domingo, 26 de abril de 2015

Ivan, o Tolo - Lev Tolstoi

"Mal pronunciara o nome de Deus, já o diabito se estava a afundar na terra, como se fosse uma pedra que tivesse caído na água, e naquele local ficou somente uma cova."
'Ivan, o Tolo', Lev Tolstoi

Quando ser-se tolo é ter-se um bom coração, é porque algo no mundo não está bem. Tostoi escreve, apercebendo-se disso, um pequeno conto (de fadas - e diabos!) sobre a ganância, a guerra e o materialismo, face a um homem que, por ser tolo e ingénuo, adopta valores mais nobres na sua vida.

Ivan tem dois irmãos que vão vivendo à sua custa, ao mesmo tempo que sustenta os pais e a irmã. Quando o diabo descobre que Ivan é o motivo pelo qual os três irmãos não lutam entre si, incumbe três diabitos de os atormentar e virar uns contra os outros. A bondade de Ivan impede que tal aconteça, mas conseguirá ele escapar ao Diabo, que depois tentará incutir nele a mesma ganância e maldade que o caracterizam.

Quem disser o contrário é porque tem razão - Mário de Carvalho

"O princípio é o da autenticidade. O que lhe for próprio. E o da liberdade também. Ad lib."
'Quem disser o contrário é porque tem razão', Mário de Carvalho

Há a escrita de ficção e a escrita sobre a escrita de ficção. Mário de Carvalho salta dos romances para a escrita dita 'criativa', como se estivesse em frente a uma máquina de escrever a escrever, em lugar de mais um romance, sobre como escreve estes romances, as suas personagens, as histórias mirabolantes, os truques que usa. Um guia bastante prático e totalmente despretensioso que nos prende de capítulo para capítulo.

Podia ser apenas um guia para consulta do "novel escritor", como o autor interpela constantemente o leitor. Mas, embora posa ser lido como tal, tem um fio condutor, como se de uma verdadeira história se contasse. E perdemo-nos (no bom sentido) de tal modo nas histórias, nas dicas, nos romances e contos que o autor nos vai contando e exemplificando, que o lemos de uma ponta a outra quase sem darmos por isso.

sábado, 18 de abril de 2015

O Fim da Aventura - Graham Greene

"- Sarah, pode ser amanhã. Tinha-me esquecido de uma coisa. No mesmo sitio, à mesma hora. - E ali sentado, com algo por que esperar, pensava de mim para mim: recordo. É a isto que a esperança sabe."
'O Fim da Aventura', Graham Greene

Há livros que se tornam especiais porque nos dizem muito, outros porque são prendas bonitas de pessoas que amamos, e este é um bocadinho a mistura dos dois - e por isso duplamente especial para mim. Uma aventura pelos caminhos do amor, da religião, do ódio, da esperança, da saudade, da dor e da inevitabilidade, se quisermos - que começa com o fim de uma aventura e que, ao longo da aventura que é a leitura, nos mostra, com uma grande sensibilidade, as peculiaridades da existência humana.

Sarah Miles termina subitamente e sem aviso a sua ligação amorosa ao romancista Bendrix, que conheceu durante o Blitz, em Londres. Dois anos depois, louco de ciúme, ele contrata um detective privado para a seguir, procurando descobrir se foi apenas um dos seus amantes e se Sarah estaria novamente a enganar o marido, Henry. Bendrix narra na primeira pessoa, num presente que conta um passado recente e outro mais antigo, o do seu romance com Sarah, sempre com o sentimento, a dor e a amargura que sente.

domingo, 5 de abril de 2015

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai - Gonçalo M. Tavares

"... no fundo por vezes estamos vivos apenas para isto - aceitar o que vai acontecendo, e avançar."
'Uma menina está perdida no seu século à procura do pai', Gonçalo M. Tavares

Da 'nova vaga' de escritores portugueses, faltava-me conhecer Gonçalo M. Tavares. Não que concorde com essa designação por terem estilos semelhantes, porque não têm, apenas têm em comum os mundos negros (internos e externos) que procuram retratar. E talvez esta nem seja a melhor obra para poder dizer seja o que for sobre o autor - mas foi suficiente para me deixar levar pela escrita subtil e a história cinzenta.

Marius conhece Hanna por acaso, quando procura fugir de alguma coisa. Ela é uma menina com trissomia 21 que está sozinha, com um 'manual de instruções' que deve seguir e apreender, e que anda à procura do seu pai. Com Marius, vive uma aventura em que se perdem na busca pelo pai, descobrindo antes histórias, personagens e uma ligação muito forte e inesperada. Mais que isso, até: descobrem até onde podem ir as suas verdadeiras capacidades.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A Quinta dos Animais - George Orwell

"Todos os animais são iguais. Mas alguns são mais iguais que outros."
'A Quinta dos Animais', George Orwell

Orwell merece sempre as palavras que ninguém consegue expressar sobre as suas obras. São tão abrangentes, intemporais, universais, que podemos lê-las em qualquer época e terão sempre a mesma lição, ainda que possamos senti-las de forma diferente a cada leitura. Este 'A Quinta dos Animais' foi maus uma prova desta universalidade, que faz com que qualquer pequeno texto de Orwell nos pareça uma obra prima e dê vontade de regressar - e ler uma e outra vez.

A rebelião dos animais da quinta é a história desta obra, quando estes se apercebem de que os homens estão a aproveitar-se do seu trabalho sem lhes dar nada em troca. Os porcos lideram a revolta, enquanto os outros animais vão seguindo as ordens e os mandamentos ditados pelos outros. Embora inicialmente todos sejam tomados como iguais, depressa a esperteza destes animais supera a incapacidade dos restantes de compreender as suas palavras e os seus actos, e os primeiros aproveitam-se disso para criar o seu próprio regime ditatorial dentro da quinta.