sábado, 11 de junho de 2016

A Casa da Morte Certa - Albert Cossery


"A casa estava tão desamparada nos seus mais pequenos recantos que, para além dos elementos exteriores que fomentavam a sua ruína, encerrava em si mesma o gérmen do seu desabamento. Nada o podia deter na sua metódica e vertiginosa destruição."
'A Casa da Morte Certa, Albert Cossery

Há um ano que aguardava este primeiro encontro com Albert Cossery, na expectativa de que fosse mais um dos autores da interessante vaga existencialista. É, no entanto, mais do que isso: faz-nos ver a inevitabilidade e a falta de importância dada às coisas relevantes, mas também nos leva a pensar, a revoltar, a agir. A saltar das páginas do livro para olhar à nossa volta e tentar compreender um pouco melhor o mundo que nos rodeia.

Na casa da morte certa, os seus habitantes vivem na pobreza, em condições miseráveis, com apartamentos degradados e um senhorio que não quer saber deles e dos seus problemas, não assumindo inclusivamente a responsabilidade pelas necessárias obras que a casa precisa para evitar o seu desabamento. E eles aguardam, uns desinteressados, outros procurando uma solução concertada junto do senhorio ou de outras entidades, na expectativa de salvar a casa e as suas vidas.

"Não tinham vontade de se levantar, nem de fazer o mais pequeno gesto. Sentiam-se aprisionados no seu destino e banidos para sempre do resto do mundo. A casa poderia ruir: ela encontrá-los-ia prontos para o supremo sacrifício. Para quê moverem-se, se tudo deve, por fim, cair no vazio da morte?"

Entre os habitantes desta casa perdida no Egipto encontramos vários trabalhadores de rua - vendedores de alfaces, carroceiros, domadores de macacos -, árabes, pobres, sem esperança e sem espírito de equipa. Todos partilham um certo egoísmo (natural do ser humano, é certo, mas nem sempre tão vincado) que os desresponsabiliza e afasta dos problemas comuns, seja por desinteresse, seja por vaidade.

Mais mesquinho, egoísta e pobre (de espírito!) que todos eles, o senhorio Si Kahlil, rico e cheio de esquemas, ignora todas as tentativas dos inquilinos de salvarem a sua casa da morte certa. Apesar das muitas diferenças que os afastavam uns dos outros, procuram unir-se contra este homem e contra a sua atitude silenciosa e inerte perante a sua desgraça. Este espírito de equipa, de revolta e de vingança marca também, de certa forma, esta obra de Cossery, ainda que na verdade representem mais uma questão de palavra do que de acto.

"Não havia como a noite para os pobres. Só nela se sentiam eles próprios e podiam esconder a vergonha da sua agonia."

Se a casa tem a morte certa, os homens e as mulheres que a habitam também. E aos poucos vão revelando estas suas atitudes mesquinhas, talvez pela proximidade da morte, talvez pelo medo de perderem tudo. E por isso não confiam nunca plenamente uns nos outros, desconfiam sempre das suas ambições pessoais.

Diz-se que foi esta ambição, causa de todas as desgraças do mundo, que Cossery quis aqui retratar no seu sentido filosófico, face àquele que apenas quer da vida os simples prazeres da existência. Daí a veia existencialista, daí a aceitação das coisas como são, sem grandes exaltações. Mas em Cossery há de facto muito mais do que isso: há revolta nas almas e nos corações, há essa ambição desmedida no peito de cada um destes habitantes. E há uma insuficiência suficiente de força de vontade e de revolução que faz tudo terminar quase como começou.

"As crianças dormem tranquilas. Nunca se queixam. O homem esse queixa-se porque percebe que é um escravo. Procura sair disso grita debate-se mas nada acontece. As crianças são a força que se erguerá um dia da lama dos bairros populares. Uma força imensa e explosiva que nada mais poderá deter. Vinda do fundo das vielas submergirá as praças e as avenidas. Rebentará como um mar tempestuoso atingindo desta forma o rio as ilhas adormecidas no esplendor dos palácios. Aí deter-se-á por fim. Respirará vigorosamente. Terá atingido o seu objectivo."

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Os Cadernos de Pickwick - Charles Dickens

"O sol, pontual servidor de todos os trabalhos, acabava de nascer e começava a alumiar a manhã do dia treze de Maio de mil e oitocentos e vinte e sete, quando Samuel Pickwick se ergueu, tal outro sol, dos seus sonhos, abriu de par em par a janela do quarto e espreitou o mundo em baixo."
'Os Cadernos de Pickwick', Charles Dickens

Prendas de anos que não podiam ser mais bem escolhidas. Um verdadeiro presente pickwickiano - recheado de aventuras sem sair do sofá, mas que nos enchem o coração e nos fazem rir e chorar por mais a cada fascículo novo. Charles Dickens conquistou-me com estes pequenos cadernos humorísticos, o Sr. Pickwick e as viagens com os seus amigos.

Pickwick e os pupilos e amigos Tupman, Snodgrass e Winkle, membros do clube ao qual o primeiro dá nome, passam os dias a viajar pelo interior de Inglaterra em busca de conhecer melhor não só os locais, mas também as pessoas que neles habitam. Fazem assim descobertas científicas e do comportamento humano, conhecendo personagens muito características, vivendo situações muitas vezes ridículas e tornando as viagens, mais que 'profissionais', muito pessoais.

"Poucos momentos haverá na vida de um homem que se possam comparar, na experiência do sofrimento ridículo e de uma proporcional falta de compaixão e caridade, à corrida atrás do próprio chapéu."

Estas aventuras são relatadas com muito humor, desde o Sr. Pickwick atrás do seu chapéu às paixões dos seus amigos por donzelas que vão conhecendo; do episódio que os aproxima a todos da prisão às trapalhices do pai do Sr. Weller; do Sr. Jingle que não consegue construir uma frase sem reticências e com mais de 5 palavras seguidas... aos partidos distintos de Eatanswill.

Quando um livro e um autor têm, sozinhos - com os devidos créditos aos leitores que os celebrizam -, a capacidade de tornar as acções das suas personagens características, ao ponto de serem tomadas como referência sempre que alguém tem as mesmas acções, sabemos que estamos perante uma das grandes obras do século XIX! É o que acontece com Samuel Weller e a sua peculiar forma de se expressar: sempre utilizando comparações engraçadas e metáforas no seu discurso.

Apesar de muito descritivos, estes 'Os Cadernos de Pickwick' são também bastante dialógicos: há sempre acção, aventuras a acontecer, discursos elegantes a ser ditos, expressões curiosas a ser utilizadas. E tudo isto torna a leitura, apesar de densa e longa (são mais de 900 páginas!!), muito interessante e rápida, a par dos belos desenhos que vão ilustrando as aventuras vividas pela trupe.

"-Não acham extraordinária a impressão de que é nosso destino entrar em casa de toda a gente para os meter em qualquer espécie de sarilho?"

Se ao longo dos fascículos - sim, que isto não foi escrito como uma obra só, mas sim como pequenas histórias em fascículos - o Sr. Pickwick é frequentemente caricaturado nos relatos das viagens, pela forma inevitável e inesperada como é apanhado em situações estranhas e duvidosas, é ao mesmo tempo o mais perspicaz, sensível, compreensivo, humilde e sensato de todos eles.

À sua volta as personagens exageram, representam classes sociais, mostram características do local e das pessoas que conhecem, são conservadoras ou desrespeitam-se umas às outras. E o Sr. Pickwick é sempre a pessoa que mete ordem na casa, que explica como as coisas devem ser, o que está certo e o que está errado, elevando a sua voz e mostrando aos outros o que de melhor se encontra nos seus corações.

As personagens não mudam necessariamente ao longo da obra, antes descobrimos lados seus que desconhecíamos inicialmente. E vamo-nos aproximando delas, cada vez mais, à medida que se nos vão mostrando boas, apaixonadas e "pickwickianas", no que de sarilhos e humildade a expressão encerra.

Tanto Sam como Pickwick são absolutas revelações nesta obra e sem dúvida as personagens que me fazem querer voltar a estas páginas. Recomendarei a todas as pessoas, porque acredito que há um pouco de cada uma destas personagens em nós, e isso torna a leitura muito mais interessante, rica e memorável - e a descrição da sua leitura uma tarefa quase impossível :)