domingo, 22 de junho de 2014

A Espuma dos Dias - Boris Vian

"Abraça-me. Tenho frio. É desta neve..."
'A Espuma dos Dias', Boris Vian

Já conhecia a história deste 'A Espuma dos Dias', pelo filme de Michel Gondry lançado no ano passado. E o que aconteceu foi, a cada palavra, também pela cinematografia de cada descrição, recordar cada frame, cada cenário, cada imagem do filme: as cores, os momentos mais marcantes. Boris Vian leva-nos para um mundo completamente novo - e a verdade é que me fez compreender de forma diferente o filme, apesar de bastante fiel à sua imaginação louca.

Colin é um bon vivant, rico, que não trabalha porque não precisa e porque não gosta, que vive entre os cozinhados de Nicolas, as músicas de Duke Ellington, as festas de aniversário abastadas e os passeios em ringues de patinagem. Quando conhece Cloé, o seu mundo ganha um novo sentido: quer amá-la, casar com ela, torná-la feliz. Mas Cloé adoece logo após o casamento e Colin perde o seu dinheiro, Chick esbanja tudo a comprar livros de Partre em vez de casar com Alise, Nicolas envelhece e o mundo como antes conheciam parece ir morrendo aos poucos também.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Bom Inverno - João Tordo

Era, pensei então, o balão mais triste de sempre, e Metzger, provavelmente, o primeiro homem na História que, depois de morto, subia em direcção ao céu em vez de descer às entranhas da terra, fazendo do ar o seu sepulcro e das nuvens pálidas do Lácio os seus anjos coléricos do infortúnio.
'O Bom Inverno', João Tordo

Quando os livros são ricos e tocantes, todas as palavras parecem poucas para os descrever; todas as interpretações parecem cruéis para a sua perfeição. 'O Bom Inverno', de João Tordo, é um desses livros. Com ele subimos no balão e não queremos voltar a pôr os pés no chão. Sentimo-nos num inverno agreste e, ao mesmo tempo, num verão caloroso. Tememos a página seguinte mas não conseguimos parar de ler. Chegamos ao fim e sentimos uma tranquilidade desassossegada, de que só as grandes obras são capazes.

(...) Começa com uma morte, tem todos os ingredientes de um policial: um crime, vários possíveis culpados e um homem que procura vingança, louco, sádico e inflexível. À superfície, com o mistério e o thriller à flor da pele, pode ser visto como tal. Mas descascá-lo é descobrir as suas camadas mais profundas, do relato íntimo da primeira pessoa do singular à maravilhosa construção de cada uma das personagens, que rapidamente associamos aos nomes, a rostos imaginados e a personalidades vincadas. Lê-lo é viver ávida e nervosamente o passar da ação, a desconfiança e a busca do culpado, e ao mesmo tempo ver a evolução destas personagens, que vão sendo obrigadas a enfrentar os seus medos e as suas fraquezas mais profundas.

Crítica no Espalha-Factos.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Caminhar no Gelo - Werner Herzog

"Às três da manhã levantei-me e fui até à pequena varanda. Lá fora, tempestade e nuvens pesadas, um cenário enigmático e artificial. Para lá de um declive, via-se o brilho estranho e lívido de Fouday. Sensação de perfeito absurdo. Estará viva ainda, a Eisnerin?" 
'Caminhar no Gelo', Werner Herzog

'Caminhar no gelo', editado em 2011 pela Tinta da China, conta uma história bem mais antiga, do inverno de 1974, quando Werner Herzog partiu de Munique, a pé, e caminhou até Paris em cerca de três semanas. Uma viagem solitária, muito rica e inspiradora e com um propósito muito bonito: impedir a morte de um dos seus ídolos.

Entre 23 de novembro e 14 de dezembro, Werner Herzog percorreu quilómetros e quilómetros, tempestades, nevões e tudo o que se possa imaginar, até chegar à capital francesa. Foi a pé, porque de avião chegaria demasiado depressa e acreditava que, quanto mais tempo demorasse, melhor encontraria Lotte Eisner. Não queria que ela morresse, para ele ela não podia morrer – não agora. Então embarcou nesta viagem e relatou, no seu diário pessoal, todo o percurso que fez.

Crítica no Espalha-Factos.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A Máquina do Tempo - H. G. Wells

"E eu conservei, para meu reconforto, duas estranhas flores brancas - agora murchas, descoradas, secas e frágeis - para testemunhar que quando a inteligência e a força tiverem desaparecido, a gratidão e uma ternura mútua sobreviverão, ainda, no coração do homem e da mulher."
'A Máquina do Tempo', H. G. Wells

H. G. Wells era um visionário, daqueles meio apocalípticos, meio esperançosos na humanidade. A aventura e a ficção científica são a sua praia - daquelas praias em ilhas desertas, que nos fazem explorar o que existe ou não à sua volta. Voltas na cabeça que estes seus livros oferecem, é o que é. 'A Máquina do Tempo' é a aventura alucinante de um homem, num local desconhecido: o seu próprio planeta, muitos milhões de anos depois da época em que vive.

Seguimos o viajante no tempo, anónimo, misterioso, corajoso, através da sua narração pessoal - os seus pensamentos, sentimentos, a percepção do que vai vendo, das figuras com as quais se vai cruzando, dos simpáticos Elóis aos temíveis Morlocks, passando pela pequena Weena. Cruzada com esta narração, a do primeiro narrador, o que conta a história de como o viajante lhe contou a sua viagem. Acreditar ou não num homem que diz ter estado no futuro e voltado?

domingo, 8 de junho de 2014

Manhã Submersa - Vergílio Ferreira

"Sentia que o amor era uma luta e que eu, amarrado de preto, não poderia lutar. A bruscos golpes de cólera, eu erguia-me às vezes sobre o meu desalento. E atirado nela, como numa vergasta, parecia-me que era só abrir a mão para colher o meu sonho de liberdade. Mas o meu esforço esgotava-se antes do fim. Então eu recaía para o meu cansaço e sentava-me à beira da estrada a dizer adeus à vida com o olhar.
'Manhã Submersa', Vergílio Ferreira

Vergílio Ferreira chegou à minha vida para ficar, ao que parece. 'Manhã Submersa' é uma obra de extraordinária profundidade - é bem mais do que se vê à superfície e exige bem mais do que apenas uma leitura para ser minimamente compreendido. Vai ser o objecto de estudo da minha dissertação de mestrado, por isso não quero alongar-me nesta exposição. Contudo, há coisas que têm de ser ditas.

É extraordinário que seja o Borralho de 'Vagão J' a contar esta sua história de infância. É maravilhoso que uma história que podia ser tão linear, de um rapaz de uma família humilde e rural que vai para o Seminário porque ser Padre é o que esperam dele, mas que não tem vocação nem interesse em seguir esse caminho na sua vida, possa ser tão complexa e expandir-se para os seus pensamentos e sentimentos, os seus conflitos mais íntimos, o questionamento de Deus e das coisas.

Não há escrita mais verdadeira, mais pura, que a deste Vergílio Ferreira que escreve de forma tão autobiográfica. Comprado a 0,50€ na Feira da Ladra. Vai ser um prazer que me acompanhe ao longo do próximo ano!