quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol - Haruki Murakami

"Pousei as mãos no volante e fechei os olhos. Não tinha a sensação de estar dentro do meu próprio corpo; sentia o meu corpo como um recipiente transitório, temporariamente emprestado. Que seria de mim no dia de amanhã?"
'A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol', Haruki Murakami

'A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol' é um romance intensivo sobre a existência humana e o amor, que nos faz questionar a vida que levamos e o que conhecemos de nós mesmos. Haruki Murakami tem o condão de saber explorar o nosso interior e de contrastar o que fazemos, o que dizemos e o que sentimos de uma forma impressionante. Depois de 'Sputnik, Meu Amor', que não cativou por aí além, decidi dar-lhe uma segunda oportunidade. Não me arrependi.

Hajime é o narrador da sua própria história. É filho único, o que é raro nas famílias japonesas da altura, por isso trava mais facilmente amizade com uma rapariga também ela nessa situação. Com Shimamoto, Hajime partilha o interesse pela leitura e pela música e descobre na colega de escola uma pessoa fascinante. A vida afasta-os mas, à medida que vai crescendo e seguindo com a sua vida, Hajime continua a recordar a amiga de infância com saudade, pensando no que as suas vidas podiam ter sido se tivessem mantido o contacto. E um dia, muitos anos depois, na sua vida pacata, Shimamoto reaparece, envolta em mistério e trazendo consigo a recordação do passado. O reencontro ameaça e põe em risco a vida presente de Hajime.

Crítica completa no Espalha-Factos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Bibliotecária de Auschwitz - Antonio G. Iturbe

"Era tão pequena que já quase não se lembra de como era o mundo quando não havia guerra. Tal com esconde os livros debaixo do vestido naquele lugar onde lhe roubaram tudo, assim guarda na cabeça um álbum de fotografias feito de recordações. Fecha os olhos e tenta lembrar-se de como era o mundo quando não existia o medo."
'A Bibliotecária de Auschwitz, Antonio G. Iturbe

O enigmático título abre caminho a uma narração misteriosa, cujas páginas se enchem de dor e sofrimento, mas também de coragem e esperança de sobreviver para contar a história. A Bibliotecária de Auschwitz é uma obra sobre o Holocausto, sobre um bloco particular onde a vida dita ‘normal’ parecia restabelecida e sobre uma mulherzinha que o jornalista espanhol Antonio G. Iturbe descobriu e quis dar a conhecer ao mundo. E ainda bem que o fez. E ainda bem que o conseguiu de uma maneira tão especial.

Dita é a bibliotecária de Auschwitz que dá nome ao livro. É apenas uma rapariguinha, checa, judia, que foi levada para o gueto de Terezín e dali para Auschwitz, onde os mais cientes questionam o porquê da existência de um campo familiar em que, para além do trabalho forçado e dos assassínios em massa nas câmaras de gás, se mantêm vivas mulheres e crianças. A jovem vive rodeada pelos pais, amigas e os SS que observam cada passo que dão; menos no Bloco 31, onde se juntam as crianças para as entreter durante o dia e onde Fredy Hirsch ergueu uma verdadeira escola. Contra todas as expectativas, existem até oito livros em papel, dos quais Dita se torna guardiã e distribuidora, recrutando igualmente ‘livros vivos’ para contarem histórias e ensinarem as crianças. Num campo onde o terror domina, a biblioteca clandestina, que para todos os efeitos nunca existiu, é uma forma de voar para bem longe daquela prisão.

Crítica completa no Espalha-Factos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Da reflexão

Se os livros também servem para pensar e reflectir sobre as coisas, há livros que o fazem de forma especialmente interessante. Estes são dois livros que em nada estão relacionados e, contudo, quis juntá-los nesta pequena análise para explorar como um reflecte sobre o entretenimento e outro entretém através de uma reflexão inteiros que, de certa forma, é vedada ao leitor.

'As Aventuras de Sherlock Holmes' é um conjunto de pequenas histórias, que podiam muito bem ser isoladas, mas que em conjunto constituem episódios das vidas de Sherlock Holmes e do seu amigo Watson, narradas pelo segundo. Watson tem a sua vida já, é médico, casado e não vive no famoso apartamento 221B de Baker Street. No entanto, visita frequentemente Holmes e com ele segue as pistas que levam ao decifrar de inúmeros casos, que só um verdadeiro génio como o detective conseguiria resolver.

As histórias são fascinantes. Não assistimos propriamente à reflexão complexa de Sherlock perante os factos e à sua rápida percepção do que se passa, porque seguimos a visão de Watson. Só quando este, com quem nos identificamos por ser apenas um homem, sem a genialidade do amigo, o questiona sobre como chegou a determinada conclusão é que o nosso "Ah!" se junta ao de Watson e sorrimos com perspicácia do detective. Ler isto na expectativa do regresso da série Sherlock, então, foi do melhor. Imaginar o Benedict Cumberbatch em cada um dos casos era inevitável, por muito que goste do Robert Downey Jr.. A reflexão é overrated, quando Sherlock Holmes nos entretém de forma tão interessante.