domingo, 31 de janeiro de 2016

Vergílio Ferreira: o centenário de um escritor inconformado


Em 2016 passam 100 anos desde o nascimento e 20 sobre a morte de um homem que não gerou consensos, mas que deixou o seu lugar bem assente na história da literatura portuguesa do século XX. 28 de Janeiro, o dia em que nasceu, na aldeia de Melo, em Gouveia, marcou o início de um ano inteiro recheado de celebrações, reedições, conferências e muitas outras homenagens a Vergílio Ferreira.

"Alegrias? Dificuldades? A maior alegria de que me lembro, é a de estar vivo; e a maior dificuldade também." em 'Um Escritor Apresenta-se’ (1981)

A escrita apresenta o autor


‘Para Sempre’ (1983), título de uma das suas obras de ficção, é um dos que vêm à memória quando comemoramos 100 anos sobre o dia que trouxe Vergílio Ferreira ao nosso mundo - a imortalidade da sua escrita e do seu humanismo são pormenores que o tempo e a memória não conseguem apagar.

Nas 50 obras, entre romances de ficção, ensaios e diários, que Vergílio Ferreira nos legou, dificilmente reconheceríamos o rapaz que escreveu as primeiras no homem maduro que nos ofereceu as últimas. A sua capacidade de aprendizagem, de auto-crítica, de evolução constante, mesmo que isso implicasse contradizer o que tinha escrito anteriormente, são dos traços mais notáveis na sua obra. E são também paradigmáticos da sua complexidade, pois lê-lo num novo livro é sempre diferente de o ler no anterior.

Há, por isso, sempre algo novo a lembrar sobre o autor que, apesar de nos ter deixado há 20 anos, a 1 de Março de 1996, nos continua a apaixonar pela sua capacidade de absorver todo o tipo de pensamentos, crenças e descrenças, não se deixando ficar por primeiras impressões e opiniões supérfluas. Existe uma reflexão permanente na sua vida, que se reflecte também na sua escrita, sempre determinada pelo estado de espírito, pela necessidade de catarse, ou até mesmo pelo turbilhão de dúvidas sobre a vida que lhe passavam pela alma.

O homem que, de forma quase catártica, nos ofereceu em ‘Vagão J’ (1944) e em ‘Manhã Submersa’ (1954) um relato da sua infância pobre e dos seus anos no Seminário do Fundão, é radicalmente diferente do autor dos romances que se seguiram, ao transformar a sua escrita inicialmente neo-realista num questionamento existencialista do mundo. É o mesmo homem a narrá-las, existe até um paralelismo nas mulheres que descreve nos vários romances, escreve histórias semelhantes de descoberta, de fuga à caverna da alegoria de Platão; mas a forma como as relata nunca é exactamente a mesma, e é isso que faz com que, a cada obra, o leiamos sempre pela primeira vez.

Vergílio Ferreira nunca se assumiu como um resistente ao regime de Salazar nem como um anti-católico fervoroso, pelo contrário: sempre tentou chegar a um consenso para a publicação dos seus romances, na ditadura, cedendo aos cortes da censura; e quanto ao catolicismo não se assumia totalmente como descrente em Deus, apenas como um saudável questionador da visão fechada e dogmática que a Igreja dela fazia.


Queria ser lido, mais que tudo o resto - nem a bem sucedida aparição no filme de Lauro António baseado na sua ‘Manhã Submersa’, como reitor do Seminário, lhe agradou por retirar protagonismo à arte em que gostaria de ser mais reconhecido: a escrita. E apesar de a sua visão antitética a estes dois regimes estar bastante presente na sua obra, de forma indirecta e, por vezes, subtil, não tinha como objectivo criticá-los gratuita e exclusivamente. Existia sempre uma motivação pessoal, uma reflexão sobre o contexto em que vivia e uma tentativa de encontrar a verdade no meio das verdades que lhe eram oferecidas, tanto nos romances como nos diários em que censura de forma mais acesa as liberdades que não lhe são conferidas.

Há em Vergílio Ferreira uma forma muito própria de reflectir, virada para o futuro e para a ‘Mudança’ - (1949), obra que marca, inclusivamente, o início da sua investida existencialista na ficção -, para a atribuição de sentido às coisas. Não é, de todo, virada para o passado, ainda que o possa retomar como exemplo. E, por este motivo, não é saudosista, tratando-se quase de um sentimento pouco português, este do homem que dizia que “a minha pátria é a imaginação”.

É a voz e o pensamento de um homem que escreve por motivos egoístas, para poder olhar para a vida futura com olhos de ver, enfrentando o passado; mas também de um homem consciente da sociedade em que vive, de tudo o que constrange o mundo dos homens. Encerra em si mesmo um sentimento quase pessoano de quem nunca está bem onde está, que não tem paz no espírito, que quer sempre mais, que não aceita o que vê e o que lhe é dado, que busca aquela coisa linda e desconhecida que parece faltar. E que faltará sempre, para dar sentido ao questionamento, à continuidade; em suma, à vida.

Na escrita diarística, é a velha impossibilidade comunicacional de a palavra traduzir directa e fielmente o que a alma deseja expressar que o preocupa: "Minha Gina: vou hoje começar um diário para ti. (...) Tu sabes que um diário é sempre falso. Nós somos quase sempre falsos até mesmo quando pensamos, porque o pensar é já um desnudar-se uma pessoa perante si mesma.” - em ’Diário Inédito’ (2010). Não quer, por isso, reflectir muito nestes seus escritos, mas acaba por os alterar e tornar mais “literários”, anos depois da escrita, para que um dia pusessem ver a luz do dia. E assim o fizeram.

Apresentado pela sua obra, Vergílio Ferreira pode não ter sido consensual política, filosófica e até literariamente, com as suas mudanças de posição, a sua absorção de influências e a relação próxima que manteve sempre com a palavra escrita: delicada, pessoal e intransmissível. É inquestionável, no entanto, a sua influência sobre a visão do Portugal do século XX e o lugar do homem no mundo. Ainda que possa não ter deixado herdeiros deste seu existencialismo romanceado e do seu humanismo irrepreensível, deixou-os em herança à história do seu país.

100 anos de Vergílio Ferreira em celebrações


Das comemorações do centenário de Vergílio Ferreira fazem parte, antes de mais, reedições de obras há muito esgotadas do autor: ‘O Caminho Fica Longe’ (1943), a sua primeira obra, escrita em 1939, apreendida pela censura e agora publicada na versão revista pelo autor para publicação; e ‘Rápida, a Sombra’ (1964). A 15 de Janeiro foi também lançada nas livrarias, a par destes dois romances, uma reedição da Quetzal de ‘Aparição’ (1959), a obra do autor que o Plano Nacional de Leitura mais deu a conhecer aos portugueses em idade jovem, e ainda um livro que reúne ‘100 Frases de Vergílio Ferreira’.

Para os meses seguintes, aguarda-se a reedição de ‘A Curva de Uma Vida’ (1938) e do romance ‘Promessa’ (1947), ambas obras póstumas lançadas em 2011. ‘Cântico Final’ (1959) será outra das obras esgotadas a ver a luz do dia esta Primavera. No final do ano, será a vez de ‘Onde Tudo Foi Morrendo’ (1944) ter uma nova edição pela Quetzal.


Para lá da revisitação ao seu espólio, as celebrações incluem uma série de colóquios e conferências na sua terra Natal, Gouveia, promovidas pelo município, que criou também um site próprio para lembrar o autor e englobar todas as iniciativas do centenário. Os CTT lançaram ainda a edição especial de um postal de homenagem a Vergílio Ferreira.

Na Internet, a RTP criou uma área específica do seu site de notícias para recordar o autor em entrevistas na rádio, em reportagens sobre o local onde nasceu e onde foi sepultado - virado para a Serra da Estrela, como pretendia. Já a Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas revelou documentos inéditos presentes nos arquivos da Torre do Tombo relativos à censura das obras de Vergílio Ferreira: ‘Vagão J’, ‘Manhã Submersa’ e ‘A Face Sangrenta’.

Será assim um ano inesquecível e imperdível para todos os admiradores da vida e obra de Vergílio Ferreira - o homem, o escritor, o professor e o eterno aprendiz da vida.

"A palavra é um espartilho das ideias - diz-se. É pior. Não só uma ideia fica deformada na palavra, como isolada irremediavelmente de quantas ideias lhe pertencem.” em ‘Diário Inédito’ (2010)

domingo, 17 de janeiro de 2016

Aventuras de João Sem Medo - José Gomes Ferreira

É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir
‘Aventuras de João Sem Medo’, José Gomes Ferreira

Quem não andar espantado de existir, ficá-lo-á com este livro. ‘As Aventuras de João Sem Medo” é um clássico para jovens que gostam de pensar e para adultos que não perderam o espírito aventureiro. Faz parte do Plano Nacional de Leitura e inspira-se nas dimensões poética e antifascista do seu criador, que em 1963 compilou em romance estas 15 histórias lançadas em forma de panfleto em 1933.

João Sem Medo decide partir da sua dramática terra, Chora-Que-Logo-Bebes, onde todas as pessoas choram de manhã à noite, de alegria ou felicidade, saltar o Muro e enfrentar a magia da Floresta Branca em busca de novas aventuras. Conhece fadas, gigantes, bruxas, animais falantes, príncipes estranhos e toda uma panóplia de seres sobrenaturais. Tem de abdicar de partes do seu corpo, transforma-se em árvore, interpela o autor, conhece o seu “eu” medroso e entra nos contos fantásticos que conhece de leituras, desde que parte até tentar descobrir o caminho de volta a casa.

Podemos lê-los isoladamente, que o efeito mágico é semelhante. Quando, em 1963, José Gomes Ferreira reuniu em volume único estes 15 capítulos, mal tocou na história original, apenas aqui e ali, para a tornar mais coesa, sem acrescentar novas aventuras a este jovem aventureiro. Porque as histórias, a magia, a intenção - já lá estava tudo, intrínseco a cada episódio. Até mesmo a crítica fabulada ao regime salazarista que, tanto em 33 como em 63, oprimia o país.

Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva à Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas. Segundo e último: trazer nos pés e nas mãos correntes de ouro…

Está na forma brava como João se assume Sem Medo, como luta contra a escolha óbvia do caminho da felicidade (que implicava o corte da sua cabeça e a ausência de livre pensamento), como questiona tudo o que vê e lhe contam. É um herói anti-herói, quase, porque foge à fantasia do mundo que lhe é apresentado, às narrativas óbvias dos contos de fadas, mesmo à ideia de que o herói, por o ser, tem sempre de vencer no final - tem mesmo de apelar ao autor para o salvar das garras de um gigante vingador e malvado. E assim escapa às garras da narratividade romanesca, seja ela fantasiosa ou romanceada, e da própria censura.

Verdadeiramente desmistificadoras, com um cunho surrealista muito forte, as ‘Aventuras de João Sem Medo’ apresentam-nos como personagem principal uma espécie de jovem burguês, como descreve o próprio autor, que se assume, a si mesmo, sem medo. E essa assunção ajuda-o a manter-se corajoso, destemido, optimista e aventureiro até ao fim, mesmo que a sua aventura por terras estrangeiras, mundos mágicos e caminhos de infelicidade apenas faça mudar a perspectiva com que encara a vida.

E fiel, ao meu lema de cronista imparcial, propunha-me descrever a derrota de João Sem Medo, embora com o coração destruído, quando se deu o lance dramático de ouvi-lo increpar-me - bracinhos hesitantes a saírem do outro lado da tinta das palavras… Apelo espontâneo, com que não contava - juro! - vindo de lá das profundas do subconsciente da liberdade com que o criei e convenci a saltar o Muro, dotado da mais nobre virtude de que um ser vivente se pode orgulhar: a coragem.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Um Longo Domingo de Noivado - Sébastien Japrisot

Senta-a na cadeira de rodas e declara-lhe que, a partir desse momento, são noivos, arderão no inferno se mentirem um ao outro, ela está de acordo, juram esperar e casar-se quando ele voltar da guerra.
‘Um Longo Domingo de Noivado’, Sébastien Japrisot

“Manech aime Mathilde. Mathilde aime Manech.” Se tivéssemos de resumir este ‘Um Longo Domingo de noivado” em poucas palavras, poderíamos usar apenas estas duas frases. “MMM”. Um amor que resiste à guerra, à dor, à memória, e que se apoia em esperanças que parecem infundadas, mas que encontram fundamento, quanto mais não seja, no fundo do coração. De uma trágica história de guerra, este “longo domingo” transforma-se numa incessante busca por respostas, pela verdade, mesmo que esta venha a ser ainda mais dolorosa do que a ignorância.

Em 1917, cinco soldados são condenados por automutilação (como forma de regressarem mais cedo a casa) em conselho de guerra e levados para uma trincheira chamada Bingo Crepúsculo. É o que Mathilde descobre quando um dos oficiais a convoca para contar parte desta história, que envolve o seu noivo, Manech (também chamado Bleuet), dado como morto. Agora a guerra já terminou e Mathilde quer compreender melhor o que aconteceu ao amor da sua vida, ainda que muitos a tomem como louca por viver presa a uma esperança que pode muito bem ser falsa.

A dor de não ter a certeza de que ele está morto, ou se por outro lado terá sido feito prisioneiro pelos inimigos, se terá ficado louco, amnésico, muito ferido ou até encontrado a paz e a felicidade num local distante, numa nova vida. A incoerência das provas que vai recebendo, a falta de descodificação das cartas que muitos dos envolvidos em Bingo Crepúsculo (e conhecidos destes) que enviam, até as várias pistas que recebe dos detectives que contrata… tudo parece estar muito distante da realidade, até as peças começarem a encaixar aos poucos.

“E depois, Mathilde é optimista por natureza. Ela diz a si mesma que se o fio a não levar de novo ao seu amante, tanto pior, não será grave, poderá sempre enforcar-se com ele.”

Mathilde vive tão distante de casa como Manech, embora lá esteja fisicamente, com o mesmo coxeio de sempre, a mesma necessidade de caminhar acompanhada ou em cadeira de rosas. É o que a guerra faz às pessoas - tanto às que vão (e não voltam), como às que ficam (e esperam eternamente pelo regresso das outras): rouba-lhes toda e qualquer vontade de viver. A algumas, dá até a vontade de vingar, assassinar, morrer pela pessoa que amam e que a guerra lhes roubou. 

Mas não a Mathilde. Mathilde quer a todo o custo saber o que aconteceu, mesmo que todos lhe digam que Manech está morto, que o seu longo noivado foi trágico e que ela, que ficou, tem de seguir com a sua vida. É optimista por natureza, lá está, e recusa-se a crer em pistas tão falsas sobre a sua morte como aquelas que segue para acreditar na sua sobrevivência.

Japrisot é uma descoberta, muito graças à Cash Converters que permitiu esta aquisição por um valor muito baixo. Transforma a dor em esperança, dá ao leitor as bases para construir seu próprio entendimento das pistas que Mathilde vai recebendo, permite-nos acompanhar o seu estado emocional em todas as etapas. 

Conhecemo-la quando era jovem, a sua relação com Manech, os seus sonhos estranhos, a vida com os tios e a interacção com as outras mulheres que deixaram os seus homens na guerra. E ao longo desta viagem, também ela longa e trágica, como o noivado, é impossível não nos envolvermos também na evolução das suas emoções. Mistura uma busca quase policial com uma apaixonada tentativa de encontrar a paz, de uma forma ou de outra. E fá-lo com uma enorme sensibilidade.

Se o filme altera alguns pormenores essenciais do livro que lhe dão uma dimensão ainda mais poderosa e dramática, no entanto, não o torna menos credível, sincero ou tragicamente belo. E a esperança está lá, como em todas as páginas do livro, em cada lágrima de Mathilde, em cada rodar da sua cadeira de rodas, em cada carta que recebe, em cada memória que todos têm de Manech.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O Cometa na Terra dos Mumins - Tove Jansson


"O céu já não estava vermelho, mas outra vez de um bonito tom de azul, e o Sol matinal brilhava no seu lugar habitual, com ar de ter sido acabado de polir. O Mumintroll sentou-se e virou a cara para a luz, fechando os olhos e dando um profundo suspiro de felicidade."
‘O Cometa na Terra dos Mumins’

Descobrir a literatura infanto-juvenil com olhar de pessoa adulta é algo que deveríamos experimentar frequentemente, quanto mais não seja para, de vez em quando, voltarmos a encontrar aquele pequeno ser dentro de nós que sonha acordado e ainda acredita em magia. ‘O Cometa na Terra dos Mumins’ teve esse efeito em mim - de uma prenda de Natal adorável, transformou-se numa verdadeira viagem por histórias e emoções inesquecíveis.

Mumintroll e o seu amigo Sniff partem em busca de mais informações sobre um cometa que, segundo o seu pressentimento e o que lhes vão dizendo na terra onde vivem os Mumins, vai atingir o planeta muito em breve. Ao medo de desaparecer da face da Terra, junta-se a adrenalina de descobrir quando esse encontro vai acontecer e a vontade de regressar a casa para poderem enfrentar em família o que seja que aí vem. E, pelo caminho, surgem amizades (e amores) que vão durar uma vida.

Há uma doçura enorme na forma como Tove Jansson relata a aventura do Mumintroll e dos seus amigos, o seu romance com a Snorkina, a impetuosidade de Sniff, a seriedade de Snork, até a sisudez do Hemulo. Às palavras, acrescenta uma dimensão imagética que faz toda a diferença: as ilustrações simples, incolores e muitas vezes desenhadas em torno do texto são a forma da autora nos mostrar, com uma sensibilidade ainda maior, os sentimentos que transmite na escrita.

Não é uma aventura fácil: afinal de contas, eles acreditam que um cometa vai cair na Terra (à hora marcada, ou "possivelmente quatro segundos mais tarde”) e destruir o mundo tal como o conhecem. Mas não é a sua ingenuidade de crianças que sobressai na escrita de Jansson, é antes a coragem das suas personagens, a simplicidade das pequenas coisas e emoções; no fundo, a esperança que carregam.

- Oh, que linda! - exclamou a Snorkina. Depois voltou-se para o Mumintroll e disse envergonhada: - Isto é para ti, Mumintroll, por me teres salvado do arbusto venenoso. 

Ninguém sabe o efeito que a queda deste cometa na Terra terá, no entanto a esperança do Mumintrol recai no regresso a casa, na capacidade que as mães têm de saber sempre resolver as coisas, até no facto de o enfrentarem todos juntos: "Se conseguirmos chegar a casa da Mamã antes de o cometa cair, nada de mal nos poderá acontecer. Ela saberá o que fazer”. Só quando estamos na gruta, com eles, prestes a sentir o toque do cometa sobre a Terra, é que sentimos, com eles, o medo de perder tudo.

Do romance simples e bonito do Mumintroll e da Snorkina à complexidade desta corajosa viagem aventuresca vai o caminho que Tove Jansson nos ajuda a percorrer ao longo destas páginas, que quase ‘engolimos’ da avidez de as ler. Não deve haver muita literatura com famílias de trolls que seja tão doce, tão sincera e forte ao mesmo tempo. Mas que estes são fofinhos, lá isso são.

Por isso não é difícil entender que estas personagens com carácter e tenham dado origem ainda a outros livros (em Portugal, está ainda publicado ‘A Família dos Mumins’, também pela Relógio D’Água), séries de televisão e até um parque de diversões na Finlândia, terra natal da autora. Até porque, apesar de datar de 1946, este ‘O Cometa na Terra dos Mumins’ não podia ser mais actual no apelo à simplicidade das emoções.


        


Um preview do romance para quem tiver curiosidade AQUI :)

domingo, 3 de janeiro de 2016

As Aventuras de Pinóquio - Carlo Collodi

- Oh!, já estou cansado de ser boneco! - gritou Pinóquio, dando uma pancada no pescoço. - Já é tempo de me tornar um homem como todos os outros.
‘As Aventuras de Pinóquio’, Carlo Collodi

Se fosse preciso ter mais uma confirmação de que a Disney transforma em bonitos e inspiradores filmes as dramáticas histórias de grandes autores juvenis, estas aventuras do Pinóquio seriam mais do que uma prova disso mesmo. Não há grande humor nesta história, nem beleza. Há sim dor, tristeza, ingenuidade, quase um crime e castigo em si mesmos.

Pinóquio é um boneco de madeira que quer ser um rapaz a sério. Não gosta de ir à escola nem de trabalhar, antes prefere ficar sem fazer nada o dia todo e implorar que lhe dêem comida. Faz muitas asneiras, mas quer mostrar a todos que tem bom coração, apesar de ingénuo e fraco. Passa por muitas aventuras, faz amigos e inimigos e desilude muitas vezes aqueles que ama, quase sem saber bem porquê, tudo porque gostava de ser visto como um rapaz de pele e osso.

Não é fácil ter bom coração e sobreviver à falsidade do mundo. Desde o seu primeiro momento de “vida”, Pinóquio é abordado por todo o tipo de falsos amigos, ou amigos ignorantes quanto às aventuras em que se inserem, e levado a cometer erros atrás de erros - alguns por causa dos outros, outros apenas por si próprio. E, como todos sabemos, cada erro traz consigo consequências.

É assim que vai desiludindo a Menina dos Cabelos Azuis (a Fada Azul), o pai Gepetto, o Grilo Falante e todos aqueles com quem se cruza e que acreditam na sua coragem, na sua lealdade e na sua força de espirito - qualidades que parece apagar quando as más surgem à superfície. E, quando mente, o seu castigo é ser denunciado por um nariz que cresce.

Trata-se de um livro de 1883 que não podia ser mais actual na forma como capta na perfeição o espírito de criança de querer viver a vida ao máximo sem saber como o fazer; a sua vontade de conhecer o mundo, de se aventurar em todas as oportunidades que surgem. A ida de Pinóquio para o País dos Brinquedos, onde sem saberem as crianças se vão, aos poucos, transformando em burros, é uma metáfora dolorosa e bem construída da sua falta de instrução e bondade.

Collodi, com isto, não pretende dizer mal das crianças nem cortar pela raiz todos os seus sonhos, pelo contrário: penso que pretende apenas moderar as suas expectativas e fazê-las ver que o sonho, esse, pode estar nas pequenas coisas. E quando se quer muito uma coisa, quando se sonha com ela e se trabalha para que ela aconteça (porque as coisas não acontecem sozinhas!), elas realizam-se.

Um clássico que já foi adaptado pela Disney ao cinema há… 75 anos. E que continua a ter uma das mais bonitas músicas de sempre em filmes infantis da Disney :)

sábado, 2 de janeiro de 2016

2015: um ano em livros


2015 foi o ano em que voltei a encantar-me com Julian Barnes e George Orwell. O ano em que conheci a gente feliz com lágrimas de João de Melo, a profundidade de Gonçalo M. Tavares, a escrita conselheira de Mário de Carvalho, o amor transposto para o papel por Graham Greene, a veia dramática de Stefan Zweig e as novelas gráficas, em particular um Maus incapaz de não emocionar.

Foi também o ano em que me deixei apaixonar, como em criança, pela banda desenhada, descobrindo em Calvin e Hobbes uma infância que não está assim tão distante como parecia do coração. Roald Dahl e Tove Jansson completaram esta viagem às emoções mais sinceras da infância, deixando o bichinho de voltar às suas personagens inesquecíveis.

Um grande ano de excelentes leituras que terminou com mais de 25 livros lidos - o desafio inicial de um ano diferente de todos os outros, com uma vida muito mais preenchida (no bom sentido!) e que nunca esperei voltar a superar - e tanto, com 29 livros!

Para 2016, fica a promessa de tentar voltar a cumprir este objectivo: não para que a quantidade de livros seja cumprida de qualquer forma, mas sim com qualidade, dedicação aos livros e muito gosto ao lê-los :)

2015 em livros