quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Nossa Senhora de Paris - Victor Hugo

"Caiu de joelhos, com a cabeça sobre o leito, as mãos postas sobre a cabeça, cheia de ansiedade e de tremuras, e, apesar de cigana, idólatra e pagã, começou a pedir, soluçando, misericórdia ao bom Deus cristão e a rezar a Nossa Senhora, sua hospedeira. Porque mesmo que não se creia em coisa nenhuma, há ocasiões na vida em que se professa sempre a religião do templo que se encontra mais próximo."
'Nossa Senhora de Paris', Victor Hugo

Andava para ler Victor Hugo desde a pancada que tive pelo 'Os Miseráveis', mas que infelizmente não me conseguiu levar a ler mais que 200 das 1200 páginas que tem. Uma particularidade dos seus livros é serem extensos, descritivos e muitas vezes, como este, com capítulos que nada têm a ver com a acção, com a história e a ficção, quase como ensaios e visões do autor sobre a sociedade. Este 'Nossa Senhora de Paris" atraiu a minha atenção, por ser a inspiração de um maravilhoso filme da Disney, por ser sobre Paris e, enfim, por ser do grandioso Hugo. Era impossível desiludir, e não o fez!

Quasímodo vive na Igreja de Nossa Senhora de Paris (Notre-Dame!), surdo, coxo, cego de um olho, odiado por todos, responsável pelos sinos do local sagrado e protegido pelo arcediago Cláudio Frollo. Esmeralda é uma cigana que dança na rua, juntamente com a sua cabra Djali. Apaixona-se pelo capitão Febo e desperta a paixão do padre, que é levado ao crime, e do sineiro, que a protegerá eternamente. O poeta Gringoire e os vagabundos de Paris rodeiam-na, nesta tragédia histórica passada na Idade Média.

"- Sabeis o que é a amizade? 
- Sei. - respondeu a egípcia. 
- É ser irmão e irmã; duas almas que se tocam sem se confundirem; os dois dedos da mão. 
- E o amor? - prosseguiu Gringoire. 
- Oh! O amor! - proferiu ela, em voz trémula e olhar radioso. - É serem dois e não ser senão um. Um homem e uma mulher que se fundem num anjo. É o céu."

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Leituras da 'escola'

Nos últimos meses tenho-me dedicado a algo que pensei nunca vir a gostar: ler livros teóricos sobre comunicação, clássicos de estudos na área da sociologia e da tecnologia, livros práticos sobre marketing também. Tem sido uma experiência enriquecera - e embora não os consiga resumir e analisar tão bem, quero lembrá-los com algum suporte escrito.

'BrandSense: Os Segredos Sensoriais que nos levam a Comprar', de Matin Lindstrom, é uma viagem sensorial pela forma como algumas marcas fazem uso dos diversos sentidos na sua comunicação, ou não. Mostra os benefícios da utilização dos cheiros e do som, por exemplo, em lugar da primazia dada à imagem, à visualidade, nos tempos que correm. A relação marca-cliente pode tornar-se muito mais rica através da experiência sensorial que deve proporcionar para se distinguir. A abordagem é criativa e os casos práticos que nos oferece são interessantes e, muitas vezes, surpreendentes. Mas a escrita que procura ser próxima do leitor torna-se quase digna de um blog de auto-ajuda, bastante repetitiva, e a criatividade depressa se torna uma espiral de clichés. Fica a ideia de que há muito por explorar no marketing actual e que não há limites para a imaginação!


'The Structural Transformation of the Public Sphere: An Inquiry Into a Category of Bourgeois Society' é o livro de Jürgen Habermas que devia ter lido na licenciatura e não tive tempo nem cabeça, coisa que agora tive, juntando-lhe uma vontade enorme de conhecer o trabalho do autor à volta do conceito de esfera pública. É a obra que continua a acompanhá-lo, ainda que muitos defendam ser desactualizada - a verdade é que o próprio Habermas se apercebe do fracasso desta esfera pública na contemporaneidade, com a transformação da publicidade. É interessante percebermos as dinâmicas sociais que estiveram na origem de todas estas mudanças, o lugar dos media como propulsores das mesmas, positiva e negativamente, e os ideias do Iluminismo, a razão, a crítica, o debate, como actuais expectativas sociais, mais do que ideiais a concretizar. Lê-se de uma assentada, com uma escrita envolvente, apesar de puramente teórico. Um must read!