domingo, 26 de abril de 2015

Quem disser o contrário é porque tem razão - Mário de Carvalho

"O princípio é o da autenticidade. O que lhe for próprio. E o da liberdade também. Ad lib."
'Quem disser o contrário é porque tem razão', Mário de Carvalho

Há a escrita de ficção e a escrita sobre a escrita de ficção. Mário de Carvalho salta dos romances para a escrita dita 'criativa', como se estivesse em frente a uma máquina de escrever a escrever, em lugar de mais um romance, sobre como escreve estes romances, as suas personagens, as histórias mirabolantes, os truques que usa. Um guia bastante prático e totalmente despretensioso que nos prende de capítulo para capítulo.

Podia ser apenas um guia para consulta do "novel escritor", como o autor interpela constantemente o leitor. Mas, embora posa ser lido como tal, tem um fio condutor, como se de uma verdadeira história se contasse. E perdemo-nos (no bom sentido) de tal modo nas histórias, nas dicas, nos romances e contos que o autor nos vai contando e exemplificando, que o lemos de uma ponta a outra quase sem darmos por isso.


O próprio Mário de Carvalho adverte, de início, primeiro, que este guia não é para seguir à risca - e que muitas das regras existentes para a escrita de ficção são isso mesmo, apenas regras que podem ser quebradas -, e segundo que não é um guia como este (nem nada que possa existir no mundo) que vai ensinar alguém a escrever. Não se ensina a ser escritor - tem de se nascer com o dito 'dom', com a vontade e o talento de contar histórias.

"Se a história dos homens é curta, a história da escrita literária é mais curta ainda. Os homens de todos os tempos não são muito diferentes uns dos outros, entendem-se naquilo que é essencial e mais arreigado, por sobre as convulsões da transitoriedade histórica ou convencional."

O que o autor nos oferece é uma perspectiva interessante sobre a inspiração e a aprendizagem da escrita: ensina o futuro escritor a olhar à sua volta, a observar o que o rodeia, a questionar, a procurar criar personagens inéditas e simultaneamente universais e identificáveis - a pensar sobre as coisas e tentar encontrar o seu lugar, o seu caminho, a sua própria liberdade, na escrita.

Mais do que lições de escrita, são como lições de vida que partilha connosco, que foi aprendendo na sua escrita e que podem ajudar a evitar erros e caminhos errados por parte do novel escritor. A cada página, ajuda-nos também a ganhar o 'bichinho' da escrita, que temos algures perdido dentro de nós (eu tenho, pelo menos!). E dá vontade de ler todos os romances que enuncia, sublinhar as suas palavras e escrever, sobretudo escrever - muito, tudo o que nos vem à cabeça, todas as ideias e pensamentos que podem originar boas histórias. Quem sabe se uma delas não será mesmo A história.

Não há respostas neste guia - daí que o título seja exactamente 'Quem disser o contrário é porque tem razão -, apenas nos dá caminhos possíveis. Com uma escrita simples, livre de artifícios, Mário de Carvalho é, ao mesmo tempo, o nosso mentor e um amigo com quem parecemos ter tido, no final, uma longa conversa de café. Conversa essa que, felizmente, está disponível para ler e reler sempre que necessário e sempre que nos apetecer!

"Mas se, caro leitor, a sua imaginação o levar para os falanstérios do brumoso país das nuvens, não hesite: vá a galope na sua fantasia e, como o poeta, plante uma tenda em cada estrela. Ou deixe-se espairecer à sombra duma faia, que também tem boas tradições."

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