sábado, 21 de julho de 2012

As palavras de Dorian Gray


‎"Exercer influência sobre um homem qualquer é dar-lhe a nossa própria alma. Ele não pensa com o seu próprio pensamento, nem arde com as suas paixões naturais. As suas virtudes não são para ele reais. O seus pecados, se é que são pecados, são emprestados. Torna-se eco da música alheia, actor de um papel que não foi escrito para ele."

"Quando os nossos olhos de encontraram, senti-me empalidecer. Empolgou-me uma curiosa sensação de terror. Eu sabia que se me deparara alguém cuja mera personalidade me fascinava a tal ponto que, se eu o permitisse, absorveria toda a minha natureza, toda a minha alma, a minha própria arte."

"Consciência e cobardia são, na realidade, uma e a mesma coisa, Basil. A consciência é o nome da firma."

"Sim, senhor Gray, os deuses foram-lhe propícios. Mas o que os deuses dão, depressa o tiram. Tem apenas alguns anos para viver real, perfeita e plenamente. Quando passar a sua mocidade, segui-la-á a sua beleza, e depois descobrirá de repente que não lhe resta mais triunfo algum, ou terá de se contentar com esses mesquinhos triunfos que a recordação do seu passado tornará mais amargos do que derrotas."


terça-feira, 10 de julho de 2012

Terna é a Noite - F. Scott Fitzgerald

"Tu costumavas criar e agora dá a impressão de que só destróis"
'Terna é a Noite', F. Scott Fitzgerald

Este 'Tender is the Night' foi o meu primeiro contacto com Fitzgerald, de quem sempre tivera curiosidade de ler alguma coisa. Só posso dizer que foi uma boa primeira impressão, com uma história nada simples, nada leve, que em muito se identifica com a própria vida do autor. É por tudo isso um romance pesado, invariavelmente descritivo e explosivo - mas com uma sensibilidade cativante, verdadeiramente vindo do coração.

No centro uma doença: a esquizofrenia. Nasce numa clínica suíça uma paixão entre médico e paciente, desde logo condenada a uma eterna relação nesses termos - um homem a cuidar da sua esposa. Apesar de todo o amor que os unia e da família (biológica e de amizades) que construíram, a determinada altura, Dick e Nicole começam a compreender tudo o que a vida não lhes deu, e o desejo de mudança faz-se sentir de muitas maneiras diferentes.

Dir-se-ia, no início do romance, que a história superficial de um homem casado que se deixa seduzir por uma jovem actriz seria a trama da obra em questão. Ou mais: que Rosemary Hoyt seria a nossa heroína, salvando Dick de um casamento que já dera tudo o que tinha a dar. Como tudo se torna diferente quando, chegados à segunda parte, compreendemos quem são o homem e a mulher por detrás da máscara da alta sociedade, também aqui criticados por Fitgerald, seja com Mary North ou o casal Mckisco. Como estes se tornam o centro da história e controlam todo o seu rumo.

domingo, 1 de julho de 2012

O Mistério da Estrada de Sintra - Eça e Ortigão

“Desde que amei, a minha vida foi um desequilíbrio perpétuo. Não era voluntariamente que eu cedia à atracção, era com uma repugnância altiva. Mil coisas choravam dentro de mim, sofria sobretudo o orgulho. Era impossível fazer com ele uma conciliação. Reagiu sempre, protesta ainda. Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim, esbofeteia-me o coração.”
'O Mistério da Estrada de Sintra', Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão iludiram Lisboa com a história de um crime denunciado nas páginas de um jornal, no que é considerado o primeiro policial português. O génio dos autores mostra-se na escrita, na profundidade das personagens criadas e na crónica de costumes já habitual da geração de 70, aqui bem evidente. Uma excelente obra, uma intriga intemporal, sobre os amores e desamores da sociedade.

O suspense funciona na perfeição neste 'O Mistério da Estrada de Sintra', desde o momento em que os dois amigos são raptados e levados para uma casa desconhecida, até à verdadeira descoberta de quem matou o homem encontrado na casa de Sintra, como e porquê. Revela-se toda uma nova história através da publicação dos relatos no jornal, tomada por todos como verdadeira, talvez numa primeira (mas forte) crítica à sociedade da época, apática e sem valores, precisando de algo em que acreditar. Agitá-la era o seu principal objectivo.

As personagens de Eça e Ortigão são de uma profundidade envolvente, verdadeiramente densas, modeladas, muito ricas. Uma Cármen que, por amar, perde todas as suas forças; uma condessa que se deixa engolir pela ilusão, primeiro, e depois pelo arrependimento; o seu primo que procura ajudar todos e salvar as honras de todos, e acaba por se perder numa teia de histórias que não são suas. Até o doutor tem um papel fundamental na narrativa, com o qual o leitor se identifica, sabendo apenas o que este relata. Todas anónimas e fictícias, e ao mesmo tempo personagens tão reais.

O silêncio também é feito de palavras

'É tão fundo o silêncio' - e as palavras que o quebram merecem ser homenageadas. Quem melhor do que José Saramago para ser homenageado também nesta apologia da escrita, da poesia, da transmissão de um interior para o papel? Pilar del Rio e Miguel Gonçalves Mendes juntaram-se numa interessante conversa acerca da dimensão poética da obra de Saramago e da sua própria vida, revelando algumas curiosidades acerca do homem que nos deixou há mais de dois anos - com tanto ainda para dar à escrita.

Adorava ler poesia, desde clássicos a autores contemporâneos, mas sabia que não era excelente a escrevê-la, por isso não se dedicou a ela. O mesmo com o desenho e a pintura. Não o lamentava, diz Pilar: as coisas são como são, não vale a pena lamentá-las. Diz também Miguel que, para Saramago, não existia o drama romântico da página em branco para um escritor: se não se sentia inspirado, voltava a ela mais tarde. O romantismo não fazia parte de si.

A leitura de ficção científica é outro ponto muito curioso. Para além de toda a pesquisa histórica que fazia para os seus livros, a pesquisa na sua própria imaginação de novas formas de ficção científica é também bastante óbvia. Basta recordar a passarola de 'O Memorial do Convento' ou o cenário apocalíptico de 'O Ensaio Sobre a Cegueira', ou ainda o dia em que ninguém ninguém morreu em 'As Intermitências da Morte'. A sua obra está recheada de pequenas coisas que nos parecem impossíveis mas que se misturam com a realidade com uma suavidade incrível.