sábado, 31 de outubro de 2015

Blackpot - Dennis McShade

"Quando olhou para o espelho, os olhos, do outro lado, disseram-lhe coisas estranhas. Por exemplo: pode-se vomitar tudo menos o medo e a solidão."
'Blackpot', Dennis McShade

Li-o de uma assentada, tal como foi escrito: aparentemente sem grande reflexão, de forma muito dialógica, rápida e cinematográfica. Li-o porque a curiosidade era muita: por conhecer este alter-ego de Dinis Machado, por perceber a cinematografia traduzida pela visualidade. E por perceber o fascínio dele por este livro, do tamanho da sua vontade de dele fazer um projecto noutra linguagem cultural.

 
'Blackpot' não tem propriamente um fio condutor, uma personagem principal, antes um conjunto de indivíduos, cada um com a sua história, mania, doença, ambição e função numa teia gigante de crime organizado. Quando começam a matar-se uns aos outros, a assumir a função e o cargo dos que matam, a morrer, também eles, às mãos de alguém que quer passar para o lado de cima e sair do lado de baixo, é uma vertigem de assassínios até descobrimos quem é o grande vencedor.
 
Qualquer descrição desta obra é uma simplificação do que ela contém, formalmente - um conjunto delicioso de diálogos, telefonemas, descrições breves mas muito visuais dos acontecimentos. Nada do que possamos dizer foge à superficialização desta história contada por palavras que não são as utilizadas por Dennis McShade.
 
Mas só o entendemos verdadeiramente depois de relermos passagens - o livro é muito pequeno, podemos quase relê-lo no mesmo momento -, de termos sobre ele, de reflectirmos sobre tudo o que contém. Porque apesar de resultar muito bem apenas pelo que nos oferece à superfície, parece haver tanto mais para descobrir nas suas profundezas: a simbologia dos nomes (um Gulliver, um Victor, por exemplo), as repetições narrativas, as referências filosóficas que o autor insere subtilmente no texto.
 
"Abriu o livro e leu pela milésima vez a frase que mais odiava: 'Quando todos formos culpados então será a democracia'. Atirou o livro para a lareira acesa e ficou s vê-lo arder durante cinco minutos."
 
Armador e Gulliver encontram-se para jogar xadrez por diversas vezes em casa do primeiro. Todos os que matam e depois morrem têm uma doença que os vai destruindo e matando por dentro - um vê mal, outro tem algo na perna, outro tem excesso de peso, etc. Todos estão a morrer (e sabem que vão morrer) e no entanto morrem sem estarem à espera que tal acontecesse da formas que acontece, às mãos de quem acontece. E neste jogo de xadrez que é a vida todos eles são apenas peões, às vezes transformando-se em bispos, torres ou cavalos, mas sempre prontos a ser destruídos uns pelos outros.
 
É interessante como, de forma muito rápida e direta, dialógica, Dennis McShade parece ter despejado no papel uma história que lhe andava a passar na cabeça há algum tempo. Todos estes meandros escondidos do livro não parecem ser acidentais, e são mesmo o que o torna tão interessante para o leitor. E fica a curiosidade por ler mais deste seu pseudónimo inglês!
 
P.S. - se tudo correr bem, adivinham-se projectos envolvendo este 'Blackpot'. E agora que o li não podia estar mais fascinada e desejando que tais projectos se realizem :)

domingo, 25 de outubro de 2015

Charlie e a Fábrica de Chocolate - Roald Dahl


"Não era fantástico se o Charlie abrisse uma tablete de chocolate e encontrasse lá dentro um Bilhete Dourado a brilhar?!"
Charlie e a Fábrica de Chocolate, Roald Dahl

Há poucos livros "para crianças" tão perfeitos como este 'Charlie e a Fábrica de Chocolate. Muita imaginação, uma aventura alucinante e um mundo totalmente mágico... e ao mesmo tempo uma crítica social tão voraz, uma história tão completa!

Charlie Pipa vive com a família numa pequena casa para ele e os pais, os avós paternos e os avós maternos. Todos vivem à custa de um trabalho incerto do pai Pipa e em condições de extrema pobreza. Ainda assim, no aniversário de Charlie, poupam para lhe oferecer uma tablete de chocolate da Fábrica de Willy Wonka, mesmo ao lado da casa deles, e que o menino adora. Quando Wonka distribui 5 bilhetes dourados pelas tabletes para possibilitar às crianças que as encontrarem uma visita ao maravilhoso mundo da fábrica, Charlie só quer ser um dos sortudos.

domingo, 18 de outubro de 2015

A Lagoa do Sherman: Caniches, a outra carne branca - Jim Toomey

Quando começamos a conhecer mais a fundo o mundo da banda desenhada, por um lado ficamos com expectativas mais elevadas no que lemos, por outro não acreditamos que ainda podemos ser (muito) surpreendidos com histórias e ilustrações inesquecíveis. Mas aí aparece 'A Lagoa do Sherman' e tira-nos o chão debaixo dos pés!

Nesta aventura, o tubarão Sherman vive com a esposa Megan e os seus amigos Filmore (a tartaruga), Ernest (o peixe), Pinças (o caranguejo) numa lagoa do Pacífico Sul. Entre as visitas a Veneza, a descoberta do Titanic e da cidade perdida de Atlântida e as invasões animalescas que sofrem na sua lagoa, assistimos à vida marítima a partir do seu interior e dos olhos dos seus habitantes.

E são aventuras maravilhosas. A forma quase existencialista como encaram as coisas, a inevitabilidade de pessoas e peixinhos adoráveis serem atacados para a sua alimentação, as partes mais humorísticas (de humor muito negro!) em que fazem planos maléficos para atrair as pessoas... tudo nos leva, de forma divertida, a conhecer os hábitos destes animais - que aos nossos olhos se comportam como pessoas, casam, vão de férias, fazem trabalhos para a escola e, claro, alimentam-se.

sábado, 17 de outubro de 2015

O Falecido Mattia Pascal - Luigi Pirandello


"Mas ela tinha um coração e não podia amar; aquela sombra tinha dinheiro e qualquer lho podia roubar; tinha uma cabeça, mas para pensar e compreender que era a cabeça de uma sombra, e não a sombra de uma cabeça. Absolutamente assim!"

'O Falecido Mattia Pascal', Luigi Pirandello

Foi daqueles livros totalmente desconhecidos que encontramos por acaso numa livraria, com um desconto apelativo, e não conseguimos resistir a comprar. Sabem? Apaixonei-me pela sinopse, pelo título interessante e a capa peculiar, e tive de o ler logo de seguida. 'O Falecido Mattia Pascal' talvez não me tenha apaixonado tanto como este momento inicial da nossa relação, mas não deixa de ser um excelente exemplar de literatura!

Mattia Pascal é arquivista, casa com Romilda e vive a desesperar com a sogra que lhe faz a vida negra. É claramente um homem a precisar de mudar de vida - e uma noite de sorte ao jogo em Monte Carlo dá-lhe exactamente essa possibilidade. No regresso para casa, rico, apercebe-se de que o dão como morto na sua terra, pelo que vagueia por outras paragens italianas até encontrar um novo lar numa pensão em Roma. No entanto, ao apaixonar-se e sentir algumas complicações na pele, nem tudo vai correr bem para o falecido Mattia Pascal.