sábado, 29 de outubro de 2016

O Agente Secreto - Joseph Conrad

"Toda a paixão está agora perdida. O mundo é medíocre, mole, sem força. E a loucura e o desespero são uma força. E força é um crime aos olhos dos tolos, dos fracos, e dos patetas que mandam."
'O Agente Secreto', Joseph Conrad

É talvez das obras menos célebres de Conrad e das mais afastadas da sua 'biblioteca' habitual, segundo os muitos experts pelo mundo fora. Lê-lo pela primeira vez neste drama semi policial é, no entanto, conhecer a sua escrita cuidada e o poder das reviravoltas numa história aparentemente simples.

O Sr. Verloc é um agente secreto de embaixadas estrangeiras em Londres e da polícia inglesa, infiltrado no movimento anarquista e revolucionário local para fornecer informações e provocar actos terroristas com o objectivo de levar a polícia a actuar de forma mais dura sobre estes movimentos. Apaixonado por Winnie, a sua esposa, e simpatizado com o seu irmão Steve, de quem ela cuida diariamente, o Sr. Verloc vive feliz numa loja de fachada da sua actividade política. Quando é ordenado a fazer explodir um local importante da capital inglesa, contudo, nem tudo corre bem neste acto terrorista, que vai impôr uma mudança nas vidas de todas as personagens.

"Naquela loja de artigos duvidosos cheia de prateleiras pintadas de um castanho baço, que parecia devorar o brilho da luz, o círculo de ouro da aliança na mão esquerda da Sr.ª Verloc brilhou excessivamente com a glória imaculada de uma jóia, retirada de um tesouro esplêndido, ao cair no caixote do lixo."

Conrad é mais descritivo e sensível na primeira parte do romance, antes do atentado em Greenwich - símbolo do espírito e do poder científicos no início do século XX -, dando-nos a conhecer todas as personagens de relevo para a trama, a relação de Verloc com a esposa e desta com o irmão cadenciado, os anarquistas e únicos 'amigos' de Verloc, e ainda este estranho pedido de criação de um momento impactante para obrigar à actuação da polícia.

Depois do atentado, parece ganhar outra vida. A sensibilidade deixa-se um pouco de lado: há crueza, há vingança, há um despojo total de toda sobriedade, de toda a submissão a que a aceitação de uma vida menor obriga. A dor e a perda da vontade de viver pode transformar até o ser humano mais brando e submisso num agitador. E Conrad mostra-nos esta transformação tão real, tão credível, que faz valer em si mesma toda a leitura. Como se estivéssemos dentro de uma tragédia à moda do teatro.

Aqui não há heróis, não há heroísmos. Há uma aventura, há acção, há um acontecimento central em que se centra toda a obra - e há sobretudo um grande domínio sobre o ritmo, que Conrad gere de forma muito interessante. Mas Verloc está longe de ser uma personagem a que nos agarremos do início ao fim. É mais um no mundo de loucos, mais um que erra e falha como todos os outros. E o objectivo de agitação da sociedade, quando um atentado não corre exactamente como previsto, falha também.

Não sei se Conrad terá algo de anárquico dentro de si e que transponha para a sua obra. A sua preocupação parece extrapolar a questão individual e mesmo política (e mesmo desta história, que se baseia num acontecimento verídico), o que a meu ver ganha alguns pontos. A intemporalidade desta obra assusta igualmente pela proximidade à forma como ainda são levados a cabo estes atentados nos dias de hoje.

'O Agente Secreto' deixa sobretudo a curiosidade de conhecer melhor Conrad e descobrir a sua obra.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Daytripper - Fábio Moon e Gabriel Bá

"Só quando aceitas que vais morrer é que consegues finalmente libertar-te... e aproveitar a vida ao máximo."
'Daytripper', Fábio Moon e Gabriel Bá

As histórias sobre a vida têm lugar em todos os tipos de literatura, mas é talvez na banda desenho ada que conseguem ganhar, literalmente, mais expressão visual. 'Daytripper' é um dos exemplos máximos deste poder das novelas gráficas, levando-nos para novos mundos, como viajantes no dia-a-dia de várias realidades alternativas.

Brás de Oliva Domingues é filho de um escritor famoso e também ele escritor de obituários para um jornal, lidando assim com a morte diariamente. Mas nunca está preparado para as mortes que o rodeiam - e muito menos para a sua própria morte. Acontece que, no final de cada capítulo, Brás morre, de uma forma ou de outra, na infância ou na velhice, depois de uma vida cheia de momentos felizes ou com tudo por concretizar.

Cada capítulo é como uma vida alternativa de Brás, que com as suas inúmeras mortes continua a ser das personagens com mais vida e personalidade que conhecemos. Há histórias de sucessos e fracassos de romances, aventuras, esperanças, muitas mudanças e desilusões. 'Daytripper' é um "e se?" constante, em que Brás vai crescendo e a sua vida evoluindo, como se cada morte possível fosse um caminho não escolhido. Talvez apenas uma delas tenha acontecido, ou talvez sejam todas fruto da sua imaginação ou das possibilidades da vida terrena.



Os percursos alternativos lidam sempre com percepções, reacções aos momentos que se vivem e sobretudo com escolhas de Brás, como se cada uma delas levasse a um caminho de morte diferente. A relação com o pai às aventuras com o amigo Jorge, um amor antigo à descoberta do amor da sua vida,  o nascimento do primeiro filho, episódios da sua infância e (re e des)encontros pouco felizes, tudo faz parte da vida e tudo espelha o que pode ter sido a existência de Brás (ou a que aqui pretende relatar numa espécie de memória ficcional).

Fábio Moon e Gabriel Bá são dois irmãos gémeos com paixão por contar histórias e pela banda desenhada, o que é claramente visível nesta viagem única e surpreendente, recheada de cenários bem brasileiros, de cores maravilhosas e de ilustrações que remetem constantemente para o mundo do sonho e da imaginação. Esta unicidade e este foco num indivíduo como muitos outros, com uma vida mais ou menos preenchida e tudo menos perfeita, foca-se no entanto em questões bem universais e com as quais facilmente nos identificamos.

O que sobra é uma sensação de busca constante por algo que nunca conseguimos alcançar - a essência da vida. Sobra uma vontade tremenda de aproveitar cada dia como se o amanhã fosse um caminho possível de aproximação ao nosso derradeiro dia na Terra. E tudo parece redutor quando procuramos expressar a dor, o poder criativo e a força de vida que 'Daytripper' nos transmite a cada capítulo / vida de Brás.

sábado, 15 de outubro de 2016

Nada a Temer - Julian Barnes

"Dividimo-nos assim em quatro categorias e vemos logo quais as duas que se consideram superiores: as que não receiam a morte porque têm fé e as que não receiam a morte apesar de não terem fé. Estes grupos ocupam a mais alta posição moral. Em terceiro lugar vêm is que, apesar de terem fé, não conseguem livrar-se do velho medo visceral, racional. E depois, já longe das medalhas, abaixo de tudo, na miséria, vêm aqueles de nós que temem a morte e que não têm fé."
'Nada a Temer', Julian Barnes

Julian Barnes entrou há já algum tempo na minha lista de autores favoritos. Conquistou-me com o seu 'The Sense of an Ending', que curiosamente tem muito do que começou por filosofar neste 'Nada a Temer', e em todos os livros  dele que fui lendo encontrei algo que me fascinou. Esta obra sobre a vida e a morte, ainda que não me tenha conquistado na íntegra, dá a conhecer um pouco melhor o homem por detrás do escritor - se é que alguma vez os podemos dissociar.

Na morte não há 'nada a temer', dizem os que não vêem na morte o desconhecido, um problema ou um medo relevante durante a vida. Julian Barnes não é um deles: não é religioso e teme a morte como algo que não lhe é palpável e imaginável. Neste livro disserta sobre a sua história de família, a mãe e o pai, o irmão filósofo de quem se sente radicalmente diferente, os amigos com quem conversa sobre o assunto da morte, autores que falam sobre a morte e que têm opiniões muito diferentes sobre este momento final da vida de cada pessoa.

É uma reflexão filosófica, académica de certa forma, psicológica em tudo o que acarreta a ideia da morte e sobretudo muito pessoal: é Julian Barnes, o homem, que aqui escreve na primeira pessoa sobre a sua infância, o seu primeiro contacto com a consciência da morte e a evolução do seu pensamento sobre este assunto que atravessa toda a obra.

"Para o escritor mais velho, memória e imaginação parecem diferenciar-se cada vez menos. Não é porque o mundo imaginado esteja realmente muito mais próximo da vida do escritor do que ele ou ela quer admitir (um erro comum entre os que dissecam a ficção), mas exactamente pela razão oposta: a própria memória acaba por, mais do que nunca, parecer muito próxima dum acto de imaginação."

Mais do que um romance, é sobretudo um diário quase existencialista entrecortado com um conjunto de reflexões de grandes pensadores sobre a morte. Jules Renard, Montaigne e muitos outros surgem citados por Barnes para mostrar as várias visões da morte que, ao longo do tempo, foram sendo partilhadas e a sua própria visão sobre ela no meio de tantos outros pensamentos díspares deste momento temido por muitos.

A religião tinha também de entrar nesta reflexão, na visão religiosa dos crentes e dos não crentes sobre a morte. A defesa de que a religião é um escape, uma forma de acreditar na vida eterna e de negar, de certa forma, a morte como aqueles que a temem a valorizam. Em tudo o que a vida nos faz pensar, entra também a memória: a incapacidade que temos de recordar todos os momentos da nossa vida tal como aconteceram ou tal como os pensámos da primeira vez, e também a forma como imaginamos as nossas memórias e as vamos alterando com o passar do tempo.

O que seria melhor, sabermos exactamente quando e como iremos morrer ou continuarmos a desconhecer esse facto? O que ajuda mais a ultrapassar a ideia da morte, a crença num Deus que nos ajude a crer na vida depois da morte, ou a descrença total? O que nos torna mais ou menos propícios a temer a morte?

Em busca de respostas e sobretudo de uma forma de entender esta ideia da morte como algo que não devemos temer, Julian Barnes leva-nos numa viagem sobre a sua vida e a vida e morte dos que o rodearam, sem nunca nos condicionar a reflexão e misturando a realidade e a ficção para que nem ele mesmo saiba se a escrita é memória ou é imaginação. Não sendo genial na forma como o faz, merece um agradecimento especial por nos tentar esclarecer (ou confundir?) um pouco mais sobre o que estamos, afinal, a fazer neste mundo.

The Mysterious Affair at Styles - Agatha Christie

"It is well. The bad moment has passed. Now all is arranged and classified. One must never permit confusion. The case is not clear yet - no. For it is of the most complicated! It puzzles me. Me, Hercule Poirot!"
'The Mysterious Affair at Styles', Agatha Christie

Há 100 anos, a Primeira Guerra Mundial assolava parte do mundo e Arthur Conan Doyle tinha já criado um dos detectives mais famosos da história dos policiais. Estava-se em 1916 e Agatha Christie escrevia a sua primeira obra, também a primeira para a sua personagem mais carismática: o detective Hercule  Poirot. Ler 'The Mysterious Affair at Styles' é conhecer um crime em pistas, conjurações e na amizade dos dois 'detectives' da história.

Hastings, o narrador, está de licença do exército britânico e aceita o convite do amigo John Cavendish para visitar a sua casa de família no Essex, Inglaterra. Uma morte choca família e convidados na casa dos Inglethorp, sendo Alfred, o marido da anfitriã, imediatamente dado como culpado por todos. Mas a chegada de Poirot ao local traz uma nova interpretação dos cenários e das personagens em torno do crime.

"- Well, I've always had a secret hankering to be a detective!
- The real thing - Scotland Yard? Or Sherlock Holmes?
- "Oh, Sherlock Holmes by all means. But really, seriously, I as awfully drawn to it. I came across a man in Belgium once, a very famous detective, and he quite inflamed me. He was a marvelous little fellow. He used to say that all good detective work was a mere matter of method."

Como o Watson de Sherlock Holmes, Hastings admira muito a genialidade de Poirot e a sua veia detectivesca dá-lhe a coragem e a confiança necessárias para ajudar o detective belga de bigode e aspecto roliço a revelar o verdadeiro culpado do homicídio. Na maior parte das vezes, a sua compreensão do raciocínio de Poirot é lenta e confusa, estando sempre um passo atrás da sua forma clara e certeira de pensar. E o leitor está sempre ao seu nível, sem saber exactamente em que pé está a descoberta de pistas, o que ajuda a manter o mistério em torno da revelação do assassino.

O conhecimento de Agatha Christie sobre os venenos e a sua capacidade de matar levam-na a introduzir este método como causa do homicídio nesta sua primeira obra policial. A 'Rainha do Crime' consegue envolver-nos com a sua escrita aparentemente simples, mas com uma profundidade que nos envolve inteiramente no mistério da história, na ambiguidade das suas personagens e na possibilidade de qualquer uma, mesmo a mais improvável, ser a culpada do crime.

Poirot é, desde estes seus primeiros momentos na imaginação de Agatha Christie e no seu surgimento no papel, uma personagem muito peculiar e fascinante. Se por um lado é apenas um refugiado de guerra vindo da Bélgica com um sotaque afrancesado e uma forma de falar inglês meio estranha, começa aos poucos a revelar a sua capacidade de juntar as pistas. É Hastings que nos diz, a certa altura, que apesar de se sentir sempre perdido, há método na loucura de Poirot - e não haverá melhor forma de o descrever: um louco com método, um génio com um certo grau de excentricidade.

"- The mind is confused? It is not so? Take time, mon ami. You are agitated; you are excited - it is but natural."

Esta edição conserva, para além do editado, o final original de Agatha Christie, com o mesmo culpado e a mesma história, mas descrito de forma diferente. O pedido do editor da autora para que rescrevesse o penúltimo capítulo oferecendo-lhe uma organização diferente mostra uma autora ainda em crescimento, que apesar de se ter tornado quase uma escritora por encomenda não deixou de ser sempre a mesma Agatha com ideias e uma grande capacidade de escrita.

Pode ser o seu primeiro livro policial, mas mostra já o potencial da futura rainha do crime e da sua personagem mais famosa, Poirot, de conquistarem muitos leitores por tudo o mundo - mesmo 100 anos depois do início de uma vida recheada de crimes, mistérios e sucessos.