segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Biografia Involuntária dos Amantes - João Tordo

"Embora eu sentisse que a melancolia de Saldaña Paris era agora a minha, isso não me conferia o direito de remexer no passado a meu bel-prazer; embora eu fosse parcialmente responsável pelo que acontecera, isso não significava que tinha sobre as minhas costas o ónus da demanda da verdade. Pior ainda: se, por algum motivo, eu me convencera de que, escrutinando o que acontecera, poderia remediar o que viria a acontecer, era preciso que o fizesse por ele e nunca por mim."
'Biografia Involuntária dos Amantes', João Tordo

Já o considerava um dos autores mais promissores da literatura portuguesa. Com este romance, sei que é capaz de tudo: João Tordo é daqueles escritores que, por muitos livros bons que tenham, surpreendem sempre e conseguem sempre melhor nos seguintes. Podemos ter as expectativas muito elevadas, que ele consegue superá-las. Consegue ir ainda mais fundo, tocar-nos a alma e mostrar que a literatura pode levar-nos por caminhos que ainda não conhecíamos. E isso é maravilhoso.

'Biografia Involuntária dos Amantes' é a história de Teresa, de Saldaña Paris e do protagonista anónimo, um professor de literatura na Galiza que contacta com as histórias destes dois amantes numa noite escura em que, com este, atropela um javali. A situação despoleta no mexicano a lembrança desta mulher, Teresa, e do manuscrito que esta lhe deixou quando morreu. O professor vai tentar salvar o amigo, que mergulha numa depressão profunda, e, em simultâneo, salvar a sua própria vida, numa viagem de descoberta, de redenção, de busca do equilíbrio da melancolia.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

"Amanhã foi muito bonito": dos livros e da vida

Quando o li pela primeira vez, era uma miúda de 14 anos que nada sabia da vida. E que pouco tinha lido da vida. Não me lembro como aquele livro me veio parar às mãos, é daquelas coisas que acontecem por acaso e que nem sabemos muito bem porque fazemos. Sei que foi comprado completamente ao acaso, porque o autor era desconhecido e apenas se assemelhava, diziam, aos mistérios religiosos que iam sendo tornado famosos um pouco por todo o mundo. Por isso, aqui a Raquel teve curiosidade em pegar nele e ler uma história diferente, mais adulta, mais composta.

E li-a, e deixei-me fascinar por aqueles capítulos quase soltos, que depois se ligavam todos numa intrincada teia de acontecimentos misteriosos. Lembro-me de apontar alguns nomes de personagens e pequenas histórias dentro da história, para tentar ligá-las e fazer algum sentido naquilo que lia. Era uma miúda, ainda estava a aprender a interpretar a leitura. Mas consegui ver o sentido, consegui lê-lo de uma assentada e apaixonar-me pelas personagens. Via-as na minha cabeça, sobretudo ela, loira e corajosa, jornalista e aventureira (gostava de ser como ela), e ele, muito moreno, forte e determinado, como se nada lhe metesse medo.

A vida tem destas coisas estranhas e, três anos depois, foi a vez de, num momento de iluminação inconsciente, ir parar àquela rede de pessoas que a mudou para sempre. Conheci pessoas maravilhosas que ainda hoje fazem parte da minha vida, algumas delas bem próximas. E contactei pela primeira vez com ele – eu, uma miúda de 17 anos, tímida e fã, que não o conseguia tratar por tu e ainda pensava duas vezes nas palavras que usava quando se dirigia a uma pessoa que considerava tão ilustre. Um livro fez-me isso; os que se lhe seguiram, ao longo dos anos, só derrubaram (num sentido positivo) esse pedestal em que o colocara, para o colocar num outro: o da admiração profunda, como escritor e ser humano – como amigo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Mudança - Vergílio Ferreira

"- Pode saber-se agora porque nos batemos?
Carlos revirou um olho cansado no escuro:
- É corajoso, amigo. Quer saber, quer tomar uma posição. É ter coragem. Gosto disso, caramba."
'Mudança', Vergílio Ferreira

Cada vez me apaixono mais por Vergílio Ferreira. Li ontem algo sobre a escrita ser o espelho da alma de um autor, ainda que esta possa estar fragmentada, como as diversas 'personalidades' de Fernando Pessoa. Vergílio Ferreira também tem esse hibridismo fascinante - e este 'Mudança' representa o maior espelho desta ambiguidade, entre o neorealismo da sua primeira fase literária e um pensamento algo existencialista que começa a adoptar nos seus 30 anos. Como marco desta mudança muito própria, é um romance maravilhoso!

O protagonista é Carlos Bruno, que vive rodeado pelo pai, o Tio Manuel, a mulher Berta, o sogro Cardoso, e ainda Gaviarra, o meio irmão Pedro e o engenheiro Raul. Enquanto o Tio e Gaviarra são dois inconscientes, que vivem a vida sem preocupações de maior, Pedro é o exacto oposto de Carlos - ou, pelo menos, da pessoa que Carlos se vai tornando, com um raciocínio negativista, só, criando problemas só porque isso significa pensar nas coisas. A mudança acontece no próprio Carlos (que às vezes é só Bruno, o que ajuda a confundir-nos e a confundi-lo!), como no autor desta personagem tão complexa.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O Teu Rosto Será o Último - João Ricardo Pedro

"E, enquanto o outro se mirava ao espelho, o ilustre médico descobria, naquele homem vindo sabem Deus e o Diabo donde, talvez das margens do Guadiana pela forma de falar, naquele desgraçado que não tinha onde cair morto e que talvez por isso mesmo caíra ali, um inesperado reflexo de si próprio."
'O Teu Rosto Será o Último', João Ricardo Pedro

O melhor de 'O Teu Rosto Será o Último', para mim, é a sinceridade da escrita, a naturalidade com que cada pensamento nos é transmitido através do discurso indirecto livre, da prosa cuidada. Um autor 'desconhecido' que, através do prémio LeYa'11, se dá a conhecer, e muito bem, aos portugueses. E que, sem saber, nos oferece uma nova forma de ver os livros e a literatura :)

É a história do Dr. Augusto Mendes, do seu filho António, do seu neto Duarte, e das suas esposas também: a D. Laura, a Paula, a Luísa 'namorada' do Duarte. É a história do Celestino, mas também do Policarpo, do Índio, do professor de piano, da professora de canto, da mulher de muletas ou do barbeiro Alcino. O fio condutor é a família Mendes, que dá o mote para a descoberta de uma época histórica, de mil histórias diferentes e maravilhosas que, juntas, criam uma aura de mistério e curiosidade no leitor.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Diário Inédito - Vergílio Ferreira

"Minha Gina: vou hoje começar um diário para ti. (...) Tu sabes que um diário é sempre falso. Nós somos quase sempre falsos até mesmo quando pensamos, porque o pensar é já um desnudar-se uma pessoa perante si mesma."
'Diário Inédito', Vergílio Ferreira

Já andava em ânsias para ter este livro nas mãos e poder ter um cheirinho de Vergílio Ferreira por Vergílio Ferreira, neste seu registo mais pessoal. 'Diário Inédito' é composto por registos escritos entre 1944 e 1949, numa idade em que o autor estava exactamente na fase de descoberta de um novo estilo para a sua escrita - entre o neo realismo e uma espécie de existencialismo 'crítico' que aqui já enuncia.

É difícil falar de um livro que não tem uma história, mas muitas; que não tem um fio condutor, é antes um aglomerar de pensamentos dispersos, de histórias, poemas e até declarações de amor. Todo o diário é, em parte uma declaração do autor à esposa Regina - começa por sê-lo, pelo menos, mas com o tempo torna-se mais um exercício mental de Vergílio Ferreira, e ao mesmo tempo um diário/diário, até tendo em vista a sua posterior publicação (que ele próprio não admite na sua escrita).

domingo, 14 de setembro de 2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Medida do Mundo - Daniel Kehlmann

"Queria investigar a vida, compreender a estranha tenacidade com que ela abarcava o globo. Queria descobrir as suas artimanhas!"
'A Medida do Mundo', Daniel Kehlmann

Medir o mundo era o objectivo destes dois homens muito diferentes, tanto ou mais que os métodos que utilizavam para o fazer. 'A Medida do Mundo' acompanha as suas histórias, de pequenos génios a cientistas de renome, a velhos já ultrapassados no domínio da ciência, quando se tornam amigos apesar de todas as diferenças. Apesar de sobrevalorizado, não deixa de ser uma obra interessante e que nos oferece, de forma bem disposta, um pouco de história sobre estes homens pouco conhecidos do grande público.

Humboldt é o oposto do irmão mais velho, ligado às letras e às profissões ditas nobres. O mais novo prefere observar o mundo, viajar por todo o lado. Não dorme, não tem vida própria, apenas observa, escreve e descobre. Por seu lado, Gauss é descoberto com apenas 8 anos e desde essa tenra idade que desenvolve a sua genialidade matemática, escrevendo a obra da sua vida aos 20 anos. Prefere a comodidade da sua casa, da sua secretária, em lugar de se aventurar pelo mundo, mas ao mesmo tempo apaixona-se (por duas mulheres), casa e tem filhos, ainda que os considere burros, como a toda a gente. O livro começa com o encontro entre os dois alemães em Berlim, em 1828, revisitando depois as suas vidas.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O Príncipe das Marés - Pat Conroy

"O meu coração pertence aos pântanos. A criança que ainda existe em mim traz consigo as recordações daqueles dias em que, antes do amanhecer, tirava os caranguejos do rio Colleton, dias em que a vida do rio me moldou, ao mesmo tempo, criança e sacerdote das marés."
'O Príncipe das Marés', Pat Conroy

De volta às leituras de Verão, mas esta bastante mais consistente, pesada e trágica que as anteriores. Pat Conroy apresenta-nos 'O Príncipe das Marés', numa edição do ano em que nasci e que agora peguei para conhecer mais a fundo. As imagens mentais tocaram-me tanto ou mais que as oferecidas pelo filme, pela sua simplicidade, pela dor que transmitem. E foram seis dias intensos de leitura, nos quais mal consegui tirar os olhos das palavras estampadas no papel.

Os Wingos são uma família da Carolina do Sul, mais precisamente da ilha Melrose, onde Tom, Luke e Savannah foram criados. Casado e com três filhas, Tom conta agora à psiquiatra da irmã, de seu nome Susan Lowenstein, episódios da sua infância que podem ajudar a salvar Savannah dos seus demónios interiores, ao mesmo tempo que procura aliviar a dor de algumas memórias reprimidas - e ao mesmo tempo que, entre ele e Susan, vai nascendo uma cumplicidade que pode salvar ambos da estagnação e da neutralidade em que as suas vidas mergulharam.


domingo, 7 de setembro de 2014

Vagão J - Vergílio Ferreira

"Quem vem pôr um fim à história dos Borralhos? Ela não acabou ainda e não se sabe já onde foi que começou. Talvez, António Borralho, tu a escrevas um dia. Tu ao menos descobriste que tinhas inteligência, tu sabes o que sois, o que sempre tendes sido."
'Vagão J', Vergílio Ferreira

Um dos livros de Vergílio Ferreira censurados durante o Estado Novo, sobretudo pela exposição da miséria social e da categorização da sociedade. Gosto que esta edição, para além de ser a original, contenha o relatório de censura e nos transporte de forma tão vívida, através de uma escrita limpa, simples e realista, para a realidade desta família pobre. São os Borralhos, sabe-se lá porquê.

Têm fama de ser ladrões, por isso aproveitam-se disso. Vivem todos na mesma casa, dormem todos juntos, nascem mais Borralhos a toda a hora, roubam, aproveitam-se dos poderosos, andam à porrada e só uma das crianças vai à escola. São uma família que conta os tostões para sobreviver, que nega aos filhos o mínimo prazer, que quer até que o patriarca morra para ser menos um fardo para a família empobrecida. Não há limites para a indecência, para a imoralidade. E através deste retrato vai mostrando como a sociedade portuguesa da época vivia sem condições para o fazer, sem tornar os Borralhos coitadinhos, porque são ladrões e assassinos e animais.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

The Sense of an Ending - Julian Barnes

"All this is looking ahead. What you fail to do is look ahead, and then imagine yourself looking back from that future point. Learning the new emotions that time brings. Discovering, for example, that as the witnesses to your life diminish, there is less corroboration, and therefore less certainty, as to what you are or have been."
'The Sense of an Ending', Julian Barnes

'The Sense of an Ending' é uma viagem pela história, o tempo e a memória, numa reflexão íntima de um homem na casa dos 60 anos que é confrontado com um passado que recorda de forma muito particular. Foi a minha primeira vez com Julian Barnes e não podia ter corrido melhor: caiu-me tudo a cada revelação, senti que cada palavra tinha o seu lugar na história e compreendi de forma exímia a capacidade do autor nos levar pelos caminhos misteriosos da memória.

Tony Webster e o seu grupo de amigos conheceram Adrian Finn no liceu, um rapaz claramente mais inteligente do que eles, com as suas teorias intelectuais e filosóficas e uma palavra pertinente para todas as situações. Já na faculdade, Tony namora com Veronica, que, depois de uma separação difícil, acaba a namorar com Adrian. Mas este desaparece de forma abrupta e inexplicável - tirando a sua própria vida - e Tony, 40 anos depois, conta-nos a história à luz da sua memória destes anos de juventude. Quando a mãe de Veronica morre e lhe deixa alguns itens em herança, Tony revive toda esta história - agora à luz da percepção de Veronica e do próprio Adrian -, descobrindo pormenores que não lembrava e um remorso que nunca esperara sentir.

A Virgem Cigana - Santa Montefiore

"Recuei, em vez disso, àquele Verão no château, quando Coiote tinha vindo ter connosco, com o seu mistério e a sua magia, e transformara as nossas vidas. Tinha dado amor e sarado o passado. Ensinara-me a confiar, e eu entregara-lhe o meu coração, a minha alma, a minha fé; tudo o que tinha."
'A Virgem Cigana', Santa Montefiore

No Verão, leituras de Verão. É mesmo aquela época em que não nos importamos de ler os guilty pleasures todos, na praia ou a caminho do trabalho, só para desanuviar a mente. E este 'A Virgem Cigana' é um exemplo disso. Faz lembrar o 'Chocolate' de Joanne Harris - que, embora nunca tenha lido, associo sempre ao filme - e ao mesmo tempo marca-nos pelos pequenos pormenores que rodeiam a história - e que nada têm a ver nem com esse romance, nem com o quadro que lhe dá nome.

Mischa e a mãe vivem num château numa vila de Bordéus, praticamente isolados e até mal vistos pela comunidade por o rapaz ser filho de um soldado alemão morto na guerra. Quando Coiote, um americano charmoso e dócil, chega à vila e se apaixona pela mãe, Mischa ganha uma nova confiança: volta a ter voz, faz amizades e até vai à escola. O americano muda as suas vidas de tal forma que os leva para Júpiter, nos EUA, para começarem uma nova vida, até que os abandona para sempre e Mischa se perde numa vida que não é a sua.