domingo, 15 de novembro de 2015

Um Contrato com Deus - Will Eisner

"NÃO! Não me podes fazer isto! Temos um contrato!"
'Um Contrato com Deus', Will Eisner
 
Will Eisner deixa para trás qualquer semelhança da sua assinatura com o tipo de letra da Walt Disney ao colocar-nos face a histórias tão cruas, irónicas e bem construídas, nesta sua novela gráfica de quatro contos que me foi emprestada para ler.
 
São 4 histórias, todas muito diferentes mas com um elemento comum: a ideia de prédios habitacionais com senhorios, em particular o prédio do número 55 da Avenida Dropsie, no Bronx, nos anos 30. A primeira, que dá nome ao livro, relata o pacto feito entre um homem e Deus, que um deles acaba por quebrar. Na segunda. 'O Cantor de Rua' encontra a sua oportunidade de sair da pobreza numa qualquer rua da cidade. 'O Zelador' é o protagonista da terceira, só e tomado como estranho por todos. Por fim, 'Cookalein' é um local de férias idílico para todos (ou nem por isso) e palco da quarta história.
 
É entre desenhos simples, diálogos e descrições criteriosos que Eisner mergulha nas suas recordações de infância e partilha, sob a forma de banda desenhada, as suas memórias do prédio, das ruas, das personagens que conheceu, bem como a dor mais recente (e bem real) da perda da sua filha.
 
São realidades sociais muito fincadas que aqui são partilhadas - a busca de mulheres e homens ricos para casar, as cantorias na rua para ganhar algumas moedas para sustentar a família, o alcoolismo, a ambição e a ascensão social, a pobreza, a crença em Deus, até.

Se a primeira história é, sem dúvida, a mais poderosa, complexa e sincera, as restantes não ficam atrás na forma interessante e dura como mostram estas realidades e nos transportam para esta época que não conhecemos, mas que podia muito bem ser a nossa - com as mesmas personagens que encontramos na rua ou no nosso prédio.
 
Descobri que Will Eisner é considerado o pai das novelas gráficas e, embora não perceba (ainda) muito do assunto, fico feliz por ter descoberto esta sua colectânea tão crua e nostálgica, que deixa um gosto amargo na boca depois de a lermos de um fôlego.
 
A ironia que a caracteriza em cada história - uma ironia também ela muito amarga - é o que mais me fascina nas suas ilustrações e histórias inesquecíveis. E que me faz querer conhecer melhor este autor. 

Uma Biblioteca da Literatura Universal - Hermann Hesse

"A leitura sem amor, o saber sem reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados que se podem cometer contra o espírito."
'Uma Biblioteca da Literatura Universal', Hermann Hesse
 
Um livro sobre livros, é o que este 'Uma Biblioteca da Literatura Universal' é. Uma visão sobre a literatura, as grandes obras de todo o sempre, na voz de um grande autor e 'livrólico' que nos leva numa viagem por histórias, memórias e aquela sensação maravilhosa que os verdadeiros amantes de livros têm ao lê-los.
 
Não sendo num manual para a leitura ou para os leitores - algo que não seria, obviamente, possível -, o que Hermann Hesse faz neste pequeno livro é mostrar ao leitor um caminho: o de descobrir as obras que lhe são apelativas, que deseja ler; os autores com os quais se identifica e que o fazem crescer; a biblioteca que deve vir a construir (em sua casa, ou na sua memória).
 
Em simultâneo, partilha histórias de conferências que deu em locais onde não esperavam um escritor, mas antes um orador divertido; mostra os vários tipos de leitor que podem existir, alguns até bastante longínquos do ideal de leitor que podemos ter; e ainda teoriza sobre o papel dos livros nas nossas vidas com uma mestria de quem só podia ter vivido sempre rodeado por eles.
 
Trata-se de uma abordagem teórica, mas sentida, da literatura, de uma forma bastante simples e direta, e no entanto ligeiramente narrativa. Vale pelo conhecimento e pela sensibilidade de Hesse, que sem dúvida foi um grande escritor e pensador do século XX.
 
"Os livros apenas têm valor se conduzem na direcção da vida, se a sabem servir e ser-lhe úteis, e qualquer hora de leitura da qual não nasça para o leitor uma sensação de rejuvenescimento, um hálito de frescura nova, é uma hora desperdiçada."

O Diário do Meu Pai - Jiro Taniguchi

"Não somos nós que regressamos à nossa terra, é ela que um dia chega aos nossos corações."
'O Diário do Meu Pai', Jiro Taniguchi
 
 Não contem a ninguém, mas li-o de uma assentada numa loja, enquanto esperava pela chegada de um amigo. Comecei sem grandes esperanças de terminar, só para ler as primeiras páginas e ter uma ideia da história. Mas quando dei por mim já estava a meio, e depois no final... e deixei-me apaixonar de tal forma por esta novela gráfica que não consegui parar até chegar à última página e encontrar esta citação maravilhosa - e que resume muito bem o espírito deste 'O Diário do Meu Pai'.

Na história, Yoichi Yamashita é um designer que vive em Tóquio com a sua família e que, ao saber da morte do pai, regressa a Tottori, a sua terra Natal, depois de uma longa ausência, para assistir ao funeral. Entre conversas e homenagens, aos poucos, Yoichi vai evocando as suas próprias memórias de infância e conhecendo o pai que nunca conheceu através dos relatos de familiares e amigos. E vai-se apercebendo de que, na realidade, a sua visão da infância não correspondia propriamente à realidade.

Talvez por ser, apesar de imaginada, uma história inspirada na infância e nas vivências do autor Taniguchi, a história é partilhada com o leitor de forma muito sentida,  muito intensa, sem artificialismos - muito dura e cruamente. Com desenhos muito bonitos, um traço simples mas sincero e diálogos e descrições também eles muito simples - contando apenas o essencial -, Taniguchi consegue transportar-nos para a sua terra natal, para os vários tempos retratados e para esta sua emocionante "memória em tinta-da-china".

Num mundo em que nos parecemos identificar apenas com acontecimentos e coisas que são próximos de nós (geográfica ou culturalmente), este 'O Diário do Meu Pai' mostra que, embora o Japão seja longínquo e toda aquela cultura seja diferente do que conhecemos, os sentimentos são o que verdadeiramente conta nesta questão da identificação. Porque todos tivemos um pai, todos temos uma ideia dele, uma memória dele, uma visão do que ele foi/é, da sua vida de trabalho, da sua relação com a nossa mãe... e que este livro questiona até ao osso, porque nem sempre o que pensamos ter acontecido foi mesmo o que aconteceu.

E, nisto, o livro evoca de forma muito relevante um 'Sense of na Ending' de Julian Barnes - e questões muito interessantes sobre o tempo e a memória. Da história do abandono da mãe ao incêndio que lhes retirou tudo, à paixão de Yoichi pelo cão Chiro, ao novo casamento do pai... tudo isto com um sentido estético muito peculiar, com imagens verdadeiramente duras e sentidas.

Ao lê-la, é impossível não ficar fã de novelas gráficas bem construídas, com significado para o autor (e, consequentemente, para o leitor) e que transmitam verdades tão próximas de todos nós. Apetece repetir o serão e passar uma tarde de Domingo numa loja, tranquilamente, a absorver histórias bonitas e emocionantes como esta.

sábado, 14 de novembro de 2015

Coração Impaciente - Stefan Zweig

«Se pretendêssemos (sobre isto não tenho dúvidas) imaginar toda a desventura que nos cerca e cobre a terra, fugiria toda a possibilidade de sono e todo o riso nos expiraria na boca. Mas nunca a dor imaginária, fantasiada, nos incomoda e aniquila assim: só o que a alma vê e sente tem o poder de nos excitar e comover profundamente.»
'Coração Impaciente', Stefan Zweig

O meu primeiro contacto com Stefan Zweig foi este 'Coração Impaciente', uma verdadeira história de culpa e piedade - daí que o título em inglês, 'Beware of Pity', se adeque ainda melhor ao que o seu interior conta.

Hofmiller é um oficial de cavalaria austro-húngaro que, ao passar por uma pequena cidade da fronteira húngara, é convidado para uma festa em casa de um proprietário local. Fica desde logo fascinado com o castelo, o lorde Kekesfalva e a simpatia de todos, mas ao convidar a filha do anfitrião para dançar apercebe-se de que uma doença a deixou inválida. É este acontecimento que, aos poucos, vai gerar nela uma paixão intensa e nele uma piedade enorme, e destruir as suas vidas para sempre.
 
No decorrer da narrativa esquecemo-nos, praticamente, que este oficial narra a sua aventura trágica ao narrador inicial, pois o relato torna-se de tal forma sentido, pessoal e intenso, que é a sua história que nos faz passar cada página com um grande sentimento de dor, falta de esperança e vontade de saber o desfecho (ainda que trágico) da obra. Porque o sabemos trágico quase desde o início - desde o momento em que Hoffmiller afirma ser este encontro com Edith, a jovem paraplégica, frágil e temperamental.

«Compaixão... bonito! Mas há duas espécies de compaixão. Uma, feita de fraqueza, não passa de impaciência do coração, ansioso por se libertar, rapidamente, de um penoso enternecimento, em face da dor alheia. E existe a outra, a única que conta: a compaixão que não é sentimental mas activa, compaixão que sabe o que quer e está resolvida a suportar com paciência e a prestar ajuda até ao máximo do esforço, e ainda para além, muito para além, das possibilidades humanas. Somente quando temos coragem para ir até ao fim, até esvaziar o cálice da amargura, só quando possuímos uma grande paciência, só então podemos ajudar as outras criaturas. Só então, e à custa do próprio sacrifício.»

O seu caminho e o culminar da história são, por isso, inevitáveis, ainda que não saibamos logo a dimensão desta inevitabilidade. Navegamos pela sua simpatia e atenção por Edith, pelo seu apreço pelo pai Kekesfalva, pelas histórias do passado da família que o médico, Condor, lhe vai contando. E, por fim, pela sua compaixão (do tipo mais perigoso), pela sua culpa da esperança, pelas ilusões que sem intenção, mas inevitavelmente, viu criadas à sua volta.

Apesar da culpa e da compaixão contínua existe de certa forma, também, uma certa ingenuidade, infantilidade, até, na forma de lidar com toda esta situação e os sujeitos que a compõem. Hoffmiller age sempre de forma instintiva, ainda que pareça fazê-lo ponderando bem todas as opções e consequências. Foge às responsabilidades, volta para trás, sente culpa, teme as reacções dos colegas e da sociedade... e no final só lhe resta continuar a sentir essa culpa, de forma permanente, desde que a consciência e a memória continuem vivas para o relembrar do duro passado.
 
Depois de ler uma entrevista com Wes Anderson sobre o imaginário de Stefan Zweig e a forma permanente como a sua leitura gera dúvidas acerca da humanidade, sobre nós próprios, e incentiva a criatividade de uma maneira muito sentida... fiquei ainda mais fascinada por esta personalidade e não resisti a comprar uma edição antiga muito bonita com o 'Amok' e outras histórias do autor. Estou em pulgas para me deixar deliciar por ela!