sábado, 13 de dezembro de 2014

Singularidades de uma Rapariga Loura - Eça de Queirós

“Existe, no fundo de cada um de nós, é certo, - tão friamente educados que sejamos, - um resto de mysticismo; e basta ás vezes uma paisagem soturna, o velho mudo de um cemiterio, um ermo ascetico, as emollientes brancuras de um luar, - para que esse fundo mystico, suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a idéa, e fique assim o mais mathematico, ou o mais critico - tão triste, tão visionario, tão idealista - como um velho monge poeta.”
'Singularidades de uma Rapariga Loura', Eça de Queirós

Eça é daqueles autores que sabe sempre bem ler. Hoje estava a precisar dele, por entre os textos da faculdade, as séries, os filmes e tudo o mais. E, apesar de não ser fã de ler coisas online, não resisti a este pequeno conto, às suas longas descrições e à triste história de Macário.

Macário era jovem e trabalhava para o seu Tio Francisco quando conheceu Luiza, a rapariga loira que observava à varanda. Apaixonou-se imediatamente e quis casar com ela, mas não tinha dinheiro, por isso foi trabalhar para Cabo Verde. Fez tudo por ela, para poder voltar para ela. Mas Luiza não era a mulher que ele conhecia. E é a história do seu triste amor que conta ao narrador numa estalagem minhota.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Ano Sabático - João Tordo

"Percebeu também que lhe faltava alguma coisa e que essa falta jamais seria colmatada com uma carreira. Percebeu que sempre lhe faltaria alguma coisa; que era incompleto, insuficiente para si mesmo, e que, na verdade, tinha pavor de procurar essa coisa, uma vez que a procura corresponderia ao pior de todos os horrores."
'O Ano Sabático', João Tordo

João Tordo tem o poder de nos horrorizar pela escrita, de nos fazer questionar tudo, sobretudo o que conhecemos e tomamos como garantido, através das suas personagens - sempre incompletas, sempre em busca de algo. É a terceira vez que me assombra, que me deixa com medo de que as minhas palavras não sejam suficientes para fazer justiça à grandiosidade da sua escrita. E não o são.

Hugo, contrabaixista que toca em clubes de jazz, decide voltar à cidade natal, Lisboa, e tirar um 'ano sabático' da sua vida desregrada em Montreal. A busca de alguma paz e equilíbrio transforma-se num beco sem saída, quando assiste ao concerto de um pianista recentemente famoso, Luís Stockman, que toca uma composição que ele próprio anda a magicar há já alguns anos. Não bastando esta coincidência, Hugo começa a ser confundido com o pianista e a questionar a sua identidade, enquanto procura descortinar o mistério da sua existência e da do seu aparente gémeo. Também Stockman o tentará, mais tarde, quando o narrador do romance junta as pontas soltas e cria o seu próprio sentido para esta história.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Vale da Paixão - Lídia Jorge

"Então como era possível que se pudesse continuar, quando se percebia que não iria haver mais nenhuma noite? - Só dispúnhamos de uma única, aquela noite de chuva, e termos a certeza de que estávamos a correr dentro dela, sem a podermos repetir, impedia-nos de a viver. Mas esta noite está rente a essa noite, e ambas são contíguas como se fossem só uma, fechadas entre o sol-posto e o amanhecer- A quem interessa o longo dia que ficou de permeio?"
'O Vale da Paixão', Lídia Jorge

Desconhecer o trabalho de Lídia Jorge fez-me reflectir sobre a enormidade de autores e de literatura portuguesa que ainda tenho para conhecer. Estive para me cruzar com ela no café, mas nunca calhou. Calhou antes cruzar-me com a sua escrita neste 'O Vale da Paixão' e apaixonar-me pela mágoa, pela apatia, pela inevitabilidade das coisas. Do alto da casa de Valmares para a superfície da Terra, onde tudo é sentido com mais intensidade.

A ausência de sinopse parece enunciar a ambiguidade desta história da família Dias, nas suas contradições e desventuras, nas suas personalidades divergentes, na acção escassa que se transforma numa narração muito própria, reflexiva e demorada. Francisco Dias, o patriarca, espera que os filhos emigrantes regressem a casa e se juntem a si. Todos, menos Walter, que não é bem-vindo em Valmares, por ser um "trotamundos" e ter engravidado Maria Ema e fugido de seguida, 'obrigando-a' a casar com o irmão Custódio.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O Papagaio de Flaubert - Julian Barnes

"'Vou ser um rei, ou apenas um porco?', escreveu Gustave no seu Diário Íntimo. Aos dezanove anos parece tão simples como isto. Há a vida e depois há a não-vida; a vida ao serviço da ambição ou a vida de insucesso porcino."
'O Papagaio de Flaubert', Julian Barnes

O regresso a Julian Barnes foi também o regresso a Gustave Flaubert, à sua 'Madame Bovary' e a diversos aspectos curiosos que não conhecia da sua vida e obra. Sempre inspirador, o autor leva-nos por estas histórias, que por nós até podem ser inventadas, mas que aos poucos vão compondo esta personagem estranha e curiosa, que ofereceu ao mundo um dos romances mais belos e trágicos da literatura.

Geoffrey Braithwaite é um inglês fascinado por Gustave Flaubert, que se dirige à sua terra natal, Rouen, para ver o papagaio embalsamado que serviu de modelo ao autor durante a escrita de um dos seus livros. O que inicialmente é apenas uma viagem transforma-se numa verdadeira lição sobre o autor, explorando-se, em capítulos originais, o seu talento, as suas amizades e romances, os seus defeitos, vaidades e medos. O amor, também - o seu pela mulher Ellen, que morreu recentemente, e o de Flaubert e Louise Colet. 'Tudo para concluir que a vida verdadeira é a vida que vem nos livros. Porque é a única que se pode interrogar'.