sábado, 5 de agosto de 2017

A Fórmula da Felicidade - Nuno Duarte e Osvaldo Medina

Existirá uma fórmula da felicidade que nos torne a todos pessoas felizes apenas por a ouvirmos da boca do seu genial autor? Esta é a premissa também ela genial desta novela gráfica em dois volumes, bem portuguesa e muito bem escrita, que deixa na boca um gosto amargo de dor e esperança na humanidade.

Vitor é um rapaz aparentemente normal, esforçado na escola e inteligente, que vive no seio de uma família disfuncional: sem pai, com uma mãe frágil que atrai homens detestáveis e a atenção de toda a cidade onde vivem. Um dia surge-lhe na mente uma fórmula matemática da felicidade e percebe que, ao dizê-la em voz alta a cada pessoa, estas se sentem mais felizes que nunca. Torna-se uma celebridade e é constantemente procurado por todos, o que o deixa sem vontade de continuar a vestir esta personagem que, ao contrário dos outros, não lhe trouxe felicidade. A vida difícil dos que o rodeiam e o regresso de alguém do passado leva-o a pôr em causa a sua nova realidade e a querer escapar ao que se tornou antes que seja tarde demais.

Se o desenho parece, do início ao fim, um esboço de um trabalho inacabado - propositadamente, parece-me, pois Vitor também não tem a sua vida estruturada como gostaria -, a história está bastante clara na mente dos autores, a fluidez da escrita é um traço muito característica desta obra. As personagens são animais em lugar de pessoas, mas comportam-se como pessoas, vivem num mundo que pertence aos humanos, como se de uma fábula se tratasse, mas sem o final moralista - ainda que, a todos os níveis, forte e sensibilizador.

A forma como o segundo livro desta série pega na história do primeiro e distorce a inocência de Vitor, tornando-o uma pessoa verdadeiramente infeliz com a vida que a inteligência lhe deu (ao contrário do que seria usual), torna este segundo volume ainda mais fascinante do que o primeiro. E isto porque Vitor, novamente, sente que precisa de uma mudança na sua vida e que a fórmula já não serve o propósito que pretendia ao criá-la. O mundo continua a destruir-se, a humanidade continua perdida, e não são momentos frágeis e efémeros de felicidade (efémeros como toda a felicidade o é, sempre) que o vão impedir.

O final triste mas belo, toda a esperança contida naquelas palavras e imagens finais, na vida face à morte, na felicidade real face à inventada/mostrada, na simplicidade da vida e na humanidade, face à maldade e ao que nos torna pessoas piores - tudo isto torna 'A Fórmula da Felicidade' uma pequena grande obra-prima da banda desenhada de cunho nacional :)

domingo, 23 de julho de 2017

A Agência de Viagens Lemming - José Carlos Fernandes

Num mundo em que se viaja para ver tudo e nada, onde se vive de forma oca e fútil, onde tudo é efémero e se quer conhecer tudo a correr, José Carlos Fernandes encontra a história perfeita para metaforizar a sociedade actual e mostrar o seu génio no argumento e no desenho de forma astuta e brilhante.

O protagonista é o Sr. Zoloft, que quer conhecer o mundo mas sem abdicar das comodidades do dia-a-dia. O que em parte é explicado pelo seu exigente trabalho na secretaria de estado da procrastinação, onde lida diariamente com papeladas e burocracias. Vai por isso à Agência de Viagens Lemming, onde o funcionário lhe fará uma viagem virtual por destinos turísticos muito aliciantes (ou não), com nomes difíceis e muito características dentro da inexistência de coisas relevantes a apresentar ao turista comum.

'A Agência de Viagens Lemming' é assim uma viagem, também do leitor, por estes locais exóticos, sejam a cidade conhecida pelos seus urinóis públicos (brilhantemente arquitectados e cuja visita exige, obviamente, uma bexiga relativamente cheia para poderem ser experimentados), ou a cidade do Museu de Cera de Pessoas Banais, com figuras “selecionadas mediante escolha aleatória de nomes na lista telefónica".

A forma criativa e incisiva como descreve estes sítios - que não são assim tão ridículos e olharmos para a forma como hoje se faz turismo em muitos locais - funciona como uma sátira muito bem construída à forma contemporânea de ver a vida, de viajar e de viver, em última instância. Um mundo onde uma selfie num local que até pode nada ter de turístico é mais importante do que a visita propriamente dita a um local que possa significar algo para o turista.

Não deixa de ser curiosa a utilização do nome "Zoloft", como o medicamento anti depressivo, para esta personagem que quer viajar mas tem preguiça, que na verdade não sabe bem aquilo que quer e que está a fazer neste mundo, e que parece quase adormecida nesta impossibilidade de escapar à forma de vida formatada de que somos alvo e que ajudamos a perpetuar. 

Se ao mesmo tempo cada página desta banda desenhada nos deixa a rir às gargalhadas com as cidades inventadas de José Carlos Fernandes, deixa-nos também na boca um gosto amargo, e na mente, para sempre, a memória de uma grande e inesquecível história de "terror".

domingo, 9 de julho de 2017

Chicken with Plums - Marjane Satrapi

Depois de 'Persépolis', Mariane Satrapi volta a pegar numa história da sua família para escrever e ilustrar uma novela gráfica inesquecível sobre um tio-avô que desistiu da vida em nome do amor e da música. E, como sempre, fá-lo de forma mágica e irrepreensível.

Nasser Ali Khan é um dos mais famosos músicos do Irão, em 1955, quando descobre que o seu instrumento (em inglês, "tar", uma espécie de guitarra típica da região) está partido e não tem recuperação possível. Ao perceber que nenhum outro o poderá substituir, pois o som não lhe parece bom, decide que não vale a pena viver mais. Durante os oito dias que passa na cama, sem querer saber do mundo exterior, a preparar-se para deixar uma vida que lhe fechou as portas ao amor, vamos percebendo melhor os motivos que levam Nasser Ali Khan a abandonar-se assim à mercê dos sonhos, das memórias e do Diabo que o visita regularmente antes de o levar consigo.

Satrapi também aparece neste drama em forma de banda desenhada, mas desta vez não é a sua infância nem a sua adolescência que roubam o protagonismo da obra. Nasser Ali Khan é um homem verdadeiramente amargurado por um amor que não pôde viver, por ter sido obrigado a casar sem ser por amor, por ter tido quatro filhos com os quais pouco se identifica, por ter vivido para ver o seu instrumento de sempre, o único que lhe soava bem, a ser destruído de forma tão cruel.


A forma como Satrapi conta estes últimos dias do tio-avô, numa verdadeira homenagem à sua personalidade e à sua vida, leva-nos como em 'Persépolis' para um humor negro muito bem construído, para um ambiente de realismo mágico que traz aos sonhos de Nasser Ali Khan as visitas de Sophia Loren e do Diabo, e sobretudo para uma forma de contar histórias muito característica da sua arte. Ninguém, como ela, contaria esta história de forma tão pessoal, tão única, mesmo que não tenha estado lá para viver estes dias ao lado do tio.

É uma história que merece ser lida sem qualquer tipo de sinopse prévia, sem qualquer spoiler a estragar a simplicidade do traço, a subtileza das revelações (cada uma a seu tempo) e em particular a beleza crua com que a autora nos dá a conhecer a sua vida. Deixo para a leitura o porquê da "galinha com ameixas" e todas as histórias dentro da história que este livro conta ao nosso coração.

Que sirva de lição para todas as vidas livres que não o são por constrangimentos auto-impostos e que não têm razão de ser. Que nos leve a ser mais e melhores, a pôr tudo de nós em cada momento e a dar tudo pelas pessoas que significam o mundo para nós. O que me ensinou este 'Chicken with Plums' foi a não menosprezar nenhum segundo dos momentos perfeitos da nossa existência e a arriscar em lugar de deixar estar, simplesmente porque podemos lutar por aquilo queremos, ao contrário de Nasser Ali Khan.

Simon's Cat - Simon Tofield


O primeiro volume li-o em meia hora numa tarde passada na biblioteca. O segundo tive de trazer para casa, porque senti necessidade de o "ler" na companhia dos meus dois gatos, enquanto ouvia os seus "miaus" e cofiava os seus pêlos macios. 

Sobretudo para quem tem gatos, 'O Gato do Simon' é uma viagem pelos pensamentos destes felinos e uma série de aventuras que, pela sua subtileza, nos fazem rir tão alto que nem os nossos gatos percebem porque estamos tão alterados. 

O anónimo gato do Simon, que na verdade é um dos muitos gatos que o autor Simon Tofield tem em casa, é um verdadeiro aventureiro, tanto que no segundo livro pula mesmo a cerca do seu lar para viajar e conhecer outros animais, viver muitas aventuras e, no final, regressar a casa para o seu melhor amigo (não são só os cães que têm em nós os melhores amigos que estão sempre lá para eles).

O primeiro volume é, no entanto, aquele que mais nos permite identificar com o autor, em todas as brincadeiras que o gato prepara, em toda a sua rebeldia de felino que odeia ir ao veterinário, que quer comer a toda a hora e cujo passatempo favorito passa muito por deitar coisas ao chão, chatear o dono e, como não podia deixar de ser, dormir durante horas e horas.

O Gato do Simon também gosta de fingir que a sua boca é a entrada nas casinhas dos pássaros colocadas nas árvores, para os poder comer fácil e subtilmente (espertinho!). Luta com o dono para não entrar na caixa de ir ao veterinário, chateia o cão da casa e acha-se superior (toda a gente sabe que os cães são burros, é o que ele pensa quando lhe atira um pau e ele vai a correr buscá-lo), tem uma fixação por caixas de cartão (mania mais ridícula dos gatos!) e é um autêntico rei na casa do Simon.

É verdade que os gatos, como o do Simon, levam os donos ao desespero (claro, com menos exagero do que o Simon aqui retrata através dos seus desenhos - para quê usar palavras quando a ilustração cumpre tão bem o seu papel? - e sua sua fértil imaginação para criar uma personalidade para o seu felino), mas também é verdade que no final voltam sempre para o nosso colo, para ronronarem nas nossas pernas e nos fazerem sentir os donos mais sortudos e felizes do mundo inteiro ❤️

Mary Poppins - P. L. Travers

"Mary Poppins disse: 'Ena!', que era a palavra que ela usava quando estava contente.
'Diacho!', disse o Homem dos Fósforos, que era o que ele costumava dizer nas mesmas circunstâncias."
Mary Poppins, P. L. Travers

Há algo especial em ler um livro infantil pela primeira vez quando já somos crescidos. Depois de quase esquecermos o que é ser criança, quando já quase deixámos de acreditar que é possível acreditar em coisas mágicas. Mary Poppins leva-nos de volta a este universo de fantasia que já não nos é tão familiar - e deixa-nos, novamente, com parte do coração abrilhantada pela sua passagem fugaz pelo nosso mundo quotidiano, adulto e aborrecido, onde esta magia pode passar por nós sem darmos por ela.

Mary Poppins chega com uma tempestade à casa dos Banks, onde começa a tomar conta das crianças da casa: Michael e Jane, os mais velhos, e os bebés gémeos Barbara e John. As crianças depressa percebem que a nova ama não é como as outras e afeiçoam-se à sua prontidão, à magia que parece fazer a toda a hora, até mesmo à sua aparente antipatia natural. Conhecem novos mundos que sem ela nunca teriam descoberto, bem como personagens inesquecíveis. Com ela vivem muitas aventuras e atravessam as suas fases de crescimento de forma bem mais divertida.

Quando Mary Poppins vai embora tal como chegou, com a tempestade, o que deixa para trás já não são as crianças rebeldes que ali encontrou. São meninos quase adolescentes, que começam a enfrentar o que crescer verdadeiramente significa. Que deixam um pouco para trás a inocência e a fantasia de ser criança, porque toda a gente sabe que quando os dentes começam a crescer os bebés deixam de ouvir o estorninho, o vento, as árvores e os raios de sol. Mas não têm de deixar de acreditar que o mundo que os rodeia é mais belo e fantástico do que aquilo que vêem à sua volta.

Depois de tantas adaptações e subversões da história original, não deixa de ser ainda mais especial perceber como Mary Poppins continua a ser uma personagem tão actual e inesquecível como o deverá ter sido para as crianças e os adultos que a leram pela primeira vez em 1934. Uma ama que, por mais introspectiva, assertiva e profissional que seja, colocava as suas crianças acima de tudo e sabia sempre qual o momento certo para continuar o seu caminho e deixá-las crescer.

E por muito que o filme da Disney seja diferente desta Mary Poppins de P. L. Travers - e é muito diferente da personagem que ela criara neste pequeno livro -, é um filme igualmente tão inesquecível que vê-lo continua a ser, também, uma experiência única e receptível quantas vezes se deseje!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Gramática da Fantasia - Gianni Rodari

"Inventar histórias para crianças e ajudá-las a inventar histórias sozinhas (...) não para que todos se tornem artistas, mas para que ninguém seja escravo."
'Gramática da Fantasia' - Gianni Rodari

Foi talvez a mais impulsiva das minhas compras na Feira do Livro de Lisboa este ano. Um livro pelo qual me apaixonei, literalmente, à primeira vista, e que me apaixonou novamente a cada página, como a imaginação faz às crianças a cada história inventada.

Gianni Rodari reune neste pequeno livro pedagógico a sua aprendizagem do ensino primário às crianças, fruto do seu interesse pela literatura infantil e das escolas italianas em que leccionou. Contando histórias às crianças, descobriu que elas também tinham muitas para lhe contar. E muitas perguntas para fazer, como é típico das crianças, entre as quais: "Como se inventam histórias?". A sua maior descoberta é a existência destas histórias e desta capacidade de imaginar e criar que existe dentro de cada criança.

Diz logo desde o início que, apesar do título, isto não é uma gramática da fantasia. Ainda não existe documentação e estudos suficientes para fazê-lo, se é que teorizar sobre a imaginação das crianças alguma vez será possível. Ainda assim, é um exercício muito interessante sobre a mente infantil, sobre a importância da literatura e da criatividade no crescimento enquanto pessoas e na aprendizagem escolar, e sobretudo uma mostra de tudo o que está errado na educação primária - que mais do que promover esta fantasia a oprime, numa idade muito pequena, em nome da correcção gramatical, da perfeição dos ditados e da ditadura da 'resposta certa'.

"Para que mais serve a história? Para construir estruturas mentais, para estabelecer relações como 'eu e os outros', 'eu e as coisas', 'as coisas reais e as coisas inventadas'. Serve para calcular as distâncias no espaço ('longe e perto') e temporais ('uma vez e agora', 'antes e depois', 'ontem hoje e amanhã'). O 'era uma vez' das histórias não é diferente do 'era uma vez' histórico, mesmo quando a realidade da história, como a criança descobre logo, é diferente da realidade em que ela vive."

A cada capítulo revela vários processos de estimulação da criatividade nas crianças (e em todos nós!) e possíveis exercícios para os professores incentivarem a leitura e a escrita na escola, como o "binómio fantástico" (em que temos de juntar duas palavras que à primeira vista não têm nada a ver) ou a descrição do que está à sua volta (a mesa de jantar, o quarto, etc.). Damos por nós a criar as nossas próprias histórias e a mergulhar neste universo que nos leva novamente para os primórdios da vida, para a inocência de se ser criança.

Entramos pela janela - sempre os caminhos secundários para sairmos da nossa zona de conforto e podermos ir mais além - e encontramos esta casa recheada de possibilidades para escolhermos e construirmos as histórias à nossa maneira. As histórias são uma forma de enfrentar medos, de conhecer o mundo real, de perceber melhor quem nos rodeia. E sobretudo para as crianças, são muitas vezes o seu primeiro contacto com o seu papel no mundo.

Um livro verdadeiramente inspirador para quem quer que o leia - miúdos ou graúdos, educadores ou simples interessados na arte de inventar e fantasiar. Como eu :) A melhor compra mais impulsiva de sempre. Uma das minhas obras-primas de prateleira para reler sempre que precisar de uns pós mágicos de inspiração!

O Leopardo - G. Tomasi di Lampedusa

"Dividido entre o orgulho e o intelectualismo maternos e a sensualidade e leviandade paternas, o pobre príncipe Fabrizio vivia num descontentamento permanente sob os olhares severos de Júpiter, contemplando a ruína da sua raça e do seu património sem dar mostrar de qualquer actividade e, mais ainda, sem o menor desejo de lhe pôr cobro."
'O Leopardo', G. Tomasi di Lampedusa

'O Leopardo' é a história de uma família e de uma classe em decadência, por muito que tenha o poderoso leopardo como símbolo. Leva-nos numa viagem à segunda metade do século XIX, abalando-nos com cada relato da sociedade, cada momento apaixonado, cada espelho da fragilidade humana e da efemeridade das coisas.

Em 1860, durante o Risorgimento italiano que marcou a unificação do país, o príncipe Fabrizio decide refugiar-se com a família na sua casa de férias de Donnafugata até a luta política terminar. À sua volta, no seio da sua família, vai acontecendo a revolução: o sobrinho Tancredi adere às tropas revolucionárias, Don Calogero é o novo líder político local, e a sua filha, a bela Angelica, é muito diferente de mulheres como a sua própria esposa. À medida que vai aceitando estas mudanças para que tudo possa ficar na mesma, Fabrizio apercebe-se da volatilidade das paixões e da impossibilidade de voltar aos tempos de domínio da aristocracia.

Na família Salina a religião é das coisas mais importantes do dia. O padre Pirrone acompanha-os dia e noite, vive as suas angústias e as suas felicidades, é o principal conselheiro e ao mesmo tempo aquele que tudo sabe sobre os segredos de cada um dos elementos da família. Mas a leviandade do príncipe em tudo contrasta com a beatitude da princesa, e em tudo o que é religioso é também pouco correcto à maneira da sua classe.

Para Tancredi passa toda esta sensualidade e leviandade, o que faz Concetta, filha de Fabrizio, apaixonar-se pelo primo. Até nesta união provável entra a luta de classes e a revolução para destruir os sonhos da classe perfeita: Angelica é filha do povo, é normal e nada aristocrata. É por ela que Tancredi se perde de amores, e nem Fabrizio resiste aos encantos da filha do homem que representa também a ascensão da burguesia na liderança de Donnafugata.

Há em tudo isto um sentimento de desilusão, de impotência e de decadência da classe aristocrática, muito bem personificados pelo próprio Fabrizio. Por muito que seja permissivo, que ajude a concretizar a revolução e aceite o casamento do sobrinho com uma plebeia para mostrar a sua receptividade à nova ordem, há nele uma tristeza imensa, uma sensação de fim e de perda de algo que não é possível recuperar. É um sentimento de orgulho, de classe, de respeito pela sua posição, que se perde irremediavelmente.

E ao mesmo tempo que damos conta desta mudança ao longo de toda a obra de Lampedusa, a sua escrita subtil vai-nos oferecendo momentos muito bem humorados, recheados de histórias de família, de conflitos de personalidades, de momentos muito característicos de cada personagem, que nos levam quase sem nos apercebermos para este desfecho histórico de derrota. O baile de apresentação de Angelica à sociedade é também uma conciliação de interesses e a consolidação da união das duas classes - e só Fabrizio parece aperceber-se da dimensão do evento.

Tancredi não sabe o que quer da vida e muda constantemente de lado; é jovem, tem uma vida inteira pela frente, e tanto lhe faz quem governa desde que possa continuar a sentir tudo como seu, como presente. Já Fabrizio sente, agora, que o seu tempo já passou; que nada pode fazer para reverter a revolução e que o mundo que conhecia, em que foi criado e que ajudou a manter para os seus filhos, não existe mais.

Há histórias romanceadas e romances verdadeiramente históricos, que mais do que criarem ficção em torno da história a mostram através de uma história ficcionada. E o que Lampedusa faz neste romance é exactamente isso. 'O Leopardo' é uma obra clássica e inesquecível que deu um filme igualmente imperdível, com uma escrita intensa personagens que dificilmente nos sairão da memória. E ainda bem!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

N or M? - Agatha Christie

"I know then that they are just human beings and that we're all feeling alike. That's the real thing. The other is just the war mask that you put on. It's a part of war - probably a necessary part - but it's ephemeral."
'N or M?', Agatha Christie

Agatha Christie é sempre genial nas suas histórias policiais ou de agentes secretos com missões mega importantes. É o caso deste terceiro livro da sua saga "Tommy & Tuppence", o meu primeiro contacto com a dupla e um forte indício de que todos os seus mistérios serão igualmente inesquecíveis.

Durante a II Guerra Mundial, Tommy e Tuppence, já reformados das lides dos serviços de inteligência, são novamente contactados com uma missão muito especial: descobrir entre os homens e mulheres hospedados em Sans Souci, um hotel junto à costa, dois agentes Nazis disfarçados de cidadãos normais - nomes de código N e M - que acabaram de matar o melhor agente britânico. Não se pode confiar em ninguém nesta missão ultra secreta que os leva a adoptar nomes e personalidades falsas e a fingir que não se conhecem.

O mais especial deste pequeno livro de fácil leitura é o contraste entre o início tranquilo e o final recheado de acção. Começa com Tommy e Tuppence em casa, reformados e aborrecidos por já não terem missões para cumprir nem serem mais jovens, para os contactarem para estes trabalhos perigosos e emocionantes. E afinal são escolhidos exactamente pela sua sabedoria, e sucede-se mais um episódio das sua aventuras, com inimigos perigosos, situações de risco e muita emoção.

Entre os hóspedes de Sans Souci há muitos que suscitam a desconfiança de Tommy e Tuppence, mas o mistério não é resolvido antes de serem encontradas algumas "toupeiras" dos próprios serviços de inteligência britânicos. Numa guerra não se pode confiar nem nos amigos, mesmo que todos estejam ali por obrigação e não queiram prolongar o conflito por mais tempo. Todos são inimigos e a traição é uma constante. É talvez o ensinamento mais sério que podemos retirar desta obra.

A comédia também está sempre presente, no desconhecimento da filha sobre o trabalho dos pais, estando também ela envolvida na espionagem de guerra, e nas tentativas constantes de esconder dos outros hóspedes a relação e Tommy e Tuppence. Mas também são muitos e intensos os momentos de perigo que vivem - e que nos fazem agarrar a estas personagens de forma ainda mais apaixonada.

'N or M?' será talvez mais revelador para quem conhece estas personagens de aventuras anteriores, no entanto não deixa de ser uma aventura interessante, com os seus apontamentos de comicidade, que nos faz ver um novo lado de Agatha Christie dentro do seu ambiente literário dos policiais. Uma história de guerra e de espionagem para quem não deixa passar uma obra prima sobre estes temas!

sábado, 27 de maio de 2017

As Três Vidas - João Tordo

"Passeei-me pela Quinta do Tempo como se o tempo não existisse, cabisbaixo e silencioso..."
'As Três Vidas', João Tordo

João Tordo é talvez, para mim, o autor mais inspirador de toda a geração contemporânea de escritores portugueses. A sua escrita toca-me pela sua simplicidade, pela carga dramática que consegue transmitir a quem lê, e sobretudo pelas histórias bonitas e emocionantes que nos dá a conhecer, do interior da sua alma para as palavras gravadas no papel.

'As Três Vidas' é uma das suas primeiras obras e, ainda assim, encontramos nela já tanto de seu, do seu estilo próprio que mais tarde viria a aperfeiçoar. Segue um narrador anónimo de uma família modesta, que em busca de um emprego estável acaba por ir trabalhar para o milionário misterioso António Millhouse Pascal e viver na sua quinta algures no meio do Alentejo. A Quinta do Tempo é um lugar ainda mais misterioso do que o seu patrão, que na verdade não sabe exactamente o que faz aos clientes que o visitam de todo o mundo. Sobre a sua nova vida nada pode revelar, como virá a descobrir - e a sua paixão por uma das netas do patrão, a jovem e bonita Camila, será uma obsessão capaz de consumir a sua própria vida.

Há neste romance um misto de suspense, mistério e reflexão, numa história que atravessa três décadas e acompanha a vida e o crescimento de um homem, sempre com uma escrita muito visual e cinematográfica. São mesmo três as vidas que aqui relata na primeira pessoa: antes do trabalho na Quinta do Tempo, a época em que lá trabalha e o momento posterior, que terá de ficar no segredo dos deuses até à leitura do mais ávido leitor.

"Ansiamos por esse momento de felicidade; ele surge como uma queda-d'água no meio de um deserto; e, de repente, não acreditamos nele, por estarmos tão acostumados à sua irrevogável ausência."

Pelo meio há um fio condutor - uma analogia curiosa aqui -, a grande paixão de Camila Millhouse Pascal: o funambulesco. É a arte de andar na corda bamba sem cair, ou pelo menos tentando não cair, como era o caso de Camila. E o nosso rapaz apaixona-se irremediavelmente por esta jovem mulher que tem um sonho que é tudo para ela; não sabendo que esta que será uma viagem de auto-descoberta será também uma obsessão inescapável que ultrapassa já os limites da sua existência consciente.

O que provam estas suas três vidas é mesmo a inconstância da vida, do mundo - como tudo está constantemente a mudar mesmo que tentemos intervir para que tudo aconteça à nossa maneira. Estamos sempre na corda bamba, entre o correcto e o errado, o passado e o presente, a consciência e a paixão, a realidade e a ficção. Às tantas o narrador confunde o que de facto aconteceu com o que acredita que aconteceu (muito 'O Sentido do Fim'!), talvez por querer prolongar a ilusão face à monotonia do dia-a-dia - do que fica no final, depois de termos tentado protagonizar o nosso papel no mundo e quando tudo parece acabar.

É neste binómio de sentimentos, neste fulgor de vida e inspiração que João Tordo nos deixa no final d'As Três Vidas', como em todos os seus outros romances. Estou a chegar àquele difícil momento em que já não tenho assim tantos livros de João Tordo para ler pela primeira vez - o que é óptimo, porque o adoro a todos, mas ao mesmo tempo me parte o coração porque não aguento muitos meses sem mergulhar numa nova história da sua imaginação. Venham mais :)

domingo, 30 de abril de 2017

Novela de Xadrez - Stefan Zweig

"O que me interessa e o que me intriga é unicamente a curiosidade posterior de averiguar se aquilo que aconteceu na altura na cela era ainda o jogo de xadrez ou já a loucura, se me encontrava à beira ou já dentro do precipício - apenas isso, única e exclusivamente isso."
'Novela de Xadrez', Stefan Zweig

Se há história que permite entender o momento final da vida de Zweig e toda a sua obra pós-emigração é esta 'Novela de Xadrez'. É a derradeira do autor austríaco, deixada em legado a todos os que admiravam a sua obra e que, 75 anos após o seu suicídio no exílio brasileiro, continua a cativar admiradores em todo o mundo.

'Novela de Xadrez' segue os passageiros de um navio com rumo a Buenos Aires, que descobrem que a bordo vai também o campeão do mundo de xadrez, Czentovic, arrogante e pouco amigável. Para conhecer o campeão, um grupo desafia-o para uma partida saindo derrotado, até um misterioso passageiro os começar a aconselhar. Onde terá este homem adquirido conhecimentos tão profundos de xadrez e a que custo, é o que a história procura desvendar ao mesmo tempo que o seu surgimento altera o rumo do jogo.

Como já é habitual em Zweig, o narrador é como se fosse o próprio autor, narrando a história na primeira pessoa - até introduzir um narrador secundário que é, na verdade, o principal. Nas suas novelas, quem narra raramente é o protagonista, mas sim alguém que toma conhecimento de uma história incrivel e inesquecível que lhe foi confidenciada.

Numa história para apaixonados de xadrez, Zweig mistura memórias e suposições bem reais da tortura e do sofrimento dos judeus durante o domínio Nazi com a dua ficção também ela bastante realista e credível dos demónios que continuam a atormentar estes homens torturados durante toda a sua vida.

Mais do que uma história sobre o xadrez como jogo, mostra como a vida tanto se parece a um jogo de xadrez, com os seus peões enfraquecidos na mente e no coração, no corpo e na capacidade de sobreviver à destruição do seu mundo. É um relato de um prisioneiro de guerra, do sofrimento e da loucura de um homem cuja vida não é mais que fruto das circunstâncias, cuja existência se pode resumir à de um refugiado, um fugitivo de tudo.

A semelhança com Zweig, que talvez não tenha sofrido nem metade desta tortura, é o que também o autor sofreu ao ver destruída a sua pátria intelectual, ao ver o sofrimento dos seus amigos também judeus, ao perder toda e qualquer esperança no poder espiritual e na bondade da humanidade. 

Também ele era um refugiado, esquecido por um país que antes do admirara. Também ele procurava, a cada jogada num tabuleiro de xadrez, uma saída que não implicasse a tortura emocional. Encontrou-a apenas na morte e na resignação que esta obra lhe ofereceu, e a nós que o lemos e admiramos, tantos anos depois, e continuamos sem encontrar outra solução para um coração desiludido e desesperado como o seu. 

A History of the World in 10½ Chapters - Julian Barnes

"I dreamt that I woke up. It's the oldest dream of all, and I've just had it."
Julian Barnes, 'A History of the World in 10½ Chapters'

É dos autores mais completos da sua geração e a sua versatilidade atravessa todos os temas possíveis e imaginários. A tarefa de Julian Barnes não era menos desafiante e ambiciosa neste 'A History of the World in 10½ Chapters', onde a realidade e a ficção se misturam sem medos.

Não é fácil descrever em poucas frases que histórias e intenções apresenta este livro. Mais do que um romance, é uma verdadeira compilação de contos sobre a história do mundo, à luz de histórias reais. É um exercício crítico de um pensador e escritor sobre o que conhece da história e a forma como algumas histórias se podem relacionar - como a história se repete, como a vida gosta de nos pregar partidas.

A primeira história é talvez a mais interessante de todo o livro: "The Stowaway" relata a viagem na Arca de Noé aos olhos de um animal muito pequeno, completamente esquecido de todos e que dificilmente alguém adivinhará antes de chegar ao último parágrafo do primeiro capítulo (e também não vou ser eu a fazer essa revelação antes do tempo). A história que estes animais contam é bastante diferente da lenda que conhecemos da Arca de Noé e o relato criativo e inventado de Barnes um verdadeiro relato de sobrevivência e pensamento crítico.

"How do you turn catastrophe into art? Nowadays the process is automatic. A nuclear plant explodes? We’ll have a play on the London stage within a year. A President is assassinated? You can have the book or the film or the filmed book or the booked film. War? Send in the novelists. We have to understand it, of course, this catastrophe; to understand it, we need the imaginative arts. But we also need to justify it and forgive it, this catastrophe, however minimally… Well, at least it produced art. Perhaps, in the end, that’s what catastrophe is for."

"Shipwreck" é outra das grandes histórias com base verídica que este livro nos dá a conhecer e nos ajuda a pensar melhor. Com base na obra-prima do pintor Théodore Géricault, "Le Radeau de la Méduse", Barnes leva-nos pelo acontecimento que gerou a criação do quadro, o naufrágio do navio Medusa, e por cada pormenor retratado neste quadro agora em exposição no Louvre.

É fascinante como ficamos interessados em cada uma destas histórias, como o autor mistura de forma tão crua e bela o humor e a carga dramática de cada uma das suas histórias. Lembra "The Sense of an Ending" por esta capacidade de nos levar por memórias, reais e ficcionadas, que aparentemente nada têm a ver mas entre as quais existe sempre uma ligação, na descoberta da história do mundo que intitula a obra.

Não é um típico romance de Barnes e algumas histórias podem ser de menos fácil leitura. No entanto, é um livro cheio de Barnes, no sentido de ser muito óbvio que colocou nele muito de si. Um relato alternativo sobre o mundo e a sua história que só nos torna mais críticos e atentos ao que nos rodeia.

domingo, 2 de abril de 2017

Os Vampiros - Filipe Melo e Juan Cavia

'Os Vampiros' é, para além de um livro de um amigo muito talentoso, uma novela gráfica como poucas sobre a história do nosso país e os demónios que nos atormentam. Aliada ao traço cru e maravilhoso de Juan Cavia, Filipe Melo oferece-nos aqui uma obra de banda desenhada das que mais me marcaram e que dificilmente se esquecem.

A história é a de um grupo de soldados portugueses que está na Guiné, destacado para uma missão secreta no Senegal, durante a guerra colonial, mais precisamente em 1972. À medida que a paranóia e o cansaço os vão assaltando, a missão torna-se num verdadeiro pesadelo onde é difícil distinguir a realidade da loucura.

É uma atmosfera negra e pesada desde o início, mas que só se vai intensificando no decorrer da história. Todos estes soldados já traziam consigo alguns demónios, histórias de vida e passados dramáticos, episódios tristes que nunca conseguiram esquecer. O que lhes vai acontecer nesta missão cujo fim desconhecem é a descoberta de novos motivos para desesperar e chegar à loucura: o cansaço da viagem, a incapacidade encontrar o que em si têm de bom em tempo de guerra.

Não há quem escape a esta loucura, a esta ilusão de que está tudo bem quando na verdade o que os consome por dentro é muito mais intenso. 'Os Vampiros' mostra que todos são vampiros e que todos têm demónios, independentemente do lado da guerra em que se encontram. Não há um lado dos bons e um lado dos maus. Todos são, ao mesmo tempo, culpados e vítimas dos seus actos e psicologicamente responsabilizados por ali terem ido parar mesmo que contra a sua vontade. É a guerra no seu estado mais puro, dentro das nossas cabeças.


O que Juan Cavia mostra de forma fabulosa nas suas ilustrações é este terror da guerra, esta forma subtil como chamamos à realidade os demónios que na verdade só existem numa dimensão diferente da que existe à nossa volta. Como se todas as mortes reais não passassem de algo que acontece e corre perante nós, como o tempo; como se não fossem verdadeiras, mas apenas parte da vida, danos colaterais numa época e num lugar onde não nos podemos dar ao luxo de imaginar o oposto, a vida e a felicidade.

O que Filipe Melo nos oferece com este argumento brilhante e emotivo é conhecer a fundo as mentes destes homens sem presente e sem futuro, e muitas vezes confundindo e perdendo o seu passado no caminho. Já nem distinguem bem quem são os verdadeiros vampiros da guerra em que vivem, nem se reconhecem a si mesmos como os vampiros dos que estão do outro lado a sofrer o mesmo que eles.

Não é possível explicar por palavras o que esta novela gráfica nos faz sentir: o horror da doença mental, a tragédia das suas vidas dedicadas a uma guerra inútil e na qual nem eles próprios acreditam, a luta pela sobrevivência já sem um motivo palpável para lá da luta pela luta, do dia-a-dia. Há poucas obras de banda desenhada que nos toquem tanto pela sua capacidade humana e dramática como esta, imensamente recomendada a quem procure uma obra pensada, madura e inesquecível.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Arte de Voar - Altarriba e Kim

Altarriba e Kim, a dupla do momento na BD espanhola que estava para conhecer há algum tempo. Não sabia o que estava a perder sem ter embarcado nesta aventura que é 'A Arte de Voar'. Uma vida recheada, muitas vezes de dor e desilusão, que nos enche pela emoção com que é contada, pela simplicidade do desenho e sobretudo pela história e pelo desfecho que encerra.

'A Arte de Voar' é a história de vida do pai do autor, também ele Antonio Altarriba, que abandonou o campo muito cedo para procurar a sua sorte como motorista e acabou a combater na Guerra Civil Espanhola, do lado dos anarquistas. Vive duas Guerras Mundiais, casa e tem um filho, conhece a pobreza e a fortuna, o amor e a desilusão. Aos 91 anos, atira-se da janela num lar de 3ª idade.

A morte inesperada (aos olhos de Altarriba filho) abala profundamente o autor e leva-o a pesquisar melhor a vida do pai para escrever esta novela gráfica em sua homenagem. Altarriba não fazia ideia do que o pai vivera: não conhecia a dureza do seu avô, a vontade do pai de abandonar o campo, a dor do pai com a perda de amigos próximos, a sua luta constante por ser alguém na vida, a sua insatisfação constante com o que ia conseguindo obter.



O que leva um homem de 91 anos, que já viveu tanto, a cometer suicídio? A pergunta, que sabemos de antemão, acompanha-nos nesta viagem desde o início. E Altarriba filho dá-nos a mão na descoberta da resposta, através de capítulos bem estruturados e emotivos. Conta a história na perspectiva de uma queda que se deu em várias épocas da vida do pai: de três andares, em quatro fases, até chegar ao chão e ao fim da sua história, apenas perpetuada na memória e agora também na história da banda desenhada.

O traço simples de Kim, sem adornos ou fantasias em volta, espelha na perfeição esta ausência de satisfação na vida, esta emoção silenciosa que Altarriba pai foi vivendo e escondendo dos que o rodeavam - e talvez de si mesmo, até se aperceber de um aparente insucesso da sua existência ou da impossibilidade de ser feliz na velhice apesar de ter amado e criado um filho seu.

Tive o prazer de conhecer Antonio Altarriba na Amadora BD de 2016 e e foi fascinante ouvi-lo contar a descoberta desta história de vida do pai - e posteriormente da igualmente rica vida da mãe - e a sua busca pelos motivos que tinham levado à sua morte. A distância temporal abafa sempre a dor, mas o olhar vivido, pesado e sentido de Altarriba a descrever a sua jornada de escrita desta novela gráfica é algo que dificilmente esquecerei.

A ler: 'A Asa Quebrada', dos mesmos autores, sobre a história da mãe de Altarriba.

sábado, 21 de janeiro de 2017

O Ente Querido - Evelyn Waugh

"A ver aquela macacada com parentes que detestaram durante a vida inteira, enquanto os animais, que os amaram e lhes fizeram companhia, sem numa fazerem uma pergunta nem soltarem uma queixa, na fortuna ou na miséria, na saúde ou na doença, são enterrados como se não passassem de facto de animais?"
'O Ente Querido', Evelyn Waugh

Evelyn Waugh habituou-me 'mal' com o seu maravilhoso 'Brideshead Revisited'. Dificilmente encontrarei uma história mais completa na sua obra, que me mostre o brilho da sua escrita de forma igualmente mágica. Mas 'O Ente Querido' é um bom exercício nesse caminho, com uma narrativa que em nada se compara em termos de emoção, ou que se encontra exactamente no pólo oposto, do ridículo e da falta de humanidade e emotividade.

Está-se em Hollywood no pós-guerra, onde muitos ingleses tentam a sua sorte no continente americano. É o caso de Dennis Barlow, que tentou a sua sorte na indústria do cinema e acaba a trabalhar como funcionário de um crematório de animais de estimação, O Mais Feliz Campo de Caça. Quando o seu bom amigo do cinema, Sir Francis, morre, Barlow encarrega-se de organizar o seu funeral nos Prados Sussurrantes, onde conhece a maquilhadora de cadáveres Aimée Thanatogenos, por quem se apaixona.

Se até à primeira visita de Barlow aos Prados Sussurrantes esta pequena grande obra de Waugh parecia relativamente dentro das conformidades, a partir do momento em que o inglês toma contacto com aquele novo mundo, onde todo o ritual funerário é levado tão a sério como se fosse em vida, todo o romance parece ganhar outro propósito.

"E assim a revelação de que era um mentiroso e um falso o homem que amava e a quem se ligara pelos mais doces votos apenas afectava uma parte do seu ser. Talvez o coração se tivesse quebrado, mas era afinal um pequeno e barato órgão de manufactura local."

Há a denominação automática e massificada de 'entes queridos' para mencionar os defuntos, e de 'ente saudosos' os que lhe sobrevivem e que dele gostavam. Existe nestas personagens que lidam diariamente com a morte uma indiferença total ao sentimentalismo que estes momentos propiciam, e que se espalha também para uma grande e mesmo ridícula indiferença face às relações humanas, entre os seres vivos.

A morte está presente, e se existe algo positivo nesta capacidade de tratar a morte como algo indiferente é a naturalidade que lhe é inerente e a obrigação que todos temos, enquanto seres humanos que se relacionam entre si e que criam laços com os seus animais de estimação, de o aceitar como algo inevitável. Esta inviabilidade atinge, contudo, um nível muito para lá do que podemos considerar como naturalmente aceitável.

Waugh critica o materialismo, satiriza esta ausência de emoções - sobretudo nos momentos em que habitualmente mais as temos à flor da pele. Contrasta o amor dedicado aos animais com o falso amor dedicado às pessoas que deveríamos amar com uma força diferente. Envolve-se de ironia e espelha aqui todo o seu humor negro bem britânico - e bem subtil - para tornar toda a sua história e as suas personagens parte de um mundo alternativo em que o ridículo reina sobre qualquer outra coisa.

Com os seus momentos afincados de comédia e os momentos que deveriam ser de verdadeira dor - para as outras personagens e para nós - mas que acabam por ser, como o resto, desprovidos de qualquer emoção (o que não nos deixa de emocionar pela capacidade do autor de nos fazer entrar no seu mundo sub-humano), 'O Ente Querido' é quase uma tragi-comédia, recheada de mortes, suicídios, desesperos e dores a que nossa personagem principal parece ser alheia.

Não imagino outro autor a satirizar desta forma a sociedade americana, através de um quadro tão irrealista e ao mesmo tempo tão próximo da realidade. Todo o ridículo que nos apresenta, e que nesta obra é aparentemente normal, é absolutamente fascinante. A ler mais de Waugh, certamente.

Persépolis - Marjane Satrapi

É uma das novelas gráficas mais aclamadas de sempre e merece todas as honras possíveis. 'Persépolis' é uma autobiografia em banda desenhada, que nos transporta para um mundo diferente daquele que conhecemos e que muitas vezes escolhemos ignorar por se encontrar tão distante.

O Irão vive a revolução islâmica, em 1979, após a deposição do Xá e o desvio da revolução do seu objectivo secular pelo Ayatollah. Marjane vive em Teerão com os pais no centro deste momento histórico: tem dez anos e é uma rapariga rebelde, filha de um casal de convicções marxistas. Marjane tem um fetiche por Che Guevara e acredita que fala com Deus e que o seu desígnio neste mundo é ser profeta. Mas a vida faz com que tenha de crescer mais depressa, numa adolescência em que familiares e amigos desaparecem de formas misteriosas, em que as raparigas são obrigadas a usar véu e o quotidiano é uma guerra constante nas ruas.
A primeira parte da novela gráfica trata desta infância e adolescência de Marjane, contada de forma muito simples mas com muito coração. Apesar de toda a dor, de todas as circunstâncias menos felizes que viveu neste período da sua vida, relata-as (e descreve-se a si mesma) com muito humor e com a inocência própria da criança que foi.

Na segunda parte, Marjane parte para Viena aos catorze anos, já nos anos 80, quando o rock prosperava e a Europa era um lugar totalmente diferente do que conhecia. Como rapariga rebelde e livre que sempre fora (ainda que enclausurada na sua concha por ser mulher, criança e viver num país em guerra), Marjane aprende a viver sozinha, descobre-se aos poucos (e aos outros) e sofre também nesta nova fase por não encaixar totalmente neste mundo a que não pertence.

O que vivemos através desta novela gráfica monocromática e bastante negra é a busca constante de liberdade por parte desta rapariga que ainda não sabe bem quem quer ser. Utiliza muito bem este humor subtil para ajudar a compreender o que viveu - sentimentos que possivelmente outras raparigas da sua geração terão experimentado ao viver numa cidade como Teerão e não encontrando consolo na revolução islâmica - e para dar a conhecer a sua história ao mundo.
Para além da riqueza e tristeza da sua vida, impossíveis de ignorar por ser um livro recheado de sentimento, 'Persépolis' é também um documento histórico muito rico daquela época e daquele local, que nos aproxima muito desta realidade: a luta contra o chá pela liberdade e pela justiça social e os antecessores de Marjane que participaram nesses episódio histórico; a tomada da revolução por parte dos fundamentalistas islâmicos, que instalam um regime; e a falta de liberdade nas ruas que resultou desta nova ditadura política e religiosa.

Marjane não podia ter escolhido um traço simplista mais indicado para contar em banda desenhada o que tinha dentro de si - e encontrar na literatura o seu verdadeiro desígnio, de escrever e desenhar a sua infância e adolescência para que a história nunca deixe de impressionar leitores em todo o mundo, como a mim impressionou e apaixonou.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Our Man in Havana - Graham Greene

"- Do you know what Savage said to me? I can tell you, it gave me a very nasty nightmare. He said that one of the drawings reminded him of a giant vacuum cleaner.
- A vacuum cleaner! - Hawthorne bent down and examined the drawings again, and the cold struck him once more."
'Our Man in Havana',  Graham Greene

Graham Greene é o mestre da sátira da espionagem e da apologia das relações humanas sobre todo o horror que a vida pode proporcionar. Apaixona à primeira leitura e continua a apaixonar em todas as seguintes, como nesta obra escrita entre as suas muitas viagens a Cuba ainda antes da revolução cubana.

'Our Man in Havana' conta um episódio life-changing da vida de Jim Wormold, um inglês que vive em Havana e tem uma loja de aspiradores. Abandonado pela mulher, Wormold tem dificuldades financeiras para sustentar e agradar a filha de 17 anos, Milly, que é constantemente cortejada pelo Captain Segura, da polícia local. É neste contexto que Wormold é recrutado como espião dos serviços secretos britânicos e começa a lucrar com os relatórios que envia à chefia.

Procurando limitar os possíveis spoilers, que oferecem um brilhantismo único a esta história, é interessante ver como Greene satiriza a espionagem britânica, toda a rede dos serviços secretos, e ao mesmo tempo a estupidez humana. A simplicidade e ingenuidade de Wormold transformam-se ao longo da obra, pela sua necessidade de obter ganhos superiores e satisfazer os desejos da filha adolescente, tornando-o calculista, inteligente e muito perspicaz.

"They can print statistics and count the populations in hundreds of thousands, but to each man a city consists of no more than a few streets, a few houses, a few people. Remote those few and a city exists no longer except as a pain in the memory, like the pain of an amputated leg no longer there. It was time, Wormold thought, to pack up and go and leave the ruins of Havana."

É sobretudo um romance construído em torno da sua narrativa, mas também em torno das suas personagens. Para além da complexidade e da transformação de Wormold, a sua amizade com o Dr. Hasselbacher é um dos maiores desafios que esta aparente "venda" da sua alma aos serviços secretos o leva a enfrentar. O mesmo em relação a Beatrice, enviada como secretária pelos serviços secretos para ajudar Wormold a contactar as suas fontes e a proteger-se. Mas ninguém escolhe quando e por quem se apaixona.

Há um humor muito subtil e inteligentemente inserido nesta obra de Greene, na forma como Wormold cria os seus relatórios e estes são tomados pelos serviços secretos. E também prevalece, no meio de toda esta história aparentemente bem humorada, um drama profundo no impacto que esta nova vida de Wormold tem sobre os seus amigos, desconhecidos que a ele estão ligados por laços inexistentes, e mesmo sobre a sua percepção da vida em Havana.

Não há forma de expressar o interesse que este livro desperta em nós, o seu tom policial que acelera a leitura, o seu humor satírico que nos leva a querer saber como vai terminar esta história, e mesmo a última parte mais dramática e emocionante que desperta o nosso lado mais humano. Greene é um génio e um autor muito versátil e completo que nos deixa sempre - positivamente - sem palavras.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Stefan Zweig - Confusão de Sentimentos

"Que maravilha vê-lo assim satisfeito! Seria efeito da serena noite de Verão, efeito benfazejo da suavidade da atmosfera de tons desmaiados, ou brilhar-lhe-ia na alma um pensamento consolador? Ignorava. Mas, habituado a ler no seu rosto como num livro aberto, sentia que uma coisa era certa: nesse dia, um deus misericordioso aplicara-lhe um bálsamo nas rugas e nas pregas do coração."
'Confusão de Sentimentos', Stefan Zweig

Não há qualquer confusão de sentimentos em relação a Stefan Zweig: há um sentimento único de grande admiração, de paixão pela sua escrita intensa, de  um desconforto feliz perante a profundidade dramática das suas novelas. Este volume é mais um de compilação de histórias brilhantemente escritas, que nos tocam como se as vivêssemos na primeira pessoa.

Entre algumas personagens e histórias que nos deixam um pouco mais indiferentes, a maioria destaca-se pelo sentimento que Zweig transmite a cada pedaço da sua arte literária. Em 'A Estrela sobre a Floresta', há um amor incógnito e não correspondido de um criado de hotel por uma hóspede. Em 'O Medo', uma mulher infiel ao marido é levada à loucura pela namorada do amante, que faz chantagem com ela. Em 'Confusão de Sentimentos', um estudante ganha intimidade com um professor e a sua esposa, cujo conhecimento muda totalmente a sua vida.

"Nem um segundo durou, e não foi nenhum estremecimento, susto ou movimento. E, no entanto, foi um daqueles segundos em que se concentram milhares de horas e de dias cheios de exultação e de tormento, da mesma forma que um único grão de pólen transportado pelo vento encerra a força selvagem dos grandes carvalhos das ramagens agitadas pela brisa e copas balançando num sussurrar surdo."
Por muito que as histórias se concentrem em contextos e personagens diferentes, há pontos comuns a todas as novelas que as tornam verdadeiramente 'zweigianas': o medo e a percepção errada sobre os sentimentos dos outros, o fracasso das expectativas que se tem em relação a alguém, o amor não correspondido - ou a incapacidade de corresponder ao amor do outro, pelo menos na mesma medida. Há muita confusão de sentimentos, muitas forças distintas, cada uma a puxar para o seu lado, que levam as personagens a criar cenários ilusórios, a ficar loucas ou mesmo a morrer de desgosto.

Se por um lado Zweig cumpre sempre bem as nossas expectativas, as suas histórias fogem sempre um pouco ao expectável. Há sempre um twist, algo no meio ou no final das novelas que nos faz entender o propósito de não o termos desvendado logo nos primeiros parágrafos - e que nos faz sentir aquele misto de sentimentos, entre o querer muito chegar ao final e saber o desenlace, e o não querer nunca deixar de ler aquelas palavras e de sentir aquela emoção numa leitura.

Zweig, para mim, é sempre sinónimo de emoção, paixão e tragédia, a todos os níveis. As suas novelas enchem-nos de amor, mas sobretudo de uma grande dor, transversal à maioria das suas personagens bem humanas. Quando comprei este livro na Feira do Livro, há dois anos, o livreiro disse-me: "leva aí um dos melhores livros que temos". Não estava enganado. Encheu-me as medidas, aliás como Zweig sempre o faz.