sábado, 28 de março de 2015

Fogem as palavras, fica o sentimento

Todas as palavras parecem insignificantes, agora que partiste. Fogem todas quando queremos expressar verdadeiramente o que sentimos. Não é possível verbalizar a tristeza que nos abala o coração, as lágrimas que nos caem dos olhos, a dor que vai do nosso cérebro e se espalha por todo o corpo, como um choque eléctrico interminável que não conseguimos controlar. E tu partiste, e o mundo é um lugar mais sombrio, e de um momento para o outro tudo muda como se não tivesse havido instante anterior.

Foi um dia difícil, saber que partiste, saber que não voltaremos a ver-nos e a ter aquelas longas conversas sobre a escrita, as tuas personagens, as tuas ambições, as nossas vidas, as pessoas e as coisas que tínhamos em comum. Parece que ficou tanto por dizer, por fazer. Só queria que a vida fosse como os livros e pudéssemos reescrever o final, fazer uma sequela na qual toda esta história não passava de um sonho e afinal estás bem, estás aqui, és tu novamente.

Contigo aprendi que uma boa pessoa pode assumir várias formas, independentemente das suas crenças. Aprendi que nem sempre as personagens 'boas' são as mais interessantes - e que mesmo os vilões têm um fundo bom e um motivo para serem 'maus'. Aprendi que um escritor bebe muita inspiração do que vê, do que ouve, do que lê, e quando a inspiração lhe vem escreve em qualquer lado, em qualquer guardanapo ou telemóvel, porque há coisas que não podem ficar só na cabeça.

sábado, 14 de março de 2015

A Invenção do Amor - José Ovejero


"Deixo-me ficar discretamente junto à porta, intimidado pela minha condição de intruso num luto ao qual nada mais me une além do desejo de sentir também eu próprio a emoção intensa que uma perda indubitavelmente provoca."
'A Invenção do Amor, José Ovejero'

É tão bom quando os livros nos arrepiam por nos serem tão próximos - por nos conseguirmos identificar com as personagens, por deixarmos que as sensações passem para nós. 'A Invenção do Amor' é um desses livros: queremos sempre conhecer a pessoa por detrás da máscara, mas também queremos que consiga manter o disfarce para descobrirmos até onde pode ir uma história de falsa identidade - que não existe se não para lhe dar uma identidade verdadeira.

Samuel é de facto Samuel, mas não aquele para o qual desejava ligar o homem do outro lado da linha, para dizer que a sua (do outro Samuel) tinha falecido e que ele deveria gostar de saber. A partir dessa chamada, sem saber bem porquê, Samuel (o que vamos acompanhar) assume a identidade do outro e conhece uma vida que não é a sua, que lhe oferece momentos tristes de perda e dor, e que ao mesmo tempo lhe dá a conhecer novas possibilidades para a sua - talvez pouco interessante? - vida.