sábado, 13 de dezembro de 2014

Singularidades de uma Rapariga Loura - Eça de Queirós

“Existe, no fundo de cada um de nós, é certo, - tão friamente educados que sejamos, - um resto de mysticismo; e basta ás vezes uma paisagem soturna, o velho mudo de um cemiterio, um ermo ascetico, as emollientes brancuras de um luar, - para que esse fundo mystico, suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a idéa, e fique assim o mais mathematico, ou o mais critico - tão triste, tão visionario, tão idealista - como um velho monge poeta.”
'Singularidades de uma Rapariga Loura', Eça de Queirós

Eça é daqueles autores que sabe sempre bem ler. Hoje estava a precisar dele, por entre os textos da faculdade, as séries, os filmes e tudo o mais. E, apesar de não ser fã de ler coisas online, não resisti a este pequeno conto, às suas longas descrições e à triste história de Macário.

Macário era jovem e trabalhava para o seu Tio Francisco quando conheceu Luiza, a rapariga loira que observava à varanda. Apaixonou-se imediatamente e quis casar com ela, mas não tinha dinheiro, por isso foi trabalhar para Cabo Verde. Fez tudo por ela, para poder voltar para ela. Mas Luiza não era a mulher que ele conhecia. E é a história do seu triste amor que conta ao narrador numa estalagem minhota.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Ano Sabático - João Tordo

"Percebeu também que lhe faltava alguma coisa e que essa falta jamais seria colmatada com uma carreira. Percebeu que sempre lhe faltaria alguma coisa; que era incompleto, insuficiente para si mesmo, e que, na verdade, tinha pavor de procurar essa coisa, uma vez que a procura corresponderia ao pior de todos os horrores."
'O Ano Sabático', João Tordo

João Tordo tem o poder de nos horrorizar pela escrita, de nos fazer questionar tudo, sobretudo o que conhecemos e tomamos como garantido, através das suas personagens - sempre incompletas, sempre em busca de algo. É a terceira vez que me assombra, que me deixa com medo de que as minhas palavras não sejam suficientes para fazer justiça à grandiosidade da sua escrita. E não o são.

Hugo, contrabaixista que toca em clubes de jazz, decide voltar à cidade natal, Lisboa, e tirar um 'ano sabático' da sua vida desregrada em Montreal. A busca de alguma paz e equilíbrio transforma-se num beco sem saída, quando assiste ao concerto de um pianista recentemente famoso, Luís Stockman, que toca uma composição que ele próprio anda a magicar há já alguns anos. Não bastando esta coincidência, Hugo começa a ser confundido com o pianista e a questionar a sua identidade, enquanto procura descortinar o mistério da sua existência e da do seu aparente gémeo. Também Stockman o tentará, mais tarde, quando o narrador do romance junta as pontas soltas e cria o seu próprio sentido para esta história.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Vale da Paixão - Lídia Jorge

"Então como era possível que se pudesse continuar, quando se percebia que não iria haver mais nenhuma noite? - Só dispúnhamos de uma única, aquela noite de chuva, e termos a certeza de que estávamos a correr dentro dela, sem a podermos repetir, impedia-nos de a viver. Mas esta noite está rente a essa noite, e ambas são contíguas como se fossem só uma, fechadas entre o sol-posto e o amanhecer- A quem interessa o longo dia que ficou de permeio?"
'O Vale da Paixão', Lídia Jorge

Desconhecer o trabalho de Lídia Jorge fez-me reflectir sobre a enormidade de autores e de literatura portuguesa que ainda tenho para conhecer. Estive para me cruzar com ela no café, mas nunca calhou. Calhou antes cruzar-me com a sua escrita neste 'O Vale da Paixão' e apaixonar-me pela mágoa, pela apatia, pela inevitabilidade das coisas. Do alto da casa de Valmares para a superfície da Terra, onde tudo é sentido com mais intensidade.

A ausência de sinopse parece enunciar a ambiguidade desta história da família Dias, nas suas contradições e desventuras, nas suas personalidades divergentes, na acção escassa que se transforma numa narração muito própria, reflexiva e demorada. Francisco Dias, o patriarca, espera que os filhos emigrantes regressem a casa e se juntem a si. Todos, menos Walter, que não é bem-vindo em Valmares, por ser um "trotamundos" e ter engravidado Maria Ema e fugido de seguida, 'obrigando-a' a casar com o irmão Custódio.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O Papagaio de Flaubert - Julian Barnes

"'Vou ser um rei, ou apenas um porco?', escreveu Gustave no seu Diário Íntimo. Aos dezanove anos parece tão simples como isto. Há a vida e depois há a não-vida; a vida ao serviço da ambição ou a vida de insucesso porcino."
'O Papagaio de Flaubert', Julian Barnes

O regresso a Julian Barnes foi também o regresso a Gustave Flaubert, à sua 'Madame Bovary' e a diversos aspectos curiosos que não conhecia da sua vida e obra. Sempre inspirador, o autor leva-nos por estas histórias, que por nós até podem ser inventadas, mas que aos poucos vão compondo esta personagem estranha e curiosa, que ofereceu ao mundo um dos romances mais belos e trágicos da literatura.

Geoffrey Braithwaite é um inglês fascinado por Gustave Flaubert, que se dirige à sua terra natal, Rouen, para ver o papagaio embalsamado que serviu de modelo ao autor durante a escrita de um dos seus livros. O que inicialmente é apenas uma viagem transforma-se numa verdadeira lição sobre o autor, explorando-se, em capítulos originais, o seu talento, as suas amizades e romances, os seus defeitos, vaidades e medos. O amor, também - o seu pela mulher Ellen, que morreu recentemente, e o de Flaubert e Louise Colet. 'Tudo para concluir que a vida verdadeira é a vida que vem nos livros. Porque é a única que se pode interrogar'.

domingo, 26 de outubro de 2014

Há Mais Mundos - José Régio

"No próprio sonho somos punidos. Que dura a punição? Quando muito, o resto do sonho. Acordamos, tudo se esvai. Era sonho! O nada ficou em nada."
Há Mais Mundos, José Régio

Quando compramos livros, habitualmente, é porque gostamos da sinopse, do autor, ou alguém nos recomendou aquele pedaço de literatura por achar que iríamos gostar. E depois há os raros casos - para mim, pelo menos - em que compramos livros por gostarmos das capas. Nunca me acontece, na verdade, mas desta vez, numa qualquer feira da ladra, foi a capa que me fascinou. Tem algo de D. Afonso Henriques meet Amália Rodrigues, um toque moderno com aquele castelo ao longe, no alto, como se encerrasse toda a dor e toda a esperança da história de Portugal num só desenho.

Comprei-o única e exclusivamente com o coração, por isso (recuperando o post anterior!). Mal dei atenção à sinopse, mal quis saber quem era o autor. Como nunca tinha lido nada de Régio, acabei por achar que seria uma bela maneira de começar. E ao lê-lo deparei-me com uma série de contos, muito diferentes entre si, mas com um toque comum, qualquer coisa que não se vê, qualquer coisa que serve de cola entre cada bocadinho de história, cada personagem bem característica da alma portuguesa. Neste aspecto, a mensagem que a capa me transmite está um bocadinho presente.

O Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro

"Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."
O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro

Saudades de pensar em Fernando Pessoa e nos seus heterónimos; nas suas dicotomias, nos dramas da fragmentação da personalidade, nos seus poemas sentidos. Alberto Caeiro não era o meu favorito - adorava a pujança de Álvaro de Campos e as 'dores' do ortónimo, mas Caeiro ficava à frente do estoicismo de Ricardo Reis que nunca me fascinou senão pela sempre constante, em Pessoa, impossibilidade de escapar às circunstâncias da vida.

Este 'O Guardador de Rebanhos' estava guardadinho na minha estante há muitos anos, a pedir discretamente para ser lido num belo dia de outono. A simplicidade da escrita, a facilidade com que se lê, contrasta com esta primeira pessoa complexa, que não quer pensar, que não quer compreender nada, só viver, e que acaba por pensar tudo como se fosse impossível escapar a esta mediação do pensamento.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Um Escritor Apresenta-se - Vergílio Ferreira

"Alegrias? Dificuldades? A maior alegria de que me lembro, é a de estar vivo; e a maior dificuldade também." 
'Um Escritor Apresenta-se', Vergílio Ferreira

Haverá melhor forma de conhecer um autor (um homem) que não através da sua própria palavra? Vergílio Ferreira escreveu uma série de diários, embora diga sempre que nunca conseguiu mantê-los, que nos oferecem uma visão bastante interessante da sua vida, das suas opiniões, dos locais por onde passou e dos autores e correntes que o foram influenciando. Esta obra, a par de tudo o que escreveu espontaneamente, vem acrescentar ainda mais conhecimento sobre a sua pessoa.

'Vergílio Ferreira responde' - podia ser outro título desta obra, que no fundo compila as suas respostas a algumas questões bastante interessantes: Deus, o existencialismo, os seus livros, questões políticas, etc. Vergílio Ferreira - o homem e o humanista - apresenta-se, de facto, nestas páginas, por vezes repetindo-se (como é normal em entrevistas - e até mostra um equilíbrio e uma certa sinceridade), por outras mostrando como o que tantas vezes nos diz sobre a sua mudança de perspectiva, de tom, de corrente literária se manifesta também numa evolução de convicções e crenças, com a passagem do tempo.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Revisitando Eça e Os Maias


"Caiu-me a alma a uma latrina, preciso de um banho por dentro!"
'Os Maias', Eça de Queiroz

126 anos depois da publicação d' 'Os Maias', chega a aguardada adaptação cinematográfica do romance, às mãos de João Botelho. O cinema português vive no estado que se sabe: poucos fundos, pouco mercado, pouco incentivo cultural, pouca preocupação legislativa. Mas o realizador português pegou numa obra adorada por todos e, mediante escolhas bastante arriscadas, trouxe-a para o grande ecrã da melhor forma que conseguiu: com um leque de actores muito bem escolhido, com um argumento totalmente fiel ao romance e com uma preocupação estética despida de tudo o que é acessório, a começar pelos cenários exteriores pintados. 

Isto fez-me recordar a leitura d' 'Os Maias', sorrir ao relembrar algumas falas icónicas e olhar para a realidade aos olhos de um autor bastante crítico que, à luz da época em que viveu, escreveu uma obra intemporal e inesquecível.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Biografia Involuntária dos Amantes - João Tordo

"Embora eu sentisse que a melancolia de Saldaña Paris era agora a minha, isso não me conferia o direito de remexer no passado a meu bel-prazer; embora eu fosse parcialmente responsável pelo que acontecera, isso não significava que tinha sobre as minhas costas o ónus da demanda da verdade. Pior ainda: se, por algum motivo, eu me convencera de que, escrutinando o que acontecera, poderia remediar o que viria a acontecer, era preciso que o fizesse por ele e nunca por mim."
'Biografia Involuntária dos Amantes', João Tordo

Já o considerava um dos autores mais promissores da literatura portuguesa. Com este romance, sei que é capaz de tudo: João Tordo é daqueles escritores que, por muitos livros bons que tenham, surpreendem sempre e conseguem sempre melhor nos seguintes. Podemos ter as expectativas muito elevadas, que ele consegue superá-las. Consegue ir ainda mais fundo, tocar-nos a alma e mostrar que a literatura pode levar-nos por caminhos que ainda não conhecíamos. E isso é maravilhoso.

'Biografia Involuntária dos Amantes' é a história de Teresa, de Saldaña Paris e do protagonista anónimo, um professor de literatura na Galiza que contacta com as histórias destes dois amantes numa noite escura em que, com este, atropela um javali. A situação despoleta no mexicano a lembrança desta mulher, Teresa, e do manuscrito que esta lhe deixou quando morreu. O professor vai tentar salvar o amigo, que mergulha numa depressão profunda, e, em simultâneo, salvar a sua própria vida, numa viagem de descoberta, de redenção, de busca do equilíbrio da melancolia.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

"Amanhã foi muito bonito": dos livros e da vida

Quando o li pela primeira vez, era uma miúda de 14 anos que nada sabia da vida. E que pouco tinha lido da vida. Não me lembro como aquele livro me veio parar às mãos, é daquelas coisas que acontecem por acaso e que nem sabemos muito bem porque fazemos. Sei que foi comprado completamente ao acaso, porque o autor era desconhecido e apenas se assemelhava, diziam, aos mistérios religiosos que iam sendo tornado famosos um pouco por todo o mundo. Por isso, aqui a Raquel teve curiosidade em pegar nele e ler uma história diferente, mais adulta, mais composta.

E li-a, e deixei-me fascinar por aqueles capítulos quase soltos, que depois se ligavam todos numa intrincada teia de acontecimentos misteriosos. Lembro-me de apontar alguns nomes de personagens e pequenas histórias dentro da história, para tentar ligá-las e fazer algum sentido naquilo que lia. Era uma miúda, ainda estava a aprender a interpretar a leitura. Mas consegui ver o sentido, consegui lê-lo de uma assentada e apaixonar-me pelas personagens. Via-as na minha cabeça, sobretudo ela, loira e corajosa, jornalista e aventureira (gostava de ser como ela), e ele, muito moreno, forte e determinado, como se nada lhe metesse medo.

A vida tem destas coisas estranhas e, três anos depois, foi a vez de, num momento de iluminação inconsciente, ir parar àquela rede de pessoas que a mudou para sempre. Conheci pessoas maravilhosas que ainda hoje fazem parte da minha vida, algumas delas bem próximas. E contactei pela primeira vez com ele – eu, uma miúda de 17 anos, tímida e fã, que não o conseguia tratar por tu e ainda pensava duas vezes nas palavras que usava quando se dirigia a uma pessoa que considerava tão ilustre. Um livro fez-me isso; os que se lhe seguiram, ao longo dos anos, só derrubaram (num sentido positivo) esse pedestal em que o colocara, para o colocar num outro: o da admiração profunda, como escritor e ser humano – como amigo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Mudança - Vergílio Ferreira

"- Pode saber-se agora porque nos batemos?
Carlos revirou um olho cansado no escuro:
- É corajoso, amigo. Quer saber, quer tomar uma posição. É ter coragem. Gosto disso, caramba."
'Mudança', Vergílio Ferreira

Cada vez me apaixono mais por Vergílio Ferreira. Li ontem algo sobre a escrita ser o espelho da alma de um autor, ainda que esta possa estar fragmentada, como as diversas 'personalidades' de Fernando Pessoa. Vergílio Ferreira também tem esse hibridismo fascinante - e este 'Mudança' representa o maior espelho desta ambiguidade, entre o neorealismo da sua primeira fase literária e um pensamento algo existencialista que começa a adoptar nos seus 30 anos. Como marco desta mudança muito própria, é um romance maravilhoso!

O protagonista é Carlos Bruno, que vive rodeado pelo pai, o Tio Manuel, a mulher Berta, o sogro Cardoso, e ainda Gaviarra, o meio irmão Pedro e o engenheiro Raul. Enquanto o Tio e Gaviarra são dois inconscientes, que vivem a vida sem preocupações de maior, Pedro é o exacto oposto de Carlos - ou, pelo menos, da pessoa que Carlos se vai tornando, com um raciocínio negativista, só, criando problemas só porque isso significa pensar nas coisas. A mudança acontece no próprio Carlos (que às vezes é só Bruno, o que ajuda a confundir-nos e a confundi-lo!), como no autor desta personagem tão complexa.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O Teu Rosto Será o Último - João Ricardo Pedro

"E, enquanto o outro se mirava ao espelho, o ilustre médico descobria, naquele homem vindo sabem Deus e o Diabo donde, talvez das margens do Guadiana pela forma de falar, naquele desgraçado que não tinha onde cair morto e que talvez por isso mesmo caíra ali, um inesperado reflexo de si próprio."
'O Teu Rosto Será o Último', João Ricardo Pedro

O melhor de 'O Teu Rosto Será o Último', para mim, é a sinceridade da escrita, a naturalidade com que cada pensamento nos é transmitido através do discurso indirecto livre, da prosa cuidada. Um autor 'desconhecido' que, através do prémio LeYa'11, se dá a conhecer, e muito bem, aos portugueses. E que, sem saber, nos oferece uma nova forma de ver os livros e a literatura :)

É a história do Dr. Augusto Mendes, do seu filho António, do seu neto Duarte, e das suas esposas também: a D. Laura, a Paula, a Luísa 'namorada' do Duarte. É a história do Celestino, mas também do Policarpo, do Índio, do professor de piano, da professora de canto, da mulher de muletas ou do barbeiro Alcino. O fio condutor é a família Mendes, que dá o mote para a descoberta de uma época histórica, de mil histórias diferentes e maravilhosas que, juntas, criam uma aura de mistério e curiosidade no leitor.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Diário Inédito - Vergílio Ferreira

"Minha Gina: vou hoje começar um diário para ti. (...) Tu sabes que um diário é sempre falso. Nós somos quase sempre falsos até mesmo quando pensamos, porque o pensar é já um desnudar-se uma pessoa perante si mesma."
'Diário Inédito', Vergílio Ferreira

Já andava em ânsias para ter este livro nas mãos e poder ter um cheirinho de Vergílio Ferreira por Vergílio Ferreira, neste seu registo mais pessoal. 'Diário Inédito' é composto por registos escritos entre 1944 e 1949, numa idade em que o autor estava exactamente na fase de descoberta de um novo estilo para a sua escrita - entre o neo realismo e uma espécie de existencialismo 'crítico' que aqui já enuncia.

É difícil falar de um livro que não tem uma história, mas muitas; que não tem um fio condutor, é antes um aglomerar de pensamentos dispersos, de histórias, poemas e até declarações de amor. Todo o diário é, em parte uma declaração do autor à esposa Regina - começa por sê-lo, pelo menos, mas com o tempo torna-se mais um exercício mental de Vergílio Ferreira, e ao mesmo tempo um diário/diário, até tendo em vista a sua posterior publicação (que ele próprio não admite na sua escrita).

domingo, 14 de setembro de 2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Medida do Mundo - Daniel Kehlmann

"Queria investigar a vida, compreender a estranha tenacidade com que ela abarcava o globo. Queria descobrir as suas artimanhas!"
'A Medida do Mundo', Daniel Kehlmann

Medir o mundo era o objectivo destes dois homens muito diferentes, tanto ou mais que os métodos que utilizavam para o fazer. 'A Medida do Mundo' acompanha as suas histórias, de pequenos génios a cientistas de renome, a velhos já ultrapassados no domínio da ciência, quando se tornam amigos apesar de todas as diferenças. Apesar de sobrevalorizado, não deixa de ser uma obra interessante e que nos oferece, de forma bem disposta, um pouco de história sobre estes homens pouco conhecidos do grande público.

Humboldt é o oposto do irmão mais velho, ligado às letras e às profissões ditas nobres. O mais novo prefere observar o mundo, viajar por todo o lado. Não dorme, não tem vida própria, apenas observa, escreve e descobre. Por seu lado, Gauss é descoberto com apenas 8 anos e desde essa tenra idade que desenvolve a sua genialidade matemática, escrevendo a obra da sua vida aos 20 anos. Prefere a comodidade da sua casa, da sua secretária, em lugar de se aventurar pelo mundo, mas ao mesmo tempo apaixona-se (por duas mulheres), casa e tem filhos, ainda que os considere burros, como a toda a gente. O livro começa com o encontro entre os dois alemães em Berlim, em 1828, revisitando depois as suas vidas.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O Príncipe das Marés - Pat Conroy

"O meu coração pertence aos pântanos. A criança que ainda existe em mim traz consigo as recordações daqueles dias em que, antes do amanhecer, tirava os caranguejos do rio Colleton, dias em que a vida do rio me moldou, ao mesmo tempo, criança e sacerdote das marés."
'O Príncipe das Marés', Pat Conroy

De volta às leituras de Verão, mas esta bastante mais consistente, pesada e trágica que as anteriores. Pat Conroy apresenta-nos 'O Príncipe das Marés', numa edição do ano em que nasci e que agora peguei para conhecer mais a fundo. As imagens mentais tocaram-me tanto ou mais que as oferecidas pelo filme, pela sua simplicidade, pela dor que transmitem. E foram seis dias intensos de leitura, nos quais mal consegui tirar os olhos das palavras estampadas no papel.

Os Wingos são uma família da Carolina do Sul, mais precisamente da ilha Melrose, onde Tom, Luke e Savannah foram criados. Casado e com três filhas, Tom conta agora à psiquiatra da irmã, de seu nome Susan Lowenstein, episódios da sua infância que podem ajudar a salvar Savannah dos seus demónios interiores, ao mesmo tempo que procura aliviar a dor de algumas memórias reprimidas - e ao mesmo tempo que, entre ele e Susan, vai nascendo uma cumplicidade que pode salvar ambos da estagnação e da neutralidade em que as suas vidas mergulharam.


domingo, 7 de setembro de 2014

Vagão J - Vergílio Ferreira

"Quem vem pôr um fim à história dos Borralhos? Ela não acabou ainda e não se sabe já onde foi que começou. Talvez, António Borralho, tu a escrevas um dia. Tu ao menos descobriste que tinhas inteligência, tu sabes o que sois, o que sempre tendes sido."
'Vagão J', Vergílio Ferreira

Um dos livros de Vergílio Ferreira censurados durante o Estado Novo, sobretudo pela exposição da miséria social e da categorização da sociedade. Gosto que esta edição, para além de ser a original, contenha o relatório de censura e nos transporte de forma tão vívida, através de uma escrita limpa, simples e realista, para a realidade desta família pobre. São os Borralhos, sabe-se lá porquê.

Têm fama de ser ladrões, por isso aproveitam-se disso. Vivem todos na mesma casa, dormem todos juntos, nascem mais Borralhos a toda a hora, roubam, aproveitam-se dos poderosos, andam à porrada e só uma das crianças vai à escola. São uma família que conta os tostões para sobreviver, que nega aos filhos o mínimo prazer, que quer até que o patriarca morra para ser menos um fardo para a família empobrecida. Não há limites para a indecência, para a imoralidade. E através deste retrato vai mostrando como a sociedade portuguesa da época vivia sem condições para o fazer, sem tornar os Borralhos coitadinhos, porque são ladrões e assassinos e animais.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

The Sense of an Ending - Julian Barnes

"All this is looking ahead. What you fail to do is look ahead, and then imagine yourself looking back from that future point. Learning the new emotions that time brings. Discovering, for example, that as the witnesses to your life diminish, there is less corroboration, and therefore less certainty, as to what you are or have been."
'The Sense of an Ending', Julian Barnes

'The Sense of an Ending' é uma viagem pela história, o tempo e a memória, numa reflexão íntima de um homem na casa dos 60 anos que é confrontado com um passado que recorda de forma muito particular. Foi a minha primeira vez com Julian Barnes e não podia ter corrido melhor: caiu-me tudo a cada revelação, senti que cada palavra tinha o seu lugar na história e compreendi de forma exímia a capacidade do autor nos levar pelos caminhos misteriosos da memória.

Tony Webster e o seu grupo de amigos conheceram Adrian Finn no liceu, um rapaz claramente mais inteligente do que eles, com as suas teorias intelectuais e filosóficas e uma palavra pertinente para todas as situações. Já na faculdade, Tony namora com Veronica, que, depois de uma separação difícil, acaba a namorar com Adrian. Mas este desaparece de forma abrupta e inexplicável - tirando a sua própria vida - e Tony, 40 anos depois, conta-nos a história à luz da sua memória destes anos de juventude. Quando a mãe de Veronica morre e lhe deixa alguns itens em herança, Tony revive toda esta história - agora à luz da percepção de Veronica e do próprio Adrian -, descobrindo pormenores que não lembrava e um remorso que nunca esperara sentir.

A Virgem Cigana - Santa Montefiore

"Recuei, em vez disso, àquele Verão no château, quando Coiote tinha vindo ter connosco, com o seu mistério e a sua magia, e transformara as nossas vidas. Tinha dado amor e sarado o passado. Ensinara-me a confiar, e eu entregara-lhe o meu coração, a minha alma, a minha fé; tudo o que tinha."
'A Virgem Cigana', Santa Montefiore

No Verão, leituras de Verão. É mesmo aquela época em que não nos importamos de ler os guilty pleasures todos, na praia ou a caminho do trabalho, só para desanuviar a mente. E este 'A Virgem Cigana' é um exemplo disso. Faz lembrar o 'Chocolate' de Joanne Harris - que, embora nunca tenha lido, associo sempre ao filme - e ao mesmo tempo marca-nos pelos pequenos pormenores que rodeiam a história - e que nada têm a ver nem com esse romance, nem com o quadro que lhe dá nome.

Mischa e a mãe vivem num château numa vila de Bordéus, praticamente isolados e até mal vistos pela comunidade por o rapaz ser filho de um soldado alemão morto na guerra. Quando Coiote, um americano charmoso e dócil, chega à vila e se apaixona pela mãe, Mischa ganha uma nova confiança: volta a ter voz, faz amizades e até vai à escola. O americano muda as suas vidas de tal forma que os leva para Júpiter, nos EUA, para começarem uma nova vida, até que os abandona para sempre e Mischa se perde numa vida que não é a sua.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O Monte dos Ventos Uivantes - Emily Brontë


"- Por amor de Deus! - interrompeu Catherine, batendo o pé. - Não falemos nisso agora! O teu sangue-frio não pode engendrar a febre; nas tuas veias corre água gelada, mas as minhas fervem, e a tua frieza enlouquece-me."

'O Monte dos Ventos Uivantes', Emily Brontë

Na senda de Jane Austen, o romance inglês de época sempre me fascinou. Sempre tive curiosidade de ler as irmãs Brontë e finalmente encontrei a oportunidade a 0,50€ ou 1€ na Feira da Ladra (já nem me lembro bem). Mais cedo ou mais tarde teria de o pegar da minha estante e desafiar-me a ler as letras pequeninas do exemplar da Europa-América - que de brasileiro não tem nada, apenas uma linguagem de época muito vincada. E peguei!

O Sr. Lockwood habita na Herdade dos Tordos, actualmente também propriedade do dono do Monte dos Vendavais, o Sr. Heathcliff. É Nelly, a governanta, que lhe conta a história das duas mansões, das famílias às quais elas pertenciam e toda a tragédia do amor de Catherine e Heathcliff, que o tornou um ser execrável e quase sem alma, transformando e transtornando tudo e todos à sua volta, ao longo da sua vida.

É uma história de amores e desamores, de famílias, duelos e gerações. De coisas que vão e vêm, como se o tempo fosse realmente cíclico e a vida fosse uma repetição constante de passados.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Nenhum Olhar - José Luís Peixoto

A primeira leitura de José Luís Peixoto. Não era um dos livros da minha wishlist, mas era o que estava à mão. 'Nenhum Olhar' é uma história com histórias, de pessoas, de épocas, de repetições - muitas repetições. É um romance para ser lido e assimilado com calma, a cada pensamento mais fugaz, mas que se repete; a cada erro, olhar ou pensamento mais demorado.

José ouve as palavras do Diabo mas não quer acreditar que a mulher está com o Gigante. 30 anos mais tarde é o seu filho, também José, que está com a mulher do primo Salomão, avisado pelo Diabo no mesmo café onde todos os parecem olhar de lado. E à sua volta estão personagens como os gémeos Elias e Moisés e Gabriel, o centenário que atravessa as duas épocas como se o tempo não passasse por ele. É o mais sábio, o mais consciente, o melhor conselheiro e o melhor homem.

Na escrita de Peixoto não há discurso direto se não em pensamentos corridos, não há um narrador presente nem um narrados ausente - há ambos, porque são vários os narradores e variadas as formas sob as quais estes surgem no romance. Num momento as palavras são de uma personagem, no seguinte são de outra. Confundimo-nos, voltamos atrás, reflectimos. Nem sempre é uma caminhada má, esta de dar uns passinhos atrás antes de avançar. 

domingo, 22 de junho de 2014

A Espuma dos Dias - Boris Vian

"Abraça-me. Tenho frio. É desta neve..."
'A Espuma dos Dias', Boris Vian

Já conhecia a história deste 'A Espuma dos Dias', pelo filme de Michel Gondry lançado no ano passado. E o que aconteceu foi, a cada palavra, também pela cinematografia de cada descrição, recordar cada frame, cada cenário, cada imagem do filme: as cores, os momentos mais marcantes. Boris Vian leva-nos para um mundo completamente novo - e a verdade é que me fez compreender de forma diferente o filme, apesar de bastante fiel à sua imaginação louca.

Colin é um bon vivant, rico, que não trabalha porque não precisa e porque não gosta, que vive entre os cozinhados de Nicolas, as músicas de Duke Ellington, as festas de aniversário abastadas e os passeios em ringues de patinagem. Quando conhece Cloé, o seu mundo ganha um novo sentido: quer amá-la, casar com ela, torná-la feliz. Mas Cloé adoece logo após o casamento e Colin perde o seu dinheiro, Chick esbanja tudo a comprar livros de Partre em vez de casar com Alise, Nicolas envelhece e o mundo como antes conheciam parece ir morrendo aos poucos também.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Bom Inverno - João Tordo

Era, pensei então, o balão mais triste de sempre, e Metzger, provavelmente, o primeiro homem na História que, depois de morto, subia em direcção ao céu em vez de descer às entranhas da terra, fazendo do ar o seu sepulcro e das nuvens pálidas do Lácio os seus anjos coléricos do infortúnio.
'O Bom Inverno', João Tordo

Quando os livros são ricos e tocantes, todas as palavras parecem poucas para os descrever; todas as interpretações parecem cruéis para a sua perfeição. 'O Bom Inverno', de João Tordo, é um desses livros. Com ele subimos no balão e não queremos voltar a pôr os pés no chão. Sentimo-nos num inverno agreste e, ao mesmo tempo, num verão caloroso. Tememos a página seguinte mas não conseguimos parar de ler. Chegamos ao fim e sentimos uma tranquilidade desassossegada, de que só as grandes obras são capazes.

(...) Começa com uma morte, tem todos os ingredientes de um policial: um crime, vários possíveis culpados e um homem que procura vingança, louco, sádico e inflexível. À superfície, com o mistério e o thriller à flor da pele, pode ser visto como tal. Mas descascá-lo é descobrir as suas camadas mais profundas, do relato íntimo da primeira pessoa do singular à maravilhosa construção de cada uma das personagens, que rapidamente associamos aos nomes, a rostos imaginados e a personalidades vincadas. Lê-lo é viver ávida e nervosamente o passar da ação, a desconfiança e a busca do culpado, e ao mesmo tempo ver a evolução destas personagens, que vão sendo obrigadas a enfrentar os seus medos e as suas fraquezas mais profundas.

Crítica no Espalha-Factos.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Caminhar no Gelo - Werner Herzog

"Às três da manhã levantei-me e fui até à pequena varanda. Lá fora, tempestade e nuvens pesadas, um cenário enigmático e artificial. Para lá de um declive, via-se o brilho estranho e lívido de Fouday. Sensação de perfeito absurdo. Estará viva ainda, a Eisnerin?" 
'Caminhar no Gelo', Werner Herzog

'Caminhar no gelo', editado em 2011 pela Tinta da China, conta uma história bem mais antiga, do inverno de 1974, quando Werner Herzog partiu de Munique, a pé, e caminhou até Paris em cerca de três semanas. Uma viagem solitária, muito rica e inspiradora e com um propósito muito bonito: impedir a morte de um dos seus ídolos.

Entre 23 de novembro e 14 de dezembro, Werner Herzog percorreu quilómetros e quilómetros, tempestades, nevões e tudo o que se possa imaginar, até chegar à capital francesa. Foi a pé, porque de avião chegaria demasiado depressa e acreditava que, quanto mais tempo demorasse, melhor encontraria Lotte Eisner. Não queria que ela morresse, para ele ela não podia morrer – não agora. Então embarcou nesta viagem e relatou, no seu diário pessoal, todo o percurso que fez.

Crítica no Espalha-Factos.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A Máquina do Tempo - H. G. Wells

"E eu conservei, para meu reconforto, duas estranhas flores brancas - agora murchas, descoradas, secas e frágeis - para testemunhar que quando a inteligência e a força tiverem desaparecido, a gratidão e uma ternura mútua sobreviverão, ainda, no coração do homem e da mulher."
'A Máquina do Tempo', H. G. Wells

H. G. Wells era um visionário, daqueles meio apocalípticos, meio esperançosos na humanidade. A aventura e a ficção científica são a sua praia - daquelas praias em ilhas desertas, que nos fazem explorar o que existe ou não à sua volta. Voltas na cabeça que estes seus livros oferecem, é o que é. 'A Máquina do Tempo' é a aventura alucinante de um homem, num local desconhecido: o seu próprio planeta, muitos milhões de anos depois da época em que vive.

Seguimos o viajante no tempo, anónimo, misterioso, corajoso, através da sua narração pessoal - os seus pensamentos, sentimentos, a percepção do que vai vendo, das figuras com as quais se vai cruzando, dos simpáticos Elóis aos temíveis Morlocks, passando pela pequena Weena. Cruzada com esta narração, a do primeiro narrador, o que conta a história de como o viajante lhe contou a sua viagem. Acreditar ou não num homem que diz ter estado no futuro e voltado?

domingo, 8 de junho de 2014

Manhã Submersa - Vergílio Ferreira

"Sentia que o amor era uma luta e que eu, amarrado de preto, não poderia lutar. A bruscos golpes de cólera, eu erguia-me às vezes sobre o meu desalento. E atirado nela, como numa vergasta, parecia-me que era só abrir a mão para colher o meu sonho de liberdade. Mas o meu esforço esgotava-se antes do fim. Então eu recaía para o meu cansaço e sentava-me à beira da estrada a dizer adeus à vida com o olhar.
'Manhã Submersa', Vergílio Ferreira

Vergílio Ferreira chegou à minha vida para ficar, ao que parece. 'Manhã Submersa' é uma obra de extraordinária profundidade - é bem mais do que se vê à superfície e exige bem mais do que apenas uma leitura para ser minimamente compreendido. Vai ser o objecto de estudo da minha dissertação de mestrado, por isso não quero alongar-me nesta exposição. Contudo, há coisas que têm de ser ditas.

É extraordinário que seja o Borralho de 'Vagão J' a contar esta sua história de infância. É maravilhoso que uma história que podia ser tão linear, de um rapaz de uma família humilde e rural que vai para o Seminário porque ser Padre é o que esperam dele, mas que não tem vocação nem interesse em seguir esse caminho na sua vida, possa ser tão complexa e expandir-se para os seus pensamentos e sentimentos, os seus conflitos mais íntimos, o questionamento de Deus e das coisas.

Não há escrita mais verdadeira, mais pura, que a deste Vergílio Ferreira que escreve de forma tão autobiográfica. Comprado a 0,50€ na Feira da Ladra. Vai ser um prazer que me acompanhe ao longo do próximo ano!

domingo, 27 de abril de 2014

Do livro em papel


"(…) the print-on-paper book has certain qualities that are valued by readers and that the ebook can never capture or reproduce. The book is an aesthetically pleasing form, a work of art in its own right with a stylish cover and attractive design which is gratifying to hold, to open and to own. It is also exceptionally user friendly: nothing is easier than turning the pages of a book and reading clear text on white paper. The eyes are not strained and you can move back and forth with ease. It never runs out of batteries, it never freezes up and it doesn’t break if you drop it. A book, moreover, is a social object: it can be shared with others, borrowed and returned, added to a collection, displayed on a shelf, cherished as something valued by its owner and taken as a sign of who they are and what matters to them, a token of their identity."

John B. Thompson in 'Merchants of Culture': The Publishing Business in the Twenty-First Century'

domingo, 20 de abril de 2014

Aparição - Vergílio Ferreira

"Que era a vida e o seu sonho e as suas conveniências? Ser feliz, ser feliz. Esgotar no instante toda a ferragem e velharia de quantos problemas e interrogações e amarguras."
'Aparição', Vergílio Ferreira

O ritmo alucinante dos pensamentos, a criatividade das descrições e o uso maravilhosamente excessivo de recursos estilísticos na transmissão de emoções tornaram-se, para mim, marcos gritantes da escrita de Vergílio Ferreira, que neste 'Aparição' se exalta - "ao mais alto nível". Não é um livro fácil de engolir, os momentos de 'boca aberta' são frequentes e o cariz existencialista exige um determinado estado de espírito para nos deixarmos envolver, mas é sem dúvida uma das grandes obras e leitura obrigatória da língua portuguesa.

Alfredo é a personagem principal, que narra em constantes analepses a história da sua passagem por Évora, quando se tornou professor no Liceu da cidade. Aí conhece a família Moura, com Sofia a sobressair pela sua 'loucura' e rebeldia, Ana pela sua inteligência e Cristina pela forma mágica como toca piano. Quase nos esquecemos do nome Alfredo, quando este nos leva pelos seus pensamentos e sentimentos, pelo seu entusiasmo ao ver que o aluno Carolino partilha o seu questionamento permanente em relação à vida, até mesmo no momento em que vê o seu grupo de amigos, a sua relativa felicidade e o mundo à sua volta a ruir.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Capitães da Areia - Jorge Amado


"Lá fora, dizia a velha canção, é o sol, a liberdade e a vida. Pela janela Pedro Bala vê o sol. A estrada passa adiante do grande portão do reformatório. Aqui dentro é como se fosse uma eterna escuridão. Lá fora é a liberdade e a vida."
'Capitães da Areia', Jorge Amado

A sobrevivência na liberdade das ruas, a luta na liberdade das mentes. 'Capitães da Areia' capta de forma crua a vida das crianças abandonadas na Bahia, que através de furtos e golpes procuram sobreviver nas ruas da cidade. Pelos temas, pela forma como Jorge Amado relatava as aventuras dos capitães e a sociedade brasileira, não só a obra se torna mais rica como se compreende a sua apreensão durante o Estado Novo. É tudo o que faz dela uma das grandes obras do século XX. 

Pedro Bala chefia o gangue dos Capitães da Areia – todos eles anónimos, todos eles escondidos da polícia, todos eles bastante diferentes entre si: o Professor com o seu sonho de ser pintor, Pirulito com a sua vocação para a Igreja, o Sem-Pernas com o seu feitio difícil. São um gangue de ladrões, mas na verdade não passam de crianças, órfãs, que sem carinho e sem uma casa e uma família se tornaram homens mais depressa.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A Desumanização - Valter Hugo Mãe


"Se alguma das minhas garrafas vier devolvida, atira outra vez. Ninguém precisa de saber que já não estou aqui. Se os mortos forem heróis, vou realizar os teus sonhos. Vou ficar a olhar por ti, mesmo que não me consigas ver. Eu acho que os mortos sabem as coisas todas da escola. Não achas. Não tenhas medo. Não é preciso termos tanto medo, só um bocadinho."
'A Desumanização', de Valter Hugo Mãe

A primeira leitura de um autor é a nossa primeira impressão sobre a sua escrita, a sua capacidade de contar histórias e de nos cativar com elas. 'A Desumanização' foi a minha primeira experiência com Valter Hugo Mãe, o homem que não gosta de usar letras maiúsculas e não obedece a regras de pontuação, mas que põe toda a sua alma no que escreve. Mais do que um romance, é uma ode. À vida para lá da dor, da tristeza, da fuga, da morte. E à escrita. 

 Halla vive algures nos fiordes islandeses, num sítio anónimo, indiferente, onde as pessoas nem sempre são o que parecem e no qual tudo parece morrer aos poucos. Na primeira pessoa, Halla revela-nos o que fica depois da morte da irmã gémea, Sigridur: a dor, a solidão e o desencantamento. Seguimos os seus pensamentos e sentimentos, identificando-nos aos poucos, sendo progressivamente assombrados pela voz de uma menina de apenas doze anos.

Crítica no Espalha-Factos

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol - Haruki Murakami

"Pousei as mãos no volante e fechei os olhos. Não tinha a sensação de estar dentro do meu próprio corpo; sentia o meu corpo como um recipiente transitório, temporariamente emprestado. Que seria de mim no dia de amanhã?"
'A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol', Haruki Murakami

'A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol' é um romance intensivo sobre a existência humana e o amor, que nos faz questionar a vida que levamos e o que conhecemos de nós mesmos. Haruki Murakami tem o condão de saber explorar o nosso interior e de contrastar o que fazemos, o que dizemos e o que sentimos de uma forma impressionante. Depois de 'Sputnik, Meu Amor', que não cativou por aí além, decidi dar-lhe uma segunda oportunidade. Não me arrependi.

Hajime é o narrador da sua própria história. É filho único, o que é raro nas famílias japonesas da altura, por isso trava mais facilmente amizade com uma rapariga também ela nessa situação. Com Shimamoto, Hajime partilha o interesse pela leitura e pela música e descobre na colega de escola uma pessoa fascinante. A vida afasta-os mas, à medida que vai crescendo e seguindo com a sua vida, Hajime continua a recordar a amiga de infância com saudade, pensando no que as suas vidas podiam ter sido se tivessem mantido o contacto. E um dia, muitos anos depois, na sua vida pacata, Shimamoto reaparece, envolta em mistério e trazendo consigo a recordação do passado. O reencontro ameaça e põe em risco a vida presente de Hajime.

Crítica completa no Espalha-Factos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Bibliotecária de Auschwitz - Antonio G. Iturbe

"Era tão pequena que já quase não se lembra de como era o mundo quando não havia guerra. Tal com esconde os livros debaixo do vestido naquele lugar onde lhe roubaram tudo, assim guarda na cabeça um álbum de fotografias feito de recordações. Fecha os olhos e tenta lembrar-se de como era o mundo quando não existia o medo."
'A Bibliotecária de Auschwitz, Antonio G. Iturbe

O enigmático título abre caminho a uma narração misteriosa, cujas páginas se enchem de dor e sofrimento, mas também de coragem e esperança de sobreviver para contar a história. A Bibliotecária de Auschwitz é uma obra sobre o Holocausto, sobre um bloco particular onde a vida dita ‘normal’ parecia restabelecida e sobre uma mulherzinha que o jornalista espanhol Antonio G. Iturbe descobriu e quis dar a conhecer ao mundo. E ainda bem que o fez. E ainda bem que o conseguiu de uma maneira tão especial.

Dita é a bibliotecária de Auschwitz que dá nome ao livro. É apenas uma rapariguinha, checa, judia, que foi levada para o gueto de Terezín e dali para Auschwitz, onde os mais cientes questionam o porquê da existência de um campo familiar em que, para além do trabalho forçado e dos assassínios em massa nas câmaras de gás, se mantêm vivas mulheres e crianças. A jovem vive rodeada pelos pais, amigas e os SS que observam cada passo que dão; menos no Bloco 31, onde se juntam as crianças para as entreter durante o dia e onde Fredy Hirsch ergueu uma verdadeira escola. Contra todas as expectativas, existem até oito livros em papel, dos quais Dita se torna guardiã e distribuidora, recrutando igualmente ‘livros vivos’ para contarem histórias e ensinarem as crianças. Num campo onde o terror domina, a biblioteca clandestina, que para todos os efeitos nunca existiu, é uma forma de voar para bem longe daquela prisão.

Crítica completa no Espalha-Factos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Da reflexão

Se os livros também servem para pensar e reflectir sobre as coisas, há livros que o fazem de forma especialmente interessante. Estes são dois livros que em nada estão relacionados e, contudo, quis juntá-los nesta pequena análise para explorar como um reflecte sobre o entretenimento e outro entretém através de uma reflexão inteiros que, de certa forma, é vedada ao leitor.

'As Aventuras de Sherlock Holmes' é um conjunto de pequenas histórias, que podiam muito bem ser isoladas, mas que em conjunto constituem episódios das vidas de Sherlock Holmes e do seu amigo Watson, narradas pelo segundo. Watson tem a sua vida já, é médico, casado e não vive no famoso apartamento 221B de Baker Street. No entanto, visita frequentemente Holmes e com ele segue as pistas que levam ao decifrar de inúmeros casos, que só um verdadeiro génio como o detective conseguiria resolver.

As histórias são fascinantes. Não assistimos propriamente à reflexão complexa de Sherlock perante os factos e à sua rápida percepção do que se passa, porque seguimos a visão de Watson. Só quando este, com quem nos identificamos por ser apenas um homem, sem a genialidade do amigo, o questiona sobre como chegou a determinada conclusão é que o nosso "Ah!" se junta ao de Watson e sorrimos com perspicácia do detective. Ler isto na expectativa do regresso da série Sherlock, então, foi do melhor. Imaginar o Benedict Cumberbatch em cada um dos casos era inevitável, por muito que goste do Robert Downey Jr.. A reflexão é overrated, quando Sherlock Holmes nos entretém de forma tão interessante.