domingo, 27 de dezembro de 2015

Arthur & George - Julian Barnes

If a man cannot tell what he wants to do, then he must find out what he ought to do. If desire has become complicated, then hold fast to duty.
‘Arthur & George’, Julian Barnes

‘Arthur & George’ é um dos melhores encontros da literatura - e da vida real! - que podiam ter ocorrido. É a verdadeira aventura detectivesca do autor de Sherlock Holmes, numa obra de Julian Barnes que nos dá a conhecer um pouco destas duas vidas, destes dois homens tão diferentes, mas que o acaso acabou por juntar.

Arthur é Arthur Conan Doyle, o médico e escritor que criou o detective britânico mais famoso de todos os tempos: Sherlock Holmes. Já George é George Edalji, solicitador, filho do pastor pársi de Great Wyrley, acusado injustamente de matar animais na sua terra. Conhecemos as suas histórias, os amores e desamores de Conan Doyle, a vida pacata e controlada de Edalji, até chegarmos ao seu ansiado encontro na última parte da obra.

Em Doyle observamos um homem sensato, criterioso, que se arrepende de ter dado origem a Holmes sem dele se conseguir despedir imediatamente. Com o adoecer de Touie, a sua esposa, é noutra mulher, Jean, que encontra a felicidade, mas exclusivamente platónica até poderem assumir a relação. A maior curiosidade é, no entanto, que um homem das ciências de vire para o espiritismo numa fase ainda não muito avançada da sua vida - o que considerava mesmo ser o futuro da ciência e das religiões.

Em Edalji, conhecemos um homem de 27 anos que não tem amigos, que ainda dorme no mesmo quarto que o pai (e de porta fechada à chave), sai de casa rigorosamente à mesma hora, todos os dias, para ir trabalhar, e que seria a última pessoa capaz de cometer os crimes de que é acusado, quando nem sequer os consegue entender bem. Mas é acusado, e culpabilizado - e cumpre a pena que lhe incumbem com a mesma assertividade com que trata as questões da lei.

Apesar de com as suas ficções necessárias, a história que Barnes nos relata aqui é verídica: as personagens existiram, o caso contra Edalji existiu, a intervenção de Conan Doyle é efectiva. Mas a forma como é contada é o que verdadeiramente ‘conta’. É impossível não nos deixarmos encantar pela sua escrita coesa e encantadora, mesmo quando envereda por outros temas que não a ficção sobre a memória e a percepção (como em ‘O Sentido do Fim’). Mesmo quando os dados não se podem propriamente modificar.

Com diálogos inesquecíveis e longas descrições que não poderiam ser menos longas, nem menos descritivas, Barnes conquista-nos com esta sua capacidade de envolver o leitor em narrativas construídas (ainda que nem sempre contadas nesta ordem) em princípios, meios e fins de grandes personagens (aqui, em duplicado!), com muita pesquisa e tacto.

E assim me vai conquistando a cada obra e a cada expressão inesquecível :) Tanto que recomendei e emprestei este ‘Arthur & George’ ao meu avô para que possa dele retirar tanto quanto eu consegui absorver desta história maravilhosa!

domingo, 20 de dezembro de 2015

Maus: A história de um sobrevivente - Art Spiegelman

Contar a história do pai, sobrevivente ao Holocausto, em banda desenhada, foi o que Art Spiegelman se desafiou a fazer para tentar compreender melhor o que os seus pais viveram. O resultado é uma novela gráfica impressionante, com um toque humorístico muito próprio e um sentimento generalizado de culpa, mágoa e uma vida que se perdeu nos campos de concentração.
 
'Maus' porque todos os judeus são desenhados como "ratos" nesta história - e é a história deles que Spiegelman quer contar e honrar. Os nazis são gatos, os polacos porcos e os americanos cães. Art "entrevista" o pai, Vladek, sobre a sua história antes da guerra, quando os judeus começaram a ser perseguidos, quando vai para Auschwitz e passa por outros campos de trabalho, até às próprias entrevistas que lhe faz no presente, já depois da morte da mãe.

Aos poucos, vamo-nos percebendo de que a personalidade de Vladek é uma construção histórica, mais do que um defeito de personalidade. Enquanto Art procura entendê-lo e às suas manias, vai conhecendo a origem da sua dor, os amigos desaparecidos, a separação de Anja, os trabalhos forçados, o medo da morte. Art é posterior a tudo isso, por isso sente uma culpa que não entende: por ser o filho que não precisou de sobreviver; por não ter vivido o mesmo que os pais.
 
E fá-lo de forma brilhante, em desenhos muito crus, separados por capítulos muito interessantes em si mesmos. Mostra o pai na actualidade, imagina-o na sua juventude, recria fotografias, interpreta as imagens que as palavras do pai lhe oferecem e transforma tudo isto na sua própria visão da história.
 
A forma quase Orwelliana como Spiegelman apresenta as personagens e a o ligeiro humor que consegue transmitir com a personalidade estranha do pai são como que a sua maneira de aligeirar a dor e a crueza de toda a história que conta. Não há propriamente cortes no relato, nem outras formas de o aligeirar. É o que aconteceu, ponto por ponto, na visão de Vladek - tudo o que viveu, aqui imortalizado pelo filho e para a história recordar.
 
'Maus' é um relato muito real e realista da vida durante a II Guerra Mundial, o que justifica inteiramente a sua vitória nos prémios Pulitzer. O que prova também que a banda desenhada, para além de poder assumir uma dimensão muito diferente dos desenhos e bonecos para crianças, pode também ser tomada como um meio expressivo, emocionante e directo de relato jornalístico.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Grandes Aventuras de um Pequeno Herói - Natália Correia

Estas reedições de obras proibidas durante o Estado Novo já me deram a conhecer histórias muito interessantes de reflexo das realidades sociais da época. O primeiro contacto com Natália Correia, com este 'Grandes Aventuras de um Pequeno Herói', foi mais uma delas!
 
É um jovem atento ao que acontece à sua volta, consciente do poder absoluto do Rei Tirano e da forma como este reprime todas as vontades do povo. Ao conversar com o Grande Castanheiro, o seu melhor amigo, apercebe-se de que pode ser o escolhido para derrubar o Rei e restituir ao povo uma vida digna. E assim, aliado às forças da Natureza, embarca numa aventura perigosa.
 
O pequeno herói de Natália Correia é mais do que um simples herói de romance infantil de estreia da autora: é uma voz contra a tirania, a favor do bem contra o mal, de elevação dos valore mais altos da moral, da igualdade e da naturalidade das coisas - de um mundo onde todas as opiniões são válidas, a democracia deve reinar e um rapaz com cabeça de homem e um coração ingénuo (mas realista) de criança consegue, através da sua doçura e coragem, trazer de novo a ordem e o bem ao seu país.
 
O optimismo e a harmonia alcançados neste pequeno, subtil, mas forte romance, contrastam largamente com o sentimento generalizado de opressão vividos na época. E apresentam-nos a visão da autora como esperançosa, livre e sincera - como a literatura menos neo-realista nos pretendia fazer sentir, alertando ao mesmo tempo para a realidade que se vivia.

domingo, 15 de novembro de 2015

Um Contrato com Deus - Will Eisner

"NÃO! Não me podes fazer isto! Temos um contrato!"
'Um Contrato com Deus', Will Eisner
 
Will Eisner deixa para trás qualquer semelhança da sua assinatura com o tipo de letra da Walt Disney ao colocar-nos face a histórias tão cruas, irónicas e bem construídas, nesta sua novela gráfica de quatro contos que me foi emprestada para ler.
 
São 4 histórias, todas muito diferentes mas com um elemento comum: a ideia de prédios habitacionais com senhorios, em particular o prédio do número 55 da Avenida Dropsie, no Bronx, nos anos 30. A primeira, que dá nome ao livro, relata o pacto feito entre um homem e Deus, que um deles acaba por quebrar. Na segunda. 'O Cantor de Rua' encontra a sua oportunidade de sair da pobreza numa qualquer rua da cidade. 'O Zelador' é o protagonista da terceira, só e tomado como estranho por todos. Por fim, 'Cookalein' é um local de férias idílico para todos (ou nem por isso) e palco da quarta história.
 
É entre desenhos simples, diálogos e descrições criteriosos que Eisner mergulha nas suas recordações de infância e partilha, sob a forma de banda desenhada, as suas memórias do prédio, das ruas, das personagens que conheceu, bem como a dor mais recente (e bem real) da perda da sua filha.
 
São realidades sociais muito fincadas que aqui são partilhadas - a busca de mulheres e homens ricos para casar, as cantorias na rua para ganhar algumas moedas para sustentar a família, o alcoolismo, a ambição e a ascensão social, a pobreza, a crença em Deus, até.

Se a primeira história é, sem dúvida, a mais poderosa, complexa e sincera, as restantes não ficam atrás na forma interessante e dura como mostram estas realidades e nos transportam para esta época que não conhecemos, mas que podia muito bem ser a nossa - com as mesmas personagens que encontramos na rua ou no nosso prédio.
 
Descobri que Will Eisner é considerado o pai das novelas gráficas e, embora não perceba (ainda) muito do assunto, fico feliz por ter descoberto esta sua colectânea tão crua e nostálgica, que deixa um gosto amargo na boca depois de a lermos de um fôlego.
 
A ironia que a caracteriza em cada história - uma ironia também ela muito amarga - é o que mais me fascina nas suas ilustrações e histórias inesquecíveis. E que me faz querer conhecer melhor este autor. 

Uma Biblioteca da Literatura Universal - Hermann Hesse

"A leitura sem amor, o saber sem reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados que se podem cometer contra o espírito."
'Uma Biblioteca da Literatura Universal', Hermann Hesse
 
Um livro sobre livros, é o que este 'Uma Biblioteca da Literatura Universal' é. Uma visão sobre a literatura, as grandes obras de todo o sempre, na voz de um grande autor e 'livrólico' que nos leva numa viagem por histórias, memórias e aquela sensação maravilhosa que os verdadeiros amantes de livros têm ao lê-los.
 
Não sendo num manual para a leitura ou para os leitores - algo que não seria, obviamente, possível -, o que Hermann Hesse faz neste pequeno livro é mostrar ao leitor um caminho: o de descobrir as obras que lhe são apelativas, que deseja ler; os autores com os quais se identifica e que o fazem crescer; a biblioteca que deve vir a construir (em sua casa, ou na sua memória).
 
Em simultâneo, partilha histórias de conferências que deu em locais onde não esperavam um escritor, mas antes um orador divertido; mostra os vários tipos de leitor que podem existir, alguns até bastante longínquos do ideal de leitor que podemos ter; e ainda teoriza sobre o papel dos livros nas nossas vidas com uma mestria de quem só podia ter vivido sempre rodeado por eles.
 
Trata-se de uma abordagem teórica, mas sentida, da literatura, de uma forma bastante simples e direta, e no entanto ligeiramente narrativa. Vale pelo conhecimento e pela sensibilidade de Hesse, que sem dúvida foi um grande escritor e pensador do século XX.
 
"Os livros apenas têm valor se conduzem na direcção da vida, se a sabem servir e ser-lhe úteis, e qualquer hora de leitura da qual não nasça para o leitor uma sensação de rejuvenescimento, um hálito de frescura nova, é uma hora desperdiçada."

O Diário do Meu Pai - Jiro Taniguchi

"Não somos nós que regressamos à nossa terra, é ela que um dia chega aos nossos corações."
'O Diário do Meu Pai', Jiro Taniguchi
 
 Não contem a ninguém, mas li-o de uma assentada numa loja, enquanto esperava pela chegada de um amigo. Comecei sem grandes esperanças de terminar, só para ler as primeiras páginas e ter uma ideia da história. Mas quando dei por mim já estava a meio, e depois no final... e deixei-me apaixonar de tal forma por esta novela gráfica que não consegui parar até chegar à última página e encontrar esta citação maravilhosa - e que resume muito bem o espírito deste 'O Diário do Meu Pai'.

Na história, Yoichi Yamashita é um designer que vive em Tóquio com a sua família e que, ao saber da morte do pai, regressa a Tottori, a sua terra Natal, depois de uma longa ausência, para assistir ao funeral. Entre conversas e homenagens, aos poucos, Yoichi vai evocando as suas próprias memórias de infância e conhecendo o pai que nunca conheceu através dos relatos de familiares e amigos. E vai-se apercebendo de que, na realidade, a sua visão da infância não correspondia propriamente à realidade.

Talvez por ser, apesar de imaginada, uma história inspirada na infância e nas vivências do autor Taniguchi, a história é partilhada com o leitor de forma muito sentida,  muito intensa, sem artificialismos - muito dura e cruamente. Com desenhos muito bonitos, um traço simples mas sincero e diálogos e descrições também eles muito simples - contando apenas o essencial -, Taniguchi consegue transportar-nos para a sua terra natal, para os vários tempos retratados e para esta sua emocionante "memória em tinta-da-china".

Num mundo em que nos parecemos identificar apenas com acontecimentos e coisas que são próximos de nós (geográfica ou culturalmente), este 'O Diário do Meu Pai' mostra que, embora o Japão seja longínquo e toda aquela cultura seja diferente do que conhecemos, os sentimentos são o que verdadeiramente conta nesta questão da identificação. Porque todos tivemos um pai, todos temos uma ideia dele, uma memória dele, uma visão do que ele foi/é, da sua vida de trabalho, da sua relação com a nossa mãe... e que este livro questiona até ao osso, porque nem sempre o que pensamos ter acontecido foi mesmo o que aconteceu.

E, nisto, o livro evoca de forma muito relevante um 'Sense of na Ending' de Julian Barnes - e questões muito interessantes sobre o tempo e a memória. Da história do abandono da mãe ao incêndio que lhes retirou tudo, à paixão de Yoichi pelo cão Chiro, ao novo casamento do pai... tudo isto com um sentido estético muito peculiar, com imagens verdadeiramente duras e sentidas.

Ao lê-la, é impossível não ficar fã de novelas gráficas bem construídas, com significado para o autor (e, consequentemente, para o leitor) e que transmitam verdades tão próximas de todos nós. Apetece repetir o serão e passar uma tarde de Domingo numa loja, tranquilamente, a absorver histórias bonitas e emocionantes como esta.

sábado, 14 de novembro de 2015

Coração Impaciente - Stefan Zweig

«Se pretendêssemos (sobre isto não tenho dúvidas) imaginar toda a desventura que nos cerca e cobre a terra, fugiria toda a possibilidade de sono e todo o riso nos expiraria na boca. Mas nunca a dor imaginária, fantasiada, nos incomoda e aniquila assim: só o que a alma vê e sente tem o poder de nos excitar e comover profundamente.»
'Coração Impaciente', Stefan Zweig

O meu primeiro contacto com Stefan Zweig foi este 'Coração Impaciente', uma verdadeira história de culpa e piedade - daí que o título em inglês, 'Beware of Pity', se adeque ainda melhor ao que o seu interior conta.

Hofmiller é um oficial de cavalaria austro-húngaro que, ao passar por uma pequena cidade da fronteira húngara, é convidado para uma festa em casa de um proprietário local. Fica desde logo fascinado com o castelo, o lorde Kekesfalva e a simpatia de todos, mas ao convidar a filha do anfitrião para dançar apercebe-se de que uma doença a deixou inválida. É este acontecimento que, aos poucos, vai gerar nela uma paixão intensa e nele uma piedade enorme, e destruir as suas vidas para sempre.
 
No decorrer da narrativa esquecemo-nos, praticamente, que este oficial narra a sua aventura trágica ao narrador inicial, pois o relato torna-se de tal forma sentido, pessoal e intenso, que é a sua história que nos faz passar cada página com um grande sentimento de dor, falta de esperança e vontade de saber o desfecho (ainda que trágico) da obra. Porque o sabemos trágico quase desde o início - desde o momento em que Hoffmiller afirma ser este encontro com Edith, a jovem paraplégica, frágil e temperamental.

«Compaixão... bonito! Mas há duas espécies de compaixão. Uma, feita de fraqueza, não passa de impaciência do coração, ansioso por se libertar, rapidamente, de um penoso enternecimento, em face da dor alheia. E existe a outra, a única que conta: a compaixão que não é sentimental mas activa, compaixão que sabe o que quer e está resolvida a suportar com paciência e a prestar ajuda até ao máximo do esforço, e ainda para além, muito para além, das possibilidades humanas. Somente quando temos coragem para ir até ao fim, até esvaziar o cálice da amargura, só quando possuímos uma grande paciência, só então podemos ajudar as outras criaturas. Só então, e à custa do próprio sacrifício.»

O seu caminho e o culminar da história são, por isso, inevitáveis, ainda que não saibamos logo a dimensão desta inevitabilidade. Navegamos pela sua simpatia e atenção por Edith, pelo seu apreço pelo pai Kekesfalva, pelas histórias do passado da família que o médico, Condor, lhe vai contando. E, por fim, pela sua compaixão (do tipo mais perigoso), pela sua culpa da esperança, pelas ilusões que sem intenção, mas inevitavelmente, viu criadas à sua volta.

Apesar da culpa e da compaixão contínua existe de certa forma, também, uma certa ingenuidade, infantilidade, até, na forma de lidar com toda esta situação e os sujeitos que a compõem. Hoffmiller age sempre de forma instintiva, ainda que pareça fazê-lo ponderando bem todas as opções e consequências. Foge às responsabilidades, volta para trás, sente culpa, teme as reacções dos colegas e da sociedade... e no final só lhe resta continuar a sentir essa culpa, de forma permanente, desde que a consciência e a memória continuem vivas para o relembrar do duro passado.
 
Depois de ler uma entrevista com Wes Anderson sobre o imaginário de Stefan Zweig e a forma permanente como a sua leitura gera dúvidas acerca da humanidade, sobre nós próprios, e incentiva a criatividade de uma maneira muito sentida... fiquei ainda mais fascinada por esta personalidade e não resisti a comprar uma edição antiga muito bonita com o 'Amok' e outras histórias do autor. Estou em pulgas para me deixar deliciar por ela!

sábado, 31 de outubro de 2015

Blackpot - Dennis McShade

"Quando olhou para o espelho, os olhos, do outro lado, disseram-lhe coisas estranhas. Por exemplo: pode-se vomitar tudo menos o medo e a solidão."
'Blackpot', Dennis McShade

Li-o de uma assentada, tal como foi escrito: aparentemente sem grande reflexão, de forma muito dialógica, rápida e cinematográfica. Li-o porque a curiosidade era muita: por conhecer este alter-ego de Dinis Machado, por perceber a cinematografia traduzida pela visualidade. E por perceber o fascínio dele por este livro, do tamanho da sua vontade de dele fazer um projecto noutra linguagem cultural.

 
'Blackpot' não tem propriamente um fio condutor, uma personagem principal, antes um conjunto de indivíduos, cada um com a sua história, mania, doença, ambição e função numa teia gigante de crime organizado. Quando começam a matar-se uns aos outros, a assumir a função e o cargo dos que matam, a morrer, também eles, às mãos de alguém que quer passar para o lado de cima e sair do lado de baixo, é uma vertigem de assassínios até descobrimos quem é o grande vencedor.
 
Qualquer descrição desta obra é uma simplificação do que ela contém, formalmente - um conjunto delicioso de diálogos, telefonemas, descrições breves mas muito visuais dos acontecimentos. Nada do que possamos dizer foge à superficialização desta história contada por palavras que não são as utilizadas por Dennis McShade.
 
Mas só o entendemos verdadeiramente depois de relermos passagens - o livro é muito pequeno, podemos quase relê-lo no mesmo momento -, de termos sobre ele, de reflectirmos sobre tudo o que contém. Porque apesar de resultar muito bem apenas pelo que nos oferece à superfície, parece haver tanto mais para descobrir nas suas profundezas: a simbologia dos nomes (um Gulliver, um Victor, por exemplo), as repetições narrativas, as referências filosóficas que o autor insere subtilmente no texto.
 
"Abriu o livro e leu pela milésima vez a frase que mais odiava: 'Quando todos formos culpados então será a democracia'. Atirou o livro para a lareira acesa e ficou s vê-lo arder durante cinco minutos."
 
Armador e Gulliver encontram-se para jogar xadrez por diversas vezes em casa do primeiro. Todos os que matam e depois morrem têm uma doença que os vai destruindo e matando por dentro - um vê mal, outro tem algo na perna, outro tem excesso de peso, etc. Todos estão a morrer (e sabem que vão morrer) e no entanto morrem sem estarem à espera que tal acontecesse da formas que acontece, às mãos de quem acontece. E neste jogo de xadrez que é a vida todos eles são apenas peões, às vezes transformando-se em bispos, torres ou cavalos, mas sempre prontos a ser destruídos uns pelos outros.
 
É interessante como, de forma muito rápida e direta, dialógica, Dennis McShade parece ter despejado no papel uma história que lhe andava a passar na cabeça há algum tempo. Todos estes meandros escondidos do livro não parecem ser acidentais, e são mesmo o que o torna tão interessante para o leitor. E fica a curiosidade por ler mais deste seu pseudónimo inglês!
 
P.S. - se tudo correr bem, adivinham-se projectos envolvendo este 'Blackpot'. E agora que o li não podia estar mais fascinada e desejando que tais projectos se realizem :)

domingo, 25 de outubro de 2015

Charlie e a Fábrica de Chocolate - Roald Dahl


"Não era fantástico se o Charlie abrisse uma tablete de chocolate e encontrasse lá dentro um Bilhete Dourado a brilhar?!"
Charlie e a Fábrica de Chocolate, Roald Dahl

Há poucos livros "para crianças" tão perfeitos como este 'Charlie e a Fábrica de Chocolate. Muita imaginação, uma aventura alucinante e um mundo totalmente mágico... e ao mesmo tempo uma crítica social tão voraz, uma história tão completa!

Charlie Pipa vive com a família numa pequena casa para ele e os pais, os avós paternos e os avós maternos. Todos vivem à custa de um trabalho incerto do pai Pipa e em condições de extrema pobreza. Ainda assim, no aniversário de Charlie, poupam para lhe oferecer uma tablete de chocolate da Fábrica de Willy Wonka, mesmo ao lado da casa deles, e que o menino adora. Quando Wonka distribui 5 bilhetes dourados pelas tabletes para possibilitar às crianças que as encontrarem uma visita ao maravilhoso mundo da fábrica, Charlie só quer ser um dos sortudos.

domingo, 18 de outubro de 2015

A Lagoa do Sherman: Caniches, a outra carne branca - Jim Toomey

Quando começamos a conhecer mais a fundo o mundo da banda desenhada, por um lado ficamos com expectativas mais elevadas no que lemos, por outro não acreditamos que ainda podemos ser (muito) surpreendidos com histórias e ilustrações inesquecíveis. Mas aí aparece 'A Lagoa do Sherman' e tira-nos o chão debaixo dos pés!

Nesta aventura, o tubarão Sherman vive com a esposa Megan e os seus amigos Filmore (a tartaruga), Ernest (o peixe), Pinças (o caranguejo) numa lagoa do Pacífico Sul. Entre as visitas a Veneza, a descoberta do Titanic e da cidade perdida de Atlântida e as invasões animalescas que sofrem na sua lagoa, assistimos à vida marítima a partir do seu interior e dos olhos dos seus habitantes.

E são aventuras maravilhosas. A forma quase existencialista como encaram as coisas, a inevitabilidade de pessoas e peixinhos adoráveis serem atacados para a sua alimentação, as partes mais humorísticas (de humor muito negro!) em que fazem planos maléficos para atrair as pessoas... tudo nos leva, de forma divertida, a conhecer os hábitos destes animais - que aos nossos olhos se comportam como pessoas, casam, vão de férias, fazem trabalhos para a escola e, claro, alimentam-se.

sábado, 17 de outubro de 2015

O Falecido Mattia Pascal - Luigi Pirandello


"Mas ela tinha um coração e não podia amar; aquela sombra tinha dinheiro e qualquer lho podia roubar; tinha uma cabeça, mas para pensar e compreender que era a cabeça de uma sombra, e não a sombra de uma cabeça. Absolutamente assim!"

'O Falecido Mattia Pascal', Luigi Pirandello

Foi daqueles livros totalmente desconhecidos que encontramos por acaso numa livraria, com um desconto apelativo, e não conseguimos resistir a comprar. Sabem? Apaixonei-me pela sinopse, pelo título interessante e a capa peculiar, e tive de o ler logo de seguida. 'O Falecido Mattia Pascal' talvez não me tenha apaixonado tanto como este momento inicial da nossa relação, mas não deixa de ser um excelente exemplar de literatura!

Mattia Pascal é arquivista, casa com Romilda e vive a desesperar com a sogra que lhe faz a vida negra. É claramente um homem a precisar de mudar de vida - e uma noite de sorte ao jogo em Monte Carlo dá-lhe exactamente essa possibilidade. No regresso para casa, rico, apercebe-se de que o dão como morto na sua terra, pelo que vagueia por outras paragens italianas até encontrar um novo lar numa pensão em Roma. No entanto, ao apaixonar-se e sentir algumas complicações na pele, nem tudo vai correr bem para o falecido Mattia Pascal.


domingo, 13 de setembro de 2015

Calvin & Hobbes - Bill Watterson

'Calvin & Hobbes' é uma das duplas mais afamadas da banda desenhada de todos os tempos, e no entanto ainda não tinha tido verdadeiramente contacto com a história destes dois pequenos traquinas que Bill Watterson nos apresenta. Dois livros depois, dizer que estou rendida aos seus encantos é pouco. 

Mergulhar nas histórias de Calvin e de Hobbes é viver a infância toda de novo, beber o nosso próprio espírito infantil e ingénuo (que está perdido algures dentro de nós) e deixar que as suas aventuras nos transportem - como a Calvin para o tempo dos Dinossauros - para um mundo mais criativo, onde tudo é possível - quanto mais não seja na nossa imaginação.

Por isso quando Calvin se transforma no astronauta Spiff ou no seu outro alter-ego, o homem estupendo, também nós nos imaginamos no seu novo mundo imaginado, mesmo que seja apenas um sonho acordado no meio de uma aborrecida aula de matemática. E quando Hobbes ganha vida como um tigre a sério, em lugar do peluche que é quando Calvin o tem consigo junto aos pais, é um melhor amigo que surge para o nosso estupendo protagonista.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O Cônsul Honorário - Graham Greene

"O doutor Plarr perguntava a si mesmo se Fortnum o chamara para o aconselhar sobre um problema menos solúvel do que a dor de barriga da mulher. E bebeu para preencher o que lhe parecia ser um silêncio embaraçoso."
'O Cônsul Honorário', Graham Greene

Greene já me conquistara com 'O Fim da Aventura' - e foi, aliás, pelo que esta obra me ofereceu que uma edição novinha em folha, antiga e muito bonita d'O Cônsul Honorário' não me escapou nos alfarrabistas da Feira do Livro. Nem sei porque demorei tanto tempo a reflectir e a querer escrever sobre ele, depois de o ter lido quase de uma assentada. Mas tinha de de escrever, de uma forma ou de outra, pela experiência que é conhecer as histórias e as personagens de Greene.

Em 1970, Eduardo Plarr é um jovem médico de ascendência inglesa que vive numa pequena cidade argentina e estabelece relações com a comunidade britânica que ali reside - da qual faz parte o cônsul honorário, Charley Fortnum. De forma quase acidental, envolve-se com a mulher deste e deixa-se envolver num sequestro errado, que pode ser fatal para os dois homens: o que acompanhamos em toda a história e o que lhe dá nome.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Mutts III: Mais Coijas - Patrick McDonnell

Já tinha saudades de ler banda desenhada. Foi preciso um namorado e uma biblioteca para me voltar a apaixonar pelas histórias e pelas tiras de BD - que desde o Tio Patinhas tinham ficado guardadinhas numa gaveta mental na minha infância longínqua. Foram os Mutts a fazê-lo - claro, com um gato super engraçado e amoroso no elenco principal das aventuras.

A terceira aventura Mutts (a primeira que li desta série, mas que me abriu muito o apetite para as outras!) é protagonizada por Earl, o cão, e Mooch, o gato que fala "ashim", dois rafeiros amigos e vizinhos. Mooch vive com Millie e Frank, os donos, e o peixe Sid, na casa ao lado de Earl, e como gato que é prefere muitas vezes ficar a dormir e a descansar (de não fazer nada) face ao amigo enérgico e brincalhão.

Por ter gatos, a experiência de contactar com esta BD é ainda mais engraçada. Há situações que claramente identificamos com a nossa experiência pessoal de contacto com os animais em casa, seja por os gatos de facto passarem a vida a comer, dormir e arrastar-se pela casa a fazer ronron, ou por tiras como a de Mooch se ver ao espelho - o que pode acontecer, de facto, com os animais ao verem o seu reflexo!

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Gente Feliz com Lágrimas - João de Melo

"Com excepção dos nomes e das cores, que se haviam delido no tempo, seriam apenas os barcos - os mesmos desse dia feliz em que papá decidira levá-la a vê-los de perto pela primeira vez."
'Gente Feliz com Lágrimas', João de Melo

'Gente Feliz com Lágrimas' faz parte das obras mágicas de literatura portuguesa com que o século XX e os seus grandes autores nos brindaram. Viaja dos Açores ao Canadá, por entre a construção da personalidade das personagens enquanto crianças, a sua emancipação do leito familiar e a tentativa de distanciamento de uma vida que não o era.

Nuno, Amélia e Luís Miguel são três dos irmãos da família retratada na história, que em crianças viveram com os pais nos Açores - antes de, cada um à sua maneira, procurar uma nova vida na capital ou no estrangeiro. A casa em que viviam era pequena e sem condições para tantos filhos, as divisórias não ofereciam privacidade, o dinheiro não chegava para os sustentar - por isso eram obrigados a trabalhar, maltratados pelo pai, sem poderem ser verdadeiras crianças. À luz do tempo, observamos como cresceram e se distanciaram (mais ou menos) desta infância sombria.

domingo, 19 de julho de 2015

Jules e Jim - Henri-Pierre Roché

"De novo o acompanhou até à cidade. Muitas vezes tinham tomado juntos aquele comboiozinho fumarento. Iam de mãos dadas. Ela tirara as luvas, e uma delas estava virada do avesso, poisada nos seus joelhos, formando um coração com a aorta cortada. - Olha o meu coração no teu regaço - disse Jim."
'Jules e Jim', Henri-Pierre Roché

Cheguei até 'Jules e Jim' como quase todos chegamos - pelo filme. Numa bonita edição da Relógio d'Água, em promoção na Feira do Livro, que por ter dado origem à obra cinematográfica de Truffaut desperta uma enorme curiosidade, conheci o mítico triângulo amoroso e a estranha amizade de Jim e Jules - com Kathe, sempre, pelo meio.

Os dois amigos conhecem-se em Paris, em 1907, partilhando visões da vida, mulheres, viagens e uma cumplicidade instantânea que os une desde o primeiro momento. Quando Jules conhece Kathe, avisa Jim: "Esta não". Não era uma mulher qualquer. Muitos anos depois, quando o casamento deles já não é perfeito, Jim ressurge nas suas vidas e a sua paixão por Kathe é revelada. Mas o que podia ser o (re)início de uma bonita história de amor só lhes traz dor, tristeza e tragédia.

domingo, 28 de junho de 2015

Benjamim - Chico Buarque

 
"E quando ela acaba de passar, o sorriso não é mais dela, é de outra mulher que Benjamim fica aflito para recordar, como uma palavra que temos na ponta da língua e nos escapa."
'Benjamim', Chico Buarque

Chico Buarque é, efectivamente, o homem de todos os talentos: ele compõe, ele canta, ele escreve, e em todas estas atividades parece dar o melhor de si. Em 'Benjamim', é maravilhosa a forma como vamos lendo o romance como uma canção de amargura, de 'fim', e ao mesmo tempo com um traço de beleza, simplicidade e esperança muito característicos em tudo o que nos transmite.

Benjamim é um ex-modelo que nunca casou, nunca teve filhos - um homem que a vida parece ter renegado com o tempo, quase numa perspetiva oscarwildiana de hedonismo e perda da beleza física. Não que a tenha obrigatoriamente perdido, mas pelo menos a reforma chegou cedo e nada na sua vida pareceu fazer sentido depois disso. Quando vê Ariela, vê nela a mulher que um dia amou, Castana Beatriz, e é como se por momentos a sua esperança renascesse.

sábado, 13 de junho de 2015

Aventuras de Tom Sawyer - Mark Twain


"Chegou a manhã de sábado. Era verão e tudo estava fresco, brilhante e cheio de vida. Havia uma cantiga em cada coração e, se o coração tinha poucos anos, essa cantiga vinha até aos lábios."

Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain

'Aventuras de Tom Sawyer' são as aventuras de um rapaz, enquanto é rapaz - pois se a história continuasse, como refere o autor, eventualmente seriam as aventuras de um homem. De uma forma descontraída, quase com um sorriso nos lábios a cada criancice e ao mesmo tempo de coração apertado em cada aventura, vamos seguindo Tom, os seus sonhos, as amizades e as suas peripécias.

Tom Sawyer é uma criança como todas as outras, que só quer brincar, divertir-se, estar com os amigos e viver aventuras emocionantes. É por isso que foge da aldeia para ser pirata, que se mete em apuros com Becky na gruta, que quer encontrar o tesouro e enriquecer - mesmo que para isso tenha de perseguir homens muito perigosos.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Viagens em volta da Feira do Livro


Todos os anos os mesmos caminhos percorridos, para cima e para baixo, com a mesma vontade de ver e conhecer tudo, tocar nos livros, cheirar as barraquinhas dos alfarrabistas e aproveitar as melhores promoções. É o Parque a florescer com a chegada do melhor mês do ano em Lisboa: o Junho do Verão, das festas da cidade e da Feira do Livro!

O primeiro dia de feira está sempre marcado na agenda, para a primeira visita. Não há como resistir ao regresso do evento que aguardávamos há já um ano, enquanto construíamos as nossas wishlists e enchíamos o nosso mealheiro. Nem à sensação de déja vu que nos assola quando voltamos a ver o Parque cheio de barraquinhas, com as novas zonas de restauração, novas editoras, novas pessoas, mas o mesmo ambiente de paixão pelos livros.

Na feira não há dois dias iguais. A cada novo percurso, a cada viagem pelas editoras presentes, descobrimos livros que já lemos, outros que queremos ler há muitos anos, outros ainda que não conhecíamos e que nos cativam pelo título familiar, a capa bonita ou o preço apelativo. E folheamos, continuamos caminho, deixamos para outra pessoa poder apreciar.

domingo, 26 de abril de 2015

Ivan, o Tolo - Lev Tolstoi

"Mal pronunciara o nome de Deus, já o diabito se estava a afundar na terra, como se fosse uma pedra que tivesse caído na água, e naquele local ficou somente uma cova."
'Ivan, o Tolo', Lev Tolstoi

Quando ser-se tolo é ter-se um bom coração, é porque algo no mundo não está bem. Tostoi escreve, apercebendo-se disso, um pequeno conto (de fadas - e diabos!) sobre a ganância, a guerra e o materialismo, face a um homem que, por ser tolo e ingénuo, adopta valores mais nobres na sua vida.

Ivan tem dois irmãos que vão vivendo à sua custa, ao mesmo tempo que sustenta os pais e a irmã. Quando o diabo descobre que Ivan é o motivo pelo qual os três irmãos não lutam entre si, incumbe três diabitos de os atormentar e virar uns contra os outros. A bondade de Ivan impede que tal aconteça, mas conseguirá ele escapar ao Diabo, que depois tentará incutir nele a mesma ganância e maldade que o caracterizam.

Quem disser o contrário é porque tem razão - Mário de Carvalho

"O princípio é o da autenticidade. O que lhe for próprio. E o da liberdade também. Ad lib."
'Quem disser o contrário é porque tem razão', Mário de Carvalho

Há a escrita de ficção e a escrita sobre a escrita de ficção. Mário de Carvalho salta dos romances para a escrita dita 'criativa', como se estivesse em frente a uma máquina de escrever a escrever, em lugar de mais um romance, sobre como escreve estes romances, as suas personagens, as histórias mirabolantes, os truques que usa. Um guia bastante prático e totalmente despretensioso que nos prende de capítulo para capítulo.

Podia ser apenas um guia para consulta do "novel escritor", como o autor interpela constantemente o leitor. Mas, embora posa ser lido como tal, tem um fio condutor, como se de uma verdadeira história se contasse. E perdemo-nos (no bom sentido) de tal modo nas histórias, nas dicas, nos romances e contos que o autor nos vai contando e exemplificando, que o lemos de uma ponta a outra quase sem darmos por isso.

sábado, 18 de abril de 2015

O Fim da Aventura - Graham Greene

"- Sarah, pode ser amanhã. Tinha-me esquecido de uma coisa. No mesmo sitio, à mesma hora. - E ali sentado, com algo por que esperar, pensava de mim para mim: recordo. É a isto que a esperança sabe."
'O Fim da Aventura', Graham Greene

Há livros que se tornam especiais porque nos dizem muito, outros porque são prendas bonitas de pessoas que amamos, e este é um bocadinho a mistura dos dois - e por isso duplamente especial para mim. Uma aventura pelos caminhos do amor, da religião, do ódio, da esperança, da saudade, da dor e da inevitabilidade, se quisermos - que começa com o fim de uma aventura e que, ao longo da aventura que é a leitura, nos mostra, com uma grande sensibilidade, as peculiaridades da existência humana.

Sarah Miles termina subitamente e sem aviso a sua ligação amorosa ao romancista Bendrix, que conheceu durante o Blitz, em Londres. Dois anos depois, louco de ciúme, ele contrata um detective privado para a seguir, procurando descobrir se foi apenas um dos seus amantes e se Sarah estaria novamente a enganar o marido, Henry. Bendrix narra na primeira pessoa, num presente que conta um passado recente e outro mais antigo, o do seu romance com Sarah, sempre com o sentimento, a dor e a amargura que sente.

domingo, 5 de abril de 2015

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai - Gonçalo M. Tavares

"... no fundo por vezes estamos vivos apenas para isto - aceitar o que vai acontecendo, e avançar."
'Uma menina está perdida no seu século à procura do pai', Gonçalo M. Tavares

Da 'nova vaga' de escritores portugueses, faltava-me conhecer Gonçalo M. Tavares. Não que concorde com essa designação por terem estilos semelhantes, porque não têm, apenas têm em comum os mundos negros (internos e externos) que procuram retratar. E talvez esta nem seja a melhor obra para poder dizer seja o que for sobre o autor - mas foi suficiente para me deixar levar pela escrita subtil e a história cinzenta.

Marius conhece Hanna por acaso, quando procura fugir de alguma coisa. Ela é uma menina com trissomia 21 que está sozinha, com um 'manual de instruções' que deve seguir e apreender, e que anda à procura do seu pai. Com Marius, vive uma aventura em que se perdem na busca pelo pai, descobrindo antes histórias, personagens e uma ligação muito forte e inesperada. Mais que isso, até: descobrem até onde podem ir as suas verdadeiras capacidades.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A Quinta dos Animais - George Orwell

"Todos os animais são iguais. Mas alguns são mais iguais que outros."
'A Quinta dos Animais', George Orwell

Orwell merece sempre as palavras que ninguém consegue expressar sobre as suas obras. São tão abrangentes, intemporais, universais, que podemos lê-las em qualquer época e terão sempre a mesma lição, ainda que possamos senti-las de forma diferente a cada leitura. Este 'A Quinta dos Animais' foi maus uma prova desta universalidade, que faz com que qualquer pequeno texto de Orwell nos pareça uma obra prima e dê vontade de regressar - e ler uma e outra vez.

A rebelião dos animais da quinta é a história desta obra, quando estes se apercebem de que os homens estão a aproveitar-se do seu trabalho sem lhes dar nada em troca. Os porcos lideram a revolta, enquanto os outros animais vão seguindo as ordens e os mandamentos ditados pelos outros. Embora inicialmente todos sejam tomados como iguais, depressa a esperteza destes animais supera a incapacidade dos restantes de compreender as suas palavras e os seus actos, e os primeiros aproveitam-se disso para criar o seu próprio regime ditatorial dentro da quinta.

sábado, 28 de março de 2015

Fogem as palavras, fica o sentimento

Todas as palavras parecem insignificantes, agora que partiste. Fogem todas quando queremos expressar verdadeiramente o que sentimos. Não é possível verbalizar a tristeza que nos abala o coração, as lágrimas que nos caem dos olhos, a dor que vai do nosso cérebro e se espalha por todo o corpo, como um choque eléctrico interminável que não conseguimos controlar. E tu partiste, e o mundo é um lugar mais sombrio, e de um momento para o outro tudo muda como se não tivesse havido instante anterior.

Foi um dia difícil, saber que partiste, saber que não voltaremos a ver-nos e a ter aquelas longas conversas sobre a escrita, as tuas personagens, as tuas ambições, as nossas vidas, as pessoas e as coisas que tínhamos em comum. Parece que ficou tanto por dizer, por fazer. Só queria que a vida fosse como os livros e pudéssemos reescrever o final, fazer uma sequela na qual toda esta história não passava de um sonho e afinal estás bem, estás aqui, és tu novamente.

Contigo aprendi que uma boa pessoa pode assumir várias formas, independentemente das suas crenças. Aprendi que nem sempre as personagens 'boas' são as mais interessantes - e que mesmo os vilões têm um fundo bom e um motivo para serem 'maus'. Aprendi que um escritor bebe muita inspiração do que vê, do que ouve, do que lê, e quando a inspiração lhe vem escreve em qualquer lado, em qualquer guardanapo ou telemóvel, porque há coisas que não podem ficar só na cabeça.

sábado, 14 de março de 2015

A Invenção do Amor - José Ovejero

"Deixo-me ficar discretamente junto à porta, intimidado pela minha condição de intruso num luto ao qual nada mais me une além do desejo de sentir também eu próprio a emoção intensa que uma perda indubitavelmente provoca."
'A Invenção do Amor, José Ovejero'

É tão bom quando os livros nos arrepiam por nos serem tão próxios - por nos conseguirmos identificar com as personagens, por deixarmos que as sensações passem para nós. 'A Invenção do Amor' é um desses livros: queremos sempre conhecer a pessoa por detrás da máscara, mas também queremos que consiga manter o disfarce para descobrirmos até onde pode ir uma história de falsa identidade - que não existe se não para lhe dar uma identidade verdadeira.

Samuel é de facto Samuel, mas não aquele para o qual desejava ligar o homem do outro lado da linha, para dizer que a sua (do outro Samuel) tinha falecido e que ele deveria gostar de saber. A partir dessa chamada, sem saber bem porquê, Samuel (o que vamos acompanhar) assume a identidade do outro e conhece uma vida que não é a sua, que lhe oferece momentos tristes de perda e dor, e que ao mesmo tempo lhe dá a conhecer novas possibilidades para a sua - talvez pouco interessante? - vida.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A Mulher Louca - Juan José Millás

"Durante os trajectos de ida e voltas dormitava um pouco ou falava com as pessoas imaginárias que apareciam dentro da sua cabeça e cuja procedência ignorava. Talvez, dizia ela a si mesma em jeito de explicação, venham de um mundo de gente sem corpo que necessita, para viver, de se meter na cabeça das pessoas de carne e osso."
'A Mulher Louca', Juan José Millás


Há frases que resumem os livros de que fazem parte, e esta é uma delas. Uma mulher que vive quase num universo imaginário, que fala com frases, que as trata, que as transforma para lhes dar o sentido que elas pretendem. Uma médica da língua (?) que, também ela, precisa de alguma 'medicação' para curar esta sua loucura.

São, na verdade, duas mulheres loucas: Julia e Emérita, a doente terminal acamada que Millás, o autor, na primeira pessoa, vai visitar para talvez ver nela um possível romance. E é na outra mulher louca, em Julia, que encontra a essência do romance que procurava, apesar de o seu bloqueio criativo não lhe permitir desenvolver esta ideia. Acompanhamos as suas histórias, os seus segredos, as loucuras - também de Millás, que se torna personagem da sua própria história, que nas conversas com a psicoterapeuta se vai revelando - também ele - uma eterna confusão entre a realidade e a ficção.

domingo, 4 de janeiro de 2015