há liberdade individual nem de expressão, não há justiça nem respeito pelas pessoas. Quando V inicia a sua revolução - que é também pessoal -, a anarquia instala-se, tal como pretendia, o que aperta o cerco dos governantes mas também lhes retira credibilidade.

E era exactamente esta anarquia que pretendia, como conta muitas vezes a Evey, a jovem que de certa forma resgatou das ruas para fugir à prostituição, à demência e à ditadura fascista. Porque depois da destruição tem de vir sempre uma nova construção, de raiz, pelos que têm bom coração e sabem o que é melhor para o renascimento democrático de um país.


'V de Vingança' lembra muito o regime totalitário de '1984' e tem aquela capacidade de união e força, de identificação das pessoas e de incitação à revolta que lembra também 'Os Jogos da Fome'. Por muito que os países e regimes políticos em que vivemos não sejam ditatoriais como os descritos (ainda que possam já o ter sido no passado e haja actualmente, em outros lugares do mundo, ainda, regimes do género), conseguimos identificar-nos com esta necessidade de revolução e somos capazes de olhar à nossa volta de uma forma mais crítica em relação às condicionantes das nossas vidas.

Não será sempre esse o papel ideal da literatura - fazer com que nos apercebamos do que nos rodeia e com que olhemos a realidade com outros olhos?

O traço elegante mas de cores frias, verdadeiramente cru e cortante, de David Lloyd, transporta-nos igualmente para este mundo alternativo que podia acontecer em qualquer lado, em qualquer altura, e cuja verosimilhança nos deixa totalmente sem palavras a cada capítulo. É sem dúvida uma das obras essenciais de banda desenhada e obrigatória para quem gosta de quadradinhos mais sérios. 

sábado, 23 de julho de 2016

O Mundo de Ontem - Stefan Zweig

"Cada um de nós, mesmo o mais pequeno e insignificante, viu a sua existência mais íntima revolvida pelas convulsões vulcânicas, quase ininterruptas, da nossa terra europeia; e, no meio dos numerosos outros, não consigo atribuir-me nenhuma primazia senão esta: a de, enquanto austríaco, enquanto judeu, enquanto humanista e pacifista, ter estado sempre exactamente no ponto em que estes abalos sísmicos mais se fizeram sentir."
O Mundo de Ontem - Stefan Zweig

Há uma expressão que vou para sempre associar a Stefan Zweig, à sua vida e à sua morte: a existência e a perda de uma "pátria espiritual" que ele próprio criou. 'O Mundo de Ontem' é o melhor título para ilustrar as memórias de um homem que nasceu num mundo feliz e despreocupado, onde quase de repente se tornou impossível viver e muito menos pensar em criar um mundo do amanhã.

Stefan Zweig nasce em 1881 em Viena, no auge de prosperidade do Império Austro-Húngaro e numa cidade culturalmente muito rica e activa. Tem uma educação privilegiada, viaja por toda a Europa enquanto jovem, conhece e torna-se amigo de muitas personalidades da época (com Rolland, Valéry, Freud, Rillke, Verhaeren etc.). 

Com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, um sentimento patriótico em torno da vizinha Alemanha leva a população austríaca a unir-se mais que nunca. Zweig afasta-se das questões da guerra e torna-se pacifista, escrevendo inclusivamente sobre a necessidade de regressar à paz. Traduz muitas obras de e para o alemão, escreve alguns dos seus mais famosos ensaios e romances, e os anos do pós-guerra levam-no à crença de uma Europa unida, de uma paz impossível de se desestabilizar novamente.

A ascensão de Hitler na Alemanha, nos anos 30, no entanto, fá-lo entender que esta crença não passara de uma ingenuidade. Muda-se para Inglaterra e faz poucas e breves visitas à sua pátria, que em breve também deixará de o ser: os seus livros são proibidos na língua alemã, a Áustria é invadida pelo exército de Hitler e a II Guerra Mundial prova a toda a Europa que ainda não tinha chegado o fim da sua agonia. Pior, que estes anos de sofrimento seriam ainda mais intensos do que alguma vez o foram.

Relato estes passos da vida de Stefan Zweig apenas para ilustrar a sorte e o azar que teve, em simultâneo, de viver uma época historicamente tão rica, mas também tão sofrível. Poucos poderão dizer que viveram tanto, em tão pouco tempo, e de forma tão intensa como um homem das artes, um humanista e pacifista que acredita e confia na honestidade das pessoas, um judeu de família, um austríaco cidadão europeu. Não podemos imaginar nem uma pequena parcela do que viveu, embora estas suas memórias nos permitam entender perfeitamente os acontecimentos que criaram a sua personalidade e todos aqueles que lhe foram, aos poucos, destruindo a liberdade individual.

Por tudo isto, quando se exila no Brasil, em 1941, com a segunda esposa Lotte, não planeia regressar mais à Áustria, que agora o renega e à sua obra. Deixa de a ter como pátria física; é renegado, até, como cidadão austríaco. E da Europa leva apenas a saudade de um passado e a ilusão de uma pátria espiritual que existiu em tempos, num continente de livre circulação, de liberdade de pensamento e liberdade de expressão. Este mundo que ontem era, hoje já não o é. Desapareceu, como toda a vida que conhecera antes daquele momento.

"Se havia arte que tínhamos de aprender de novo, nós, os perseguidos e desalojados daqueles tempos hostis a qualquer arte e a qualquer coleção, essa era a arte de dizer adeus a tudo o que tinha sido outrora o nosso orgulho e o nosso amor."

Nas antigas pátrias deixa uma grande parte do que construíra e coleccionara ao longo de uma vida inteira: objectos que pertenceram a grandes personalidades que admirava e coleccionava; os seus livros e outras obras que estavam na sua posse; enfim, todos os pertences que estimava e que o exílio não permitira transportar para um local tão longínquo como o transatlântico Brasil. Os seus meses em Petrópolis, perto do Rio de Janeiro, são por isso sombrios, depressivos e sem qualquer humanidade a que se agarrar.

Para a escrita deste 'O Mundo de Ontem', livro autobiográfico e de memórias, o homem que outrora fora um dos autores mais aclamados da Áustria e da língua alemã pôde apenas utilizar e basear-se, precisamente, na sua própria memória. Tudo o que escreve pode ser enviesado pela distância temporal e pela opinião que tem de si mesmo (perante si e perante os outros). Não deixa, no entanto, de ser um exercício de memória muito emotivo e um notável relato histórico da época que viveu.

E se 'O Mundo de Ontem' não é historicamente perfeito, é-o, pelo menos, como obra literária - e como memória de um homem muito interessante de conhecer de forma tão íntima. A sua escrita, como nas obras de ficção, é mais do que um simples relato de uma história: é uma construção narrativa carregada de sentimento, de um humanismo contagiante, de uma nostalgia única. Conhecer Stefan Zweig, aqui, é ler tanto a história macabra da maldição das suas peças de teatro quando (quase) levadas à cena, como também os últimos dias da mãe na Áustria antes de Hitler ter invadido o país e procurado os judeus para eliminar a sua presença da Europa.

Por outro lado, é também levar-nos, enquanto leitores interessados e apaixonados, mais de 70 anos após a sua morte, a descobrir mais sobre este homem, as suas emoções e intenções, a sua vida mas também a sua morte. Porque em 1942 acreditava-se que Hitler não pararia pela Europa e Zweig temia que o sol, o calor e a beleza de um Brasil turístico e despreocupado fossem destruídos para sempre por este homem que queria conquistar o mundo. E ele, Stefan Zweig, o que seria depois disso? Aos 60 anos, continuaria a fugir? Como poderia reconstruir novamente e eternamente a sua vida, criando um mundo de amanhã que se pudesse assemelhar, o mínimo possível, ao mundo de ontem que já não existia?

Em Fevereiro de 1942, Zweig e a sua esposa põem fim à vida na sua casa de Petrópolis, onde nos últimos cinco meses o autor e o homem que neste livro se nos dá a conhecer compôs nostálgica e melodicamente um relato escrito das suas memórias. Para ele não havia outro destino possível, depois de ter perdido praticamente tudo o que a sua vida procurara construir. Para nós, que o lemos hoje, não há forma melhor de nos continuarmos a apaixonar pela sua existência e pela sua obra do que com este inesquecível 'O Mundo de Ontem'.


Outras leituras de Zweig:

sábado, 9 de julho de 2016

O Segredo dos Seus Olhos - Eduardo Sacheri

"Era inveja. O amor que aquele homem tinha vivido despertava-me uma enorme inveja, para lá da piedade que me suscitasse a tragédia em que esse amor acabara por naufragar."
'O Segredo dos Seus Olhos', Eduardo Sacheri

Uma das maravilhas adquiridas este ano na Feira do Livro de Lisboa, porque estava mesmo na altura de recordar esta história. Quando comecei a lê-lo ainda durante a feira, em longas tardes passadas à sombra das árvores na bonita relva do Parque Eduardo VII, sabia que ia voltar a emocionar-me com a investigação de Chaparro e a rever cada frame do filme à medida que a história se ia revelando.

Em 1968, Benjamín Chaparro, vice-secretário de um tribunal de instrução na Argentina, fica encarregado da resolução de um caso de homicídio de uma jovem mulher que deixou um marido de coração partido. Entre o dia-a-dia de Chaparro no tribunal, o seu amor quase platónico por uma mulher e a busca infrutífera do assassino pelo marido da vítima, Ricardo Morales, passam 25 anos sobre o início do caso. A reforma de Chaparro leva-o a escrever um livro sobre toda esta investigação e a revistar as provas, os acontecimentos e esta paixão antiga que se mantém bem presente.

"É porque pela primeira vez sabe que hoje sim, sem falta e sem demora, tem de ir bater à porta do gabinete; ouvir a voz dela a dizer-lhe que entre; plantar-se como um homem diante da mulher que ama; ignorar a pergunta trivial que os lábios dela soltam quando o recebem a sorrir; pagar, ou cobrar, a dívida que tem pendente e que é o único motivo válido que encontra para continuar a viver. Porque Chaparro precisa de responder àquela mulher, de uma vez e para sempre, a pergunta dos seus olhos."

'O Segredo dos Seus Olhos' é a história de Chaparro e Irene, do seu amor impossível e afastado pelo tempo e pela vida; dos olhos dela, que tanto parecem dizer, e dos olhos dele, que tanto gostavam de poder e saber colocar em palavras aquilo que sentem e o segredo que encerram. Mas é também a história do amor possível vivido por Morales, interrompido abrupta e injustamente por um assassino frio e cruel, que lhe levou para sempre a Liliana que os seus olhos deixaram de poder voltar a contemplar e passaram apenas a registar pela memória dos melhores anos da sua vida passados a seu lado.

O amor de Ricardo Morales, a sua dedicação primeiro à esposa e, após a sua morte, ao desvendar do caso da sua morte, é verdadeiramente tocante - pelos pormenores, talvez até mais do que o filme nos permite entender. No entanto a dimensão visual do filme, a ausência de informação e descrições das acções, tornam-no mais eficazmente emotivo, tocando os temas e a história do livro de forma ainda mais sensível, verdadeira e crua.

Num e noutro, há um peso na consciência e uma emoção que não se conseguem conter, sobretudo na leitura e na descoberta cinematográfica do desfecho totalmente imprevisível (ainda que com pormenores diferentes entre as duas linguagens culturais). 

São dois homens com duas paixões inspiradoras, que Eduardo Sacheri criou e escreveu de forma bastante interessante, e que no cinema atingem o seu expoente máximo de expressão (a todos os níveis). Sem dúvida uma leitura pouco adequada a passeios de Verão, mas muito relevante para entendermos um pouco melhor a vileza da natureza humana, o poder do amor e sobretudo, na lição de Chaparro, que nunca é tarde para se ser feliz.

"Quando posteriormente me contou com luxo de detalhes tudo o que acontecera nesse pequeno-almoço, não o fez como o comum dos mortais, que procuram reconstruir a partir de vestígios quase ilusórios, ou a partir do que recordam fragmentariamente de outras ocasiões similares, situações ou sensações que perderam para sempre. Morales não. Pois sentia que ter Liliana era uma felicidade abusiva, que nada tinha que ver com o que fora o resto da sua vida. E que, tal como o cosmos tende para o equilíbrio, mais tarde ou mais cedo ele teria de perdê-la para que as coisas voltassem à sua ordem devida. Cada uma das suas recordações com ela tingia-se dessa sensação de naufrágio iminente, de catástrofe ao virar da esquina."