domingo, 26 de outubro de 2014

Há Mais Mundos - José Régio

"No próprio sonho somos punidos. Que dura a punição? Quando muito, o resto do sonho. Acordamos, tudo se esvai. Era sonho! O nada ficou em nada."
Há Mais Mundos, José Régio

Quando compramos livros, habitualmente, é porque gostamos da sinopse, do autor, ou alguém nos recomendou aquele pedaço de literatura por achar que iríamos gostar. E depois há os raros casos - para mim, pelo menos - em que compramos livros por gostarmos das capas. Nunca me acontece, na verdade, mas desta vez, numa qualquer feira da ladra, foi a capa que me fascinou. Tem algo de D. Afonso Henriques meet Amália Rodrigues, um toque moderno com aquele castelo ao longe, no alto, como se encerrasse toda a dor e toda a esperança da história de Portugal num só desenho.

Comprei-o única e exclusivamente com o coração, por isso (recuperando o post anterior!). Mal dei atenção à sinopse, mal quis saber quem era o autor. Como nunca tinha lido nada de Régio, acabei por achar que seria uma bela maneira de começar. E ao lê-lo deparei-me com uma série de contos, muito diferentes entre si, mas com um toque comum, qualquer coisa que não se vê, qualquer coisa que serve de cola entre cada bocadinho de história, cada personagem bem característica da alma portuguesa. Neste aspecto, a mensagem que a capa me transmite está um bocadinho presente.

O Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro

"Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."
O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro

Saudades de pensar em Fernando Pessoa e nos seus heterónimos; nas suas dicotomias, nos dramas da fragmentação da personalidade, nos seus poemas sentidos. Alberto Caeiro não era o meu favorito - adorava a pujança de Álvaro de Campos e as 'dores' do ortónimo, mas Caeiro ficava à frente do estoicismo de Ricardo Reis que nunca me fascinou senão pela sempre constante, em Pessoa, impossibilidade de escapar às circunstâncias da vida.

Este 'O Guardador de Rebanhos' estava guardadinho na minha estante há muitos anos, a pedir discretamente para ser lido num belo dia de outono. A simplicidade da escrita, a facilidade com que se lê, contrasta com esta primeira pessoa complexa, que não quer pensar, que não quer compreender nada, só viver, e que acaba por pensar tudo como se fosse impossível escapar a esta mediação do pensamento.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Um Escritor Apresenta-se - Vergílio Ferreira

"Alegrias? Dificuldades? A maior alegria de que me lembro, é a de estar vivo; e a maior dificuldade também." 
'Um Escritor Apresenta-se', Vergílio Ferreira

Haverá melhor forma de conhecer um autor (um homem) que não através da sua própria palavra? Vergílio Ferreira escreveu uma série de diários, embora diga sempre que nunca conseguiu mantê-los, que nos oferecem uma visão bastante interessante da sua vida, das suas opiniões, dos locais por onde passou e dos autores e correntes que o foram influenciando. Esta obra, a par de tudo o que escreveu espontaneamente, vem acrescentar ainda mais conhecimento sobre a sua pessoa.

'Vergílio Ferreira responde' - podia ser outro título desta obra, que no fundo compila as suas respostas a algumas questões bastante interessantes: Deus, o existencialismo, os seus livros, questões políticas, etc. Vergílio Ferreira - o homem e o humanista - apresenta-se, de facto, nestas páginas, por vezes repetindo-se (como é normal em entrevistas - e até mostra um equilíbrio e uma certa sinceridade), por outras mostrando como o que tantas vezes nos diz sobre a sua mudança de perspectiva, de tom, de corrente literária se manifesta também numa evolução de convicções e crenças, com a passagem do tempo.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Revisitando Eça e Os Maias


"Caiu-me a alma a uma latrina, preciso de um banho por dentro!"
'Os Maias', Eça de Queiroz

126 anos depois da publicação d' 'Os Maias', chega a aguardada adaptação cinematográfica do romance, às mãos de João Botelho. O cinema português vive no estado que se sabe: poucos fundos, pouco mercado, pouco incentivo cultural, pouca preocupação legislativa. Mas o realizador português pegou numa obra adorada por todos e, mediante escolhas bastante arriscadas, trouxe-a para o grande ecrã da melhor forma que conseguiu: com um leque de actores muito bem escolhido, com um argumento totalmente fiel ao romance e com uma preocupação estética despida de tudo o que é acessório, a começar pelos cenários exteriores pintados. 

Isto fez-me recordar a leitura d' 'Os Maias', sorrir ao relembrar algumas falas icónicas e olhar para a realidade aos olhos de um autor bastante crítico que, à luz da época em que viveu, escreveu uma obra intemporal e inesquecível.