domingo, 27 de abril de 2014

Do livro em papel


"(…) the print-on-paper book has certain qualities that are valued by readers and that the ebook can never capture or reproduce. The book is an aesthetically pleasing form, a work of art in its own right with a stylish cover and attractive design which is gratifying to hold, to open and to own. It is also exceptionally user friendly: nothing is easier than turning the pages of a book and reading clear text on white paper. The eyes are not strained and you can move back and forth with ease. It never runs out of batteries, it never freezes up and it doesn’t break if you drop it. A book, moreover, is a social object: it can be shared with others, borrowed and returned, added to a collection, displayed on a shelf, cherished as something valued by its owner and taken as a sign of who they are and what matters to them, a token of their identity."

John B. Thompson in 'Merchants of Culture': The Publishing Business in the Twenty-First Century'

domingo, 20 de abril de 2014

Aparição - Vergílio Ferreira

"Que era a vida e o seu sonho e as suas conveniências? Ser feliz, ser feliz. Esgotar no instante toda a ferragem e velharia de quantos problemas e interrogações e amarguras."
'Aparição', Vergílio Ferreira

O ritmo alucinante dos pensamentos, a criatividade das descrições e o uso maravilhosamente excessivo de recursos estilísticos na transmissão de emoções tornaram-se, para mim, marcos gritantes da escrita de Vergílio Ferreira, que neste 'Aparição' se exalta - "ao mais alto nível". Não é um livro fácil de engolir, os momentos de 'boca aberta' são frequentes e o cariz existencialista exige um determinado estado de espírito para nos deixarmos envolver, mas é sem dúvida uma das grandes obras e leitura obrigatória da língua portuguesa.

Alfredo é a personagem principal, que narra em constantes analepses a história da sua passagem por Évora, quando se tornou professor no Liceu da cidade. Aí conhece a família Moura, com Sofia a sobressair pela sua 'loucura' e rebeldia, Ana pela sua inteligência e Cristina pela forma mágica como toca piano. Quase nos esquecemos do nome Alfredo, quando este nos leva pelos seus pensamentos e sentimentos, pelo seu entusiasmo ao ver que o aluno Carolino partilha o seu questionamento permanente em relação à vida, até mesmo no momento em que vê o seu grupo de amigos, a sua relativa felicidade e o mundo à sua volta a ruir.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Capitães da Areia - Jorge Amado


"Lá fora, dizia a velha canção, é o sol, a liberdade e a vida. Pela janela Pedro Bala vê o sol. A estrada passa adiante do grande portão do reformatório. Aqui dentro é como se fosse uma eterna escuridão. Lá fora é a liberdade e a vida."
'Capitães da Areia', Jorge Amado

A sobrevivência na liberdade das ruas, a luta na liberdade das mentes. 'Capitães da Areia' capta de forma crua a vida das crianças abandonadas na Bahia, que através de furtos e golpes procuram sobreviver nas ruas da cidade. Pelos temas, pela forma como Jorge Amado relatava as aventuras dos capitães e a sociedade brasileira, não só a obra se torna mais rica como se compreende a sua apreensão durante o Estado Novo. É tudo o que faz dela uma das grandes obras do século XX. 

Pedro Bala chefia o gangue dos Capitães da Areia – todos eles anónimos, todos eles escondidos da polícia, todos eles bastante diferentes entre si: o Professor com o seu sonho de ser pintor, Pirulito com a sua vocação para a Igreja, o Sem-Pernas com o seu feitio difícil. São um gangue de ladrões, mas na verdade não passam de crianças, órfãs, que sem carinho e sem uma casa e uma família se tornaram homens mais depressa.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A Desumanização - Valter Hugo Mãe


"Se alguma das minhas garrafas vier devolvida, atira outra vez. Ninguém precisa de saber que já não estou aqui. Se os mortos forem heróis, vou realizar os teus sonhos. Vou ficar a olhar por ti, mesmo que não me consigas ver. Eu acho que os mortos sabem as coisas todas da escola. Não achas. Não tenhas medo. Não é preciso termos tanto medo, só um bocadinho."
'A Desumanização', de Valter Hugo Mãe

A primeira leitura de um autor é a nossa primeira impressão sobre a sua escrita, a sua capacidade de contar histórias e de nos cativar com elas. 'A Desumanização' foi a minha primeira experiência com Valter Hugo Mãe, o homem que não gosta de usar letras maiúsculas e não obedece a regras de pontuação, mas que põe toda a sua alma no que escreve. Mais do que um romance, é uma ode. À vida para lá da dor, da tristeza, da fuga, da morte. E à escrita. 

 Halla vive algures nos fiordes islandeses, num sítio anónimo, indiferente, onde as pessoas nem sempre são o que parecem e no qual tudo parece morrer aos poucos. Na primeira pessoa, Halla revela-nos o que fica depois da morte da irmã gémea, Sigridur: a dor, a solidão e o desencantamento. Seguimos os seus pensamentos e sentimentos, identificando-nos aos poucos, sendo progressivamente assombrados pela voz de uma menina de apenas doze anos.

Crítica no Espalha-Factos