domingo, 27 de dezembro de 2015

Arthur & George - Julian Barnes

If a man cannot tell what he wants to do, then he must find out what he ought to do. If desire has become complicated, then hold fast to duty.
‘Arthur & George’, Julian Barnes

‘Arthur & George’ é um dos melhores encontros da literatura - e da vida real! - que podiam ter ocorrido. É a verdadeira aventura detectivesca do autor de Sherlock Holmes, numa obra de Julian Barnes que nos dá a conhecer um pouco destas duas vidas, destes dois homens tão diferentes, mas que o acaso acabou por juntar.

Arthur é Arthur Conan Doyle, o médico e escritor que criou o detective britânico mais famoso de todos os tempos: Sherlock Holmes. Já George é George Edalji, solicitador, filho do pastor pársi de Great Wyrley, acusado injustamente de matar animais na sua terra. Conhecemos as suas histórias, os amores e desamores de Conan Doyle, a vida pacata e controlada de Edalji, até chegarmos ao seu ansiado encontro na última parte da obra.

Em Doyle observamos um homem sensato, criterioso, que se arrepende de ter dado origem a Holmes sem dele se conseguir despedir imediatamente. Com o adoecer de Touie, a sua esposa, é noutra mulher, Jean, que encontra a felicidade, mas exclusivamente platónica até poderem assumir a relação. A maior curiosidade é, no entanto, que um homem das ciências de vire para o espiritismo numa fase ainda não muito avançada da sua vida - o que considerava mesmo ser o futuro da ciência e das religiões.

Em Edalji, conhecemos um homem de 27 anos que não tem amigos, que ainda dorme no mesmo quarto que o pai (e de porta fechada à chave), sai de casa rigorosamente à mesma hora, todos os dias, para ir trabalhar, e que seria a última pessoa capaz de cometer os crimes de que é acusado, quando nem sequer os consegue entender bem. Mas é acusado, e culpabilizado - e cumpre a pena que lhe incumbem com a mesma assertividade com que trata as questões da lei.

Apesar de com as suas ficções necessárias, a história que Barnes nos relata aqui é verídica: as personagens existiram, o caso contra Edalji existiu, a intervenção de Conan Doyle é efectiva. Mas a forma como é contada é o que verdadeiramente ‘conta’. É impossível não nos deixarmos encantar pela sua escrita coesa e encantadora, mesmo quando envereda por outros temas que não a ficção sobre a memória e a percepção (como em ‘O Sentido do Fim’). Mesmo quando os dados não se podem propriamente modificar.

Com diálogos inesquecíveis e longas descrições que não poderiam ser menos longas, nem menos descritivas, Barnes conquista-nos com esta sua capacidade de envolver o leitor em narrativas construídas (ainda que nem sempre contadas nesta ordem) em princípios, meios e fins de grandes personagens (aqui, em duplicado!), com muita pesquisa e tacto.

E assim me vai conquistando a cada obra e a cada expressão inesquecível :) Tanto que recomendei e emprestei este ‘Arthur & George’ ao meu avô para que possa dele retirar tanto quanto eu consegui absorver desta história maravilhosa!

domingo, 20 de dezembro de 2015

Maus: A história de um sobrevivente - Art Spiegelman

Contar a história do pai, sobrevivente ao Holocausto, em banda desenhada, foi o que Art Spiegelman se desafiou a fazer para tentar compreender melhor o que os seus pais viveram. O resultado é uma novela gráfica impressionante, com um toque humorístico muito próprio e um sentimento generalizado de culpa, mágoa e uma vida que se perdeu nos campos de concentração.
 
'Maus' porque todos os judeus são desenhados como "ratos" nesta história - e é a história deles que Spiegelman quer contar e honrar. Os nazis são gatos, os polacos porcos e os americanos cães. Art "entrevista" o pai, Vladek, sobre a sua história antes da guerra, quando os judeus começaram a ser perseguidos, quando vai para Auschwitz e passa por outros campos de trabalho, até às próprias entrevistas que lhe faz no presente, já depois da morte da mãe.

Aos poucos, vamo-nos percebendo de que a personalidade de Vladek é uma construção histórica, mais do que um defeito de personalidade. Enquanto Art procura entendê-lo e às suas manias, vai conhecendo a origem da sua dor, os amigos desaparecidos, a separação de Anja, os trabalhos forçados, o medo da morte. Art é posterior a tudo isso, por isso sente uma culpa que não entende: por ser o filho que não precisou de sobreviver; por não ter vivido o mesmo que os pais.
 
E fá-lo de forma brilhante, em desenhos muito crus, separados por capítulos muito interessantes em si mesmos. Mostra o pai na actualidade, imagina-o na sua juventude, recria fotografias, interpreta as imagens que as palavras do pai lhe oferecem e transforma tudo isto na sua própria visão da história.
 
A forma quase Orwelliana como Spiegelman apresenta as personagens e a o ligeiro humor que consegue transmitir com a personalidade estranha do pai são como que a sua maneira de aligeirar a dor e a crueza de toda a história que conta. Não há propriamente cortes no relato, nem outras formas de o aligeirar. É o que aconteceu, ponto por ponto, na visão de Vladek - tudo o que viveu, aqui imortalizado pelo filho e para a história recordar.
 
'Maus' é um relato muito real e realista da vida durante a II Guerra Mundial, o que justifica inteiramente a sua vitória nos prémios Pulitzer. O que prova também que a banda desenhada, para além de poder assumir uma dimensão muito diferente dos desenhos e bonecos para crianças, pode também ser tomada como um meio expressivo, emocionante e directo de relato jornalístico.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Grandes Aventuras de um Pequeno Herói - Natália Correia

Estas reedições de obras proibidas durante o Estado Novo já me deram a conhecer histórias muito interessantes de reflexo das realidades sociais da época. O primeiro contacto com Natália Correia, com este 'Grandes Aventuras de um Pequeno Herói', foi mais uma delas!
 
É um jovem atento ao que acontece à sua volta, consciente do poder absoluto do Rei Tirano e da forma como este reprime todas as vontades do povo. Ao conversar com o Grande Castanheiro, o seu melhor amigo, apercebe-se de que pode ser o escolhido para derrubar o Rei e restituir ao povo uma vida digna. E assim, aliado às forças da Natureza, embarca numa aventura perigosa.
 
O pequeno herói de Natália Correia é mais do que um simples herói de romance infantil de estreia da autora: é uma voz contra a tirania, a favor do bem contra o mal, de elevação dos valore mais altos da moral, da igualdade e da naturalidade das coisas - de um mundo onde todas as opiniões são válidas, a democracia deve reinar e um rapaz com cabeça de homem e um coração ingénuo (mas realista) de criança consegue, através da sua doçura e coragem, trazer de novo a ordem e o bem ao seu país.
 
O optimismo e a harmonia alcançados neste pequeno, subtil, mas forte romance, contrastam largamente com o sentimento generalizado de opressão vividos na época. E apresentam-nos a visão da autora como esperançosa, livre e sincera - como a literatura menos neo-realista nos pretendia fazer sentir, alertando ao mesmo tempo para a realidade que se vivia.