sexta-feira, 3 de abril de 2015

A Quinta dos Animais - George Orwell

"Todos os animais são iguais. Mas alguns são mais iguais que outros."
'A Quinta dos Animais', George Orwell

Orwell merece sempre as palavras que ninguém consegue expressar sobre as suas obras. São tão abrangentes, intemporais, universais, que podemos lê-las em qualquer época e terão sempre a mesma lição, ainda que possamos senti-las de forma diferente a cada leitura. Este 'A Quinta dos Animais' foi maus uma prova desta universalidade, que faz com que qualquer pequeno texto de Orwell nos pareça uma obra prima e dê vontade de regressar - e ler uma e outra vez.

A rebelião dos animais da quinta é a história desta obra, quando estes se apercebem de que os homens estão a aproveitar-se do seu trabalho sem lhes dar nada em troca. Os porcos lideram a revolta, enquanto os outros animais vão seguindo as ordens e os mandamentos ditados pelos outros. Embora inicialmente todos sejam tomados como iguais, depressa a esperteza destes animais supera a incapacidade dos restantes de compreender as suas palavras e os seus actos, e os primeiros aproveitam-se disso para criar o seu próprio regime ditatorial dentro da quinta.

Orwell teoriza implicitamente, descreve, conta uma história aparentemente simples e banal, que aos poucos vai provando ser um crescendo de terror, a criação de um regime despótico por parte dos porcos - que culmina num final expectável, o da comparação esperada com o início do livro. Como se o governo, a liderança, o poder, fossem um ciclo e um sistema ao qual não se pode escapar - quem não está lá, quer ter o poder de tornar os que estão na sua situação todos iguais; mas mal chega ao poder, assume a posição superior e segue os seus interesses particulares.

"Então porque é que continuamos nesta situação aviltante? Porque quase tudo o que produzimos com o nosso trabalho nos é roubado pelos seres humanos. Aí reside, camaradas, a resposta a todos os nossos problemas. Tudo se resume a uma só palavra - o Homem. O Homem é o nosso único inimigo genuíno."

A forma como o faz é, no entanto, bastante complexa: não se conta uma história apenas com palavras, mas com as personagens que facilmente identificamos, como Napoleão, Tagarela ou mesmo Trovão. Os que têm o poder, os que convencem os outros de que quem tem o poder é que tem a sabedoria, os que são submissos porque não sabem nem podem fazer nada para escapar a essa condição.

É uma alegoria da sociedade em que viveu, das sociedades modernas no geral, embora já não tão (e tantas) despóticas como no século XX. Orwell sempre procurou apelar a estas questões de poder, da liberdade e, no fundo, da condição humana. Continuo a preferir a emotividade que '1984' consegue transmitir, face à crueldade deste 'A Quinta dos Animais'. Mas não deixa de ser, sim, uma obra prima que merece estar em qualquer plano nacional de leitura, para que todos cresçamos (minimamente) conscientes do que o Homem pode ser e tornar-se.


"- Ah, isso é diferente! - disse Trovão. - Se o Camarada Napoleão o afirma, então é porque é verdade, de certeza."

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