domingo, 23 de julho de 2017

A Agência de Viagens Lemming - José Carlos Fernandes

Num mundo em que se viaja para ver tudo e nada, onde se vive de forma oca e fútil, onde tudo é efémero e se quer conhecer tudo a correr, José Carlos Fernandes encontra a história perfeita para metaforizar a sociedade actual e mostrar o seu génio no argumento e no desenho de forma astuta e brilhante.

O protagonista é o Sr. Zoloft, que quer conhecer o mundo mas sem abdicar das comodidades do dia-a-dia. O que em parte é explicado pelo seu exigente trabalho na secretaria de estado da procrastinação, onde lida diariamente com papeladas e burocracias. Vai por isso à Agência de Viagens Lemming, onde o funcionário lhe fará uma viagem virtual por destinos turísticos muito aliciantes (ou não), com nomes difíceis e muito características dentro da inexistência de coisas relevantes a apresentar ao turista comum.

'A Agência de Viagens Lemming' é assim uma viagem, também do leitor, por estes locais exóticos, sejam a cidade conhecida pelos seus urinóis públicos (brilhantemente arquitectados e cuja visita exige, obviamente, uma bexiga relativamente cheia para poderem ser experimentados), ou a cidade do Museu de Cera de Pessoas Banais, com figuras “selecionadas mediante escolha aleatória de nomes na lista telefónica".

A forma criativa e incisiva como descreve estes sítios - que não são assim tão ridículos e olharmos para a forma como hoje se faz turismo em muitos locais - funciona como uma sátira muito bem construída à forma contemporânea de ver a vida, de viajar e de viver, em última instância. Um mundo onde uma selfie num local que até pode nada ter de turístico é mais importante do que a visita propriamente dita a um local que possa significar algo para o turista.

Não deixa de ser curiosa a utilização do nome "Zoloft", como o medicamento anti depressivo, para esta personagem que quer viajar mas tem preguiça, que na verdade não sabe bem aquilo que quer e que está a fazer neste mundo, e que parece quase adormecida nesta impossibilidade de escapar à forma de vida formatada de que somos alvo e que ajudamos a perpetuar. 

Se ao mesmo tempo cada página desta banda desenhada nos deixa a rir às gargalhadas com as cidades inventadas de José Carlos Fernandes, deixa-nos também na boca um gosto amargo, e na mente, para sempre, a memória de uma grande e inesquecível história de "terror".

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