sábado, 28 de abril de 2012

A Arte de Ler


Um rapaz, nos seus quinze, dezasseis anos, vinha no metro acompanhado pela mãe. Tinham estado na Feira do Livro de Lisboa, traziam sacos com livros acabadinhos de comprar. O rapaz tirou de um dos sacos um livro antigo, com as páginas já escurecidas pelo tempo. Começou a falar de forma entusiasmada sobre a obra, como começa e termina, e por isso supus que já o tivesse lido. "Ele vai adorar esse livro, então", disse a mãe. Tratava-se de 'A Arte de Furtar', de autor desconhecido.

Não foi o livro que me chamou a atenção, nem sequer o facto de ser uma compra de alfarrabista da feira. Foi, sim, o entusiasmo do rapaz com a leitura; a forma como falava apaixonadamente do livro e cativava quem o podia ouvir, no metro, incluindo eu própria. É tão bonito quando se observa esta paixão pelos livros, quando nos deixamos embrenhar por eles, esquecendo tudo o resto.

O livro em si também me ficou na cabeça. Já tinha ouvido falar, mas sabia pouco acerca deste 'A Arte de Furtar'. O autor 'Anónimo', diz-se, pode ter sido o Padre António Vieira, mas acredito que parte da magia esteja também neste desconhecimento. A wikipedia conta coisas engraçadas acerca da obra. E quando voltar à feira do livro, andarei à procura dele nos alfarrabistas. É certo.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

coração e cabeça

"Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como o sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas."


in 'Coração, Cabeça e Estômago', Camilo Castelo Branco

(porque foi Dia Mundial do Livro e não tinha dito nada <3)

25 a Sete Vozes

É 25 de Abril e apetece-me recomendar um livro sobre o tema, que até pode ser devorado ao longo da tarde do feriado: 'Vinte Cinco a Sete Vozes', de Alice Vieira. Li-o há alguns anos, depois tentei adquirir o hábito de o ler em todos os dias 25 de Abril, eventualmente coloquei-o na prateleira. Mas sei que está lá e que, um dia, valerá a pena ser relido. Talvez hoje, talvez daqui a um ano.

A Alice Vieira tem esta particularidade - que acho muito linda - de contar uma história para adultos como quem conta uma história para crianças, ou, melhor dizendo, o inverso: contar uma história como se fosse para crianças, mas sendo um pouco para todas as idades, adaptando-se a todos os leitores. Este 'Vinte Cinco a Sete Vozes', como o título indica, é o relato de sete pessoas de idades, profissões e vivências diversas, de três gerações, sobre a revolução.

É curiosa a forma como, através das questões de uma investigadora, vamos descobrindo o que pensam estas pessoas do 25 de Abril, como o viveram, o que sabem acerca dele. E para além do cliché que é os jovens saberem pouco e os pais lembrarem-se vagamente do dia, temos também pais que não ligaram muito à revolução, bem como jovens interessados pelo tema. E um avô, claro, que se lembra bem do antes e do depois e viveu de forma particularmente consciente e emocionante a mudança política.

Recomenda-se, pela simplicidade da escrita e o que miúdos e graúdos podem aprender com a leitura. E porque estas histórias dos avós são sempre enriquecedoras. E porque é dia 25 de Abril e qualquer recordação do mítico dia é bonita.

domingo, 1 de abril de 2012

Jane em palavras

Já que estamos numa de Jane Austen, apetece-me partilhar a bela nota biográfica que Henry Austen, o seu irmão, escreveu como prefácio da edição de 'Northanger Abbey e Persuasão' - depois da sua morte. É uma grande homenagem à autora, à sua vida, às suas obras, mas também à forma como encarou a morte aos quarenta e poucos anos. E que mulher que foi.

É um texto verdadeiramente comovente. Se não era genética, pelo menos a veia da escrita trespassou de Jane para o irmão, neste texto, que representa a dor, o amor e sobretudo o orgulho de alguém que a conheceu profundamente. Vale a pena ler.

Persuasão - Jane Austen

“Com certeza que, se existir afecto constante de ambos os lados, os nossos corações terão de se compreender em breve. Não somos um rapaz e uma rapariga, para sermos capciosamente susceptíveis, iludidos por qualquer inadvertência momentânea e brincarmos caprichosamente com a nossa felicidade.
'Persuasão', Jane Austen

É o último romance acabado de Jane Austen, que não viveu para o ver publicado, nem sequer para o intitular. 'Persuasão' é uma obra pouco complexa, tendo como pano de fundo uma crítica à sociedade do século XIX, com uma heroína sensata e uma bonita história de amor, num jogo de persuasões e ilusões que nos leva de uma ponta à outra do romance mais depressa do que inicialmente esperávamos. E, no meio de tudo isto, sobressai Anne Elliott. É impossível não gostar dela.

Sob o olhar atento de Anne, Austen caracteriza e caricatura, como é nela habitual, algumas das personagens do romance. É o caso das próprias irmãs, fúteis, mesquinhas, mais preocupadas com a condição social do que com o intelecto – sobretudo a mais velha, Elizabeth. O mesmo acontece com o pai, um baronete falido para quem importam apenas a aparência, a opinião alheia e as boas companhias.

É no seio da própria família que Anne parece mais incompreendida, e compreendida por nós, leitores. Anne é terna, inteligente, com um coração amável e uma mente sonhadora, mas também bastante perspicaz e terra a terra. Aos 27 anos, permanece por casar e mostra já um amadurecimento próprio da idade, que lhe dá uma perspetiva ponderada da realidade. Ao longo de todo o romance, colocamo-nos no lugar de Anne, tal como Jane a criou à sua imagem, e é muito fácil apreciarmos o seu bom senso, a sua personalidade tão própria.