sábado, 5 de agosto de 2017

A Fórmula da Felicidade - Nuno Duarte e Osvaldo Medina

Existirá uma fórmula da felicidade que nos torne a todos pessoas felizes apenas por a ouvirmos da boca do seu genial autor? Esta é a premissa também ela genial desta novela gráfica em dois volumes, bem portuguesa e muito bem escrita, que deixa na boca um gosto amargo de dor e esperança na humanidade.

Vitor é um rapaz aparentemente normal, esforçado na escola e inteligente, que vive no seio de uma família disfuncional: sem pai, com uma mãe frágil que atrai homens detestáveis e a atenção de toda a cidade onde vivem. Um dia surge-lhe na mente uma fórmula matemática da felicidade e percebe que, ao dizê-la em voz alta a cada pessoa, estas se sentem mais felizes que nunca. Torna-se uma celebridade e é constantemente procurado por todos, o que o deixa sem vontade de continuar a vestir esta personagem que, ao contrário dos outros, não lhe trouxe felicidade. A vida difícil dos que o rodeiam e o regresso de alguém do passado leva-o a pôr em causa a sua nova realidade e a querer escapar ao que se tornou antes que seja tarde demais.

Se o desenho parece, do início ao fim, um esboço de um trabalho inacabado - propositadamente, parece-me, pois Vitor também não tem a sua vida estruturada como gostaria -, a história está bastante clara na mente dos autores, a fluidez da escrita é um traço muito característica desta obra. As personagens são animais em lugar de pessoas, mas comportam-se como pessoas, vivem num mundo que pertence aos humanos, como se de uma fábula se tratasse, mas sem o final moralista - ainda que, a todos os níveis, forte e sensibilizador.

A forma como o segundo livro desta série pega na história do primeiro e distorce a inocência de Vitor, tornando-o uma pessoa verdadeiramente infeliz com a vida que a inteligência lhe deu (ao contrário do que seria usual), torna este segundo volume ainda mais fascinante do que o primeiro. E isto porque Vitor, novamente, sente que precisa de uma mudança na sua vida e que a fórmula já não serve o propósito que pretendia ao criá-la. O mundo continua a destruir-se, a humanidade continua perdida, e não são momentos frágeis e efémeros de felicidade (efémeros como toda a felicidade o é, sempre) que o vão impedir.

O final triste mas belo, toda a esperança contida naquelas palavras e imagens finais, na vida face à morte, na felicidade real face à inventada/mostrada, na simplicidade da vida e na humanidade, face à maldade e ao que nos torna pessoas piores - tudo isto torna 'A Fórmula da Felicidade' uma pequena grande obra-prima da banda desenhada de cunho nacional :)