domingo, 30 de abril de 2017

Novela de Xadrez - Stefan Zweig

"O que me interessa e o que me intriga é unicamente a curiosidade posterior de averiguar se aquilo que aconteceu na altura na cela era ainda o jogo de xadrez ou já a loucura, se me encontrava à beira ou já dentro do precipício - apenas isso, única e exclusivamente isso."
'Novela de Xadrez', Stefan Zweig

Se há história que permite entender o momento final da vida de Zweig e toda a sua obra pós-emigração é esta 'Novela de Xadrez'. É a derradeira do autor austríaco, deixada em legado a todos os que admiravam a sua obra e que, 75 anos após o seu suicídio no exílio brasileiro, continua a cativar admiradores em todo o mundo.

'Novela de Xadrez' segue os passageiros de um navio com rumo a Buenos Aires, que descobrem que a bordo vai também o campeão do mundo de xadrez, Czentovic, arrogante e pouco amigável. Para conhecer o campeão, um grupo desafia-o para uma partida saindo derrotado, até um misterioso passageiro os começar a aconselhar. Onde terá este homem adquirido conhecimentos tão profundos de xadrez e a que custo, é o que a história procura desvendar ao mesmo tempo que o seu surgimento altera o rumo do jogo.

Como já é habitual em Zweig, o narrador é como se fosse o próprio autor, narrando a história na primeira pessoa - até introduzir um narrador secundário que é, na verdade, o principal. Nas suas novelas, quem narra raramente é o protagonista, mas sim alguém que toma conhecimento de uma história incrivel e inesquecível que lhe foi confidenciada.

Numa história para apaixonados de xadrez, Zweig mistura memórias e suposições bem reais da tortura e do sofrimento dos judeus durante o domínio Nazi com a dua ficção também ela bastante realista e credível dos demónios que continuam a atormentar estes homens torturados durante toda a sua vida.

Mais do que uma história sobre o xadrez como jogo, mostra como a vida tanto se parece a um jogo de xadrez, com os seus peões enfraquecidos na mente e no coração, no corpo e na capacidade de sobreviver à destruição do seu mundo. É um relato de um prisioneiro de guerra, do sofrimento e da loucura de um homem cuja vida não é mais que fruto das circunstâncias, cuja existência se pode resumir à de um refugiado, um fugitivo de tudo.

A semelhança com Zweig, que talvez não tenha sofrido nem metade desta tortura, é o que também o autor sofreu ao ver destruída a sua pátria intelectual, ao ver o sofrimento dos seus amigos também judeus, ao perder toda e qualquer esperança no poder espiritual e na bondade da humanidade. 

Também ele era um refugiado, esquecido por um país que antes do admirara. Também ele procurava, a cada jogada num tabuleiro de xadrez, uma saída que não implicasse a tortura emocional. Encontrou-a apenas na morte e na resignação que esta obra lhe ofereceu, e a nós que o lemos e admiramos, tantos anos depois, e continuamos sem encontrar outra solução para um coração desiludido e desesperado como o seu. 

A History of the World in 10½ Chapters - Julian Barnes

"I dreamt that I woke up. It's the oldest dream of all, and I've just had it."
Julian Barnes, 'A History of the World in 10½ Chapters'

É dos autores mais completos da sua geração e a sua versatilidade atravessa todos os temas possíveis e imaginários. A tarefa de Julian Barnes não era menos desafiante e ambiciosa neste 'A History of the World in 10½ Chapters', onde a realidade e a ficção se misturam sem medos.

Não é fácil descrever em poucas frases que histórias e intenções apresenta este livro. Mais do que um romance, é uma verdadeira compilação de contos sobre a história do mundo, à luz de histórias reais. É um exercício crítico de um pensador e escritor sobre o que conhece da história e a forma como algumas histórias se podem relacionar - como a história se repete, como a vida gosta de nos pregar partidas.

A primeira história é talvez a mais interessante de todo o livro: "The Stowaway" relata a viagem na Arca de Noé aos olhos de um animal muito pequeno, completamente esquecido de todos e que dificilmente alguém adivinhará antes de chegar ao último parágrafo do primeiro capítulo (e também não vou ser eu a fazer essa revelação antes do tempo). A história que estes animais contam é bastante diferente da lenda que conhecemos da Arca de Noé e o relato criativo e inventado de Barnes um verdadeiro relato de sobrevivência e pensamento crítico.

"How do you turn catastrophe into art? Nowadays the process is automatic. A nuclear plant explodes? We’ll have a play on the London stage within a year. A President is assassinated? You can have the book or the film or the filmed book or the booked film. War? Send in the novelists. We have to understand it, of course, this catastrophe; to understand it, we need the imaginative arts. But we also need to justify it and forgive it, this catastrophe, however minimally… Well, at least it produced art. Perhaps, in the end, that’s what catastrophe is for."

"Shipwreck" é outra das grandes histórias com base verídica que este livro nos dá a conhecer e nos ajuda a pensar melhor. Com base na obra-prima do pintor Théodore Géricault, "Le Radeau de la Méduse", Barnes leva-nos pelo acontecimento que gerou a criação do quadro, o naufrágio do navio Medusa, e por cada pormenor retratado neste quadro agora em exposição no Louvre.

É fascinante como ficamos interessados em cada uma destas histórias, como o autor mistura de forma tão crua e bela o humor e a carga dramática de cada uma das suas histórias. Lembra "The Sense of an Ending" por esta capacidade de nos levar por memórias, reais e ficcionadas, que aparentemente nada têm a ver mas entre as quais existe sempre uma ligação, na descoberta da história do mundo que intitula a obra.

Não é um típico romance de Barnes e algumas histórias podem ser de menos fácil leitura. No entanto, é um livro cheio de Barnes, no sentido de ser muito óbvio que colocou nele muito de si. Um relato alternativo sobre o mundo e a sua história que só nos torna mais críticos e atentos ao que nos rodeia.

domingo, 2 de abril de 2017

Os Vampiros - Filipe Melo e Juan Cavia

'Os Vampiros' é, para além de um livro de um amigo muito talentoso, uma novela gráfica como poucas sobre a história do nosso país e os demónios que nos atormentam. Aliada ao traço cru e maravilhoso de Juan Cavia, Filipe Melo oferece-nos aqui uma obra de banda desenhada das que mais me marcaram e que dificilmente se esquecem.

A história é a de um grupo de soldados portugueses que está na Guiné, destacado para uma missão secreta no Senegal, durante a guerra colonial, mais precisamente em 1972. À medida que a paranóia e o cansaço os vão assaltando, a missão torna-se num verdadeiro pesadelo onde é difícil distinguir a realidade da loucura.

É uma atmosfera negra e pesada desde o início, mas que só se vai intensificando no decorrer da história. Todos estes soldados já traziam consigo alguns demónios, histórias de vida e passados dramáticos, episódios tristes que nunca conseguiram esquecer. O que lhes vai acontecer nesta missão cujo fim desconhecem é a descoberta de novos motivos para desesperar e chegar à loucura: o cansaço da viagem, a incapacidade encontrar o que em si têm de bom em tempo de guerra.

Não há quem escape a esta loucura, a esta ilusão de que está tudo bem quando na verdade o que os consome por dentro é muito mais intenso. 'Os Vampiros' mostra que todos são vampiros e que todos têm demónios, independentemente do lado da guerra em que se encontram. Não há um lado dos bons e um lado dos maus. Todos são, ao mesmo tempo, culpados e vítimas dos seus actos e psicologicamente responsabilizados por ali terem ido parar mesmo que contra a sua vontade. É a guerra no seu estado mais puro, dentro das nossas cabeças.


O que Juan Cavia mostra de forma fabulosa nas suas ilustrações é este terror da guerra, esta forma subtil como chamamos à realidade os demónios que na verdade só existem numa dimensão diferente da que existe à nossa volta. Como se todas as mortes reais não passassem de algo que acontece e corre perante nós, como o tempo; como se não fossem verdadeiras, mas apenas parte da vida, danos colaterais numa época e num lugar onde não nos podemos dar ao luxo de imaginar o oposto, a vida e a felicidade.

O que Filipe Melo nos oferece com este argumento brilhante e emotivo é conhecer a fundo as mentes destes homens sem presente e sem futuro, e muitas vezes confundindo e perdendo o seu passado no caminho. Já nem distinguem bem quem são os verdadeiros vampiros da guerra em que vivem, nem se reconhecem a si mesmos como os vampiros dos que estão do outro lado a sofrer o mesmo que eles.

Não é possível explicar por palavras o que esta novela gráfica nos faz sentir: o horror da doença mental, a tragédia das suas vidas dedicadas a uma guerra inútil e na qual nem eles próprios acreditam, a luta pela sobrevivência já sem um motivo palpável para lá da luta pela luta, do dia-a-dia. Há poucas obras de banda desenhada que nos toquem tanto pela sua capacidade humana e dramática como esta, imensamente recomendada a quem procure uma obra pensada, madura e inesquecível.