quinta-feira, 30 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Lê!


"Os benefícios vão desde a memória e do aumento da plasticidade do cérebro à melhoria das relações interpessoais e da empatia, passando, até, pela redução da pressão arterial."

É o que dizem vários novos estudos sobre os benefícios da leitura para a saúde, sobretudo quando se lê desde tenra idade. Ajuda a prevenir a doença de Alzheimer, a promover o raciocínio, a construir padrões e conhecimentos e ainda a aliviar o stress, a curto-prazo.

"As histórias têm um início, um meio e um fim, uma estrutura que encoraja os nossos cérebros a pensar em sequência, a associar causa, efeito e significado". "Num jogo podemos ter de salvar uma princesa, mas não queremos saber dela, só queremos ganhar. Mas, num livro, a princesa tem um passado, um presente e um futuro, tem relações e motivações. Podemos identificar-nos com ela."

E não só (e isto já não vem escrito em lado nenhum). É bom saber que a leitura faz bem à saúde, já que nos faz tão bem ao coração. Distrai-nos, aquece-nos, ensina-nos a viver. Faz duplamente bem ao cérebro, a nível físico e a nível psicológico. Há alguma dúvida entre ler ou não ler? Quem não o faz só tem a perder. Um livro por dia... :)

Fonte: Ler com regularidade é benéfico para a saúde

Dr. Strangelove ou como aprendi a não me aborrecer e a amar a bomba - Peter George

Mais um livro que vale bem mais do que paguei por ele - 50 cêntimos na feira da ladra. 'Dr. Strangelove ou como aprendi a não me aborrecer e a amar a bomba' é daqueles obras macabras de tão reais, que nos fazem reflectir acerca do mundo que nos rodeia - neste caso, sobretudo, no que diz respeito ao progresso. E, curiosidade das curiosidades, é um livro baseado num filme (de Kubrick), que por sua vez se baseou num livro do mesmo autor, Red Alert. Teias engraçadas.

Não vi o filme, mas a fluidez do livro não parece muito diferente. Peter George ofereceu-o a Kubrick, por ter gostado tanto da sua adaptação (é o que diz a Wikipedia!). 'Dr. Strangelove' (para resumir o título) passa-se durante a Guerra Fria, quando um General americano dá a ordem para atacar alvos soviéticos sem autorização do Presidente. A acção desenrola-se tanto na Sala de Guerra do Pentágono, como na Base Aérea de Burpelson, como ainda no Gafaria, um dos bombardeiros que segue a sua missão.

O progresso tem as suas vantagens e durante o período da "guerra sem guerra" este foi maior do que nunca, sobretudo a nível militar. Hiroshima foi apenas o início de algo que poderá ainda ser muito pior, tendo em conta o potencial destas grandes potências (passo a redundância). 'Potencial' é a palavra chave, dado que, historicamente, sempre se viveu no terror de uma guerra a sério, evitando-se a utilização destes mesmos avanços. Na obra de Peter George, essa utilização é efectivada através de uma ordem dada por alguém que é considerado "maluco" por o ter feito, sem explicação nem plano.

O que um homem só pode provocar no mundo - aqui reside o verdadeiro perigo e a ameaça que representa o progresso, que o autor pretende demonstrar na obra. Um simples 'erro' humano pode mudar o curso da história da humanidade. Particularmente quando o Juízo Final existe e nada nem ninguém o pode controlar. É tudo uma questão de confiança, ou de falta dela, já que a própria 'guerra' se baseia nisso. Mas como se pode confiar num ser que erra?

sábado, 18 de agosto de 2012

Madame Bovary - Gustave Flaubert

"Ah! Bem vê que eu tinha razão para não voltar - disse ele com voz melancólica -, pois esse nome, o nome que enche a minha alma e que deixei escapar, vejo que mo proíbe! Madame Bovary!... Toda a gente pode chamar-lhe assim!... Mas não é o seu nome; é o nome de outro!"
'Madame Bovary', Gustave Flaubert

Há quem lhe chame uma obra prima, e com razão. 'Madame Bovary' não é apenas uma história de adultério, é todo um romance acerca de uma mulher infeliz e eternamente insatisfeita, que à custa de tentar conquistar algo mais na vida acaba por ir perdendo as poucas coisas que tem. A história do julgamento de Flaubert e a não aceitação da obra à época ainda a tornam mais fascinante, pelo conhecimento dos hábitos e da sociedade que nos proporciona.

O romance realista conta a história de Charles Bovary, que se apaixona por Emma e a desposa. Quando se mudam para Yonville, uma pequena aldeia em França, Emma começa a aperceber-se da vulgaridade da vida provinciana e procura novas sensações, junto de dois homens que conhece e por quem se apaixona: Léon e Rodolphe. Gasta mais do que pode, endivida-se para ascender socialmente... No entanto, nunca consegue atingir a verdadeira felicidade que leu nos livros e com a qual sonhava e o ciclo vicioso leva a um trágico fim, 'à ópera' - o único possível!

"Repetia a si mesma: 'Tenho um amante! Um amante!', e deliciava-se ante esta ideia, como se uma nova puberdade lhe tivesse sobrevindo. Era pois certo que ia possuir enfim as alegrias do amor, essa febre da felicidade de que ela já desesperava."

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Histórias do Fim da Rua - Mário Zambujal

"Muitas partes aconteceram em cinquenta e seis anos gemidos e gozados. É tempo. Tudo tem o seu fim, até esta rua manhosa mas catita."
'Histórias do Fim da Rua', Mário Zambujal

'Histórias do Fim da Rua' é, como o título indica, uma espécie de colectânea de histórias sobre uma rua, sim, mas sobre tanto mais que a vida daquela rua engloba. Entre a inevitabilidade e a esperança, joga-se a vida através de diversos narradores, que vão contando e espelhando, à sua maneira, o que a rua e as pessoas significam para si.

A alternância entre personagens é, para mim, um ponto de destaque no romance de Zambujal, um autêntico contador de histórias, como já o sabemos. Sempre na primeira pessoa, por vezes falando também de outros ausentes, as vozes sucedem-se na narrativa, dando o seu quinhão para este pedacinho de memória de uma rua que está prestes a chegar ao fim, dado que vão deitar abaixo aquele pequeno bairro para construir uma nova estrada. Algo que pode acontecer a qualquer altura.

"Sou um céptico dos astros, das cartas, da palma da mão, e não disponho, para os trovões, de tradutor etrusco. Encontro-me, assim, numa desconfortável incerteza quanto ao acerto ou cabeçada das decisões que vou tomar. Tomei-as já. O jogo da vida é este, palpita-se, arrisca-se, em cada dia as emoções do jogador, esperança e medo, o gosto de apanhar, o prejuízo de uma opção errada."

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queirós

"Como a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha – todos eles, se a História e a Lenda não mentiam, de vidas tão triunfais e sonoras!"
'A Ilustre Casa de Ramires', Eça de Queirós

Não precisamos de grandiosas epopeias para exaltar o orgulho português. A prosa irónica e alegórica de Eça de Queirós também serve bem esse propósito, de forma simples e directa, mas tão inteligente, tão rebuscada. A história d'O Fidalgo da Torre de Santa Ireneia dá o mote para uma caracterização de Portugal aos olhos da geração do final do século XIX, sempre sob a maravilhosa pena de Eça. 'A Ilustre casa de Ramires' (e dos Ramires! de ontem e de hoje).

Gonçalo Mendes Ramires é o herdeiro da casa de Ramires que dá nome à obra, família aristocrata mais antiga que Portugal. Depois de terminar o curso em Coimbra, regressa a Vila Clara, no interior de Portugal, onde passa o tempo com os seus amigos e visita, de vez em quando, a cidade de Oliveira e a irmã Gracinha. Gonçalo ambiciona ser deputado e reabilitar a sua condição de fidalgo, pelo que aceita o convite de um amigo para escrever uma novela sobre um antepassado seu, Tructesindo Ramires.

Uma diversidade de conflitos e narrativas cruza-se nesta 'A Ilustre Casa de Ramires'. Por um lado é a vida provinciana de Vila Clara, de Gonçalo na sua Torre; por outro é a novela histórica que o aristocrata escreve sobre o seu antepassado, fantasiada (dado o carácter lendário), muitas vezes sem darmos conta da transição de uma para a outra. É curiosa a vida ociosa e mesquinha de Gonçalo, sempre em jantaradas com Titó, Videirinha e João Gouveia, os seus amigos de sempre. Em comparação com estes seus antepassados de feitos gloriosos, ele não é ninguém. E essa ideia atravessa toda a obra.