sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Leituras de Natal

É tempo de pôr as leituras em dia, apesar de haver outras responsabilidades. Apetece lê-los todos de uma assentada, acabar os que tínhamos deixado a meio e começar logo a pensar nos seguintes que queremos ler. Há tempo para tudo! O meu Natal foi isso mesmo - e ainda o está a ser. Aventura: ler 'Contos de Natal', de Charles Dickens, em dois ou três dias (os dias de Natal, vá). Challenge accepted and completed!

'Contos de Natal' inclui a conhecida história de Scrooge, 'Um Conto de Natal', e ainda 'Os Carrilhões' e 'Um Grilo na Lareira'. São três contos maravilhosos sobre a sociedade da época, sobre o amor e a amizade, a importância da riqueza e da família nas nossas vidas, um pouco à semelhança de toda a escrita de Dickens. Tudo isto acompanhado pela visualização da adaptação televisiva de 'Grandes Esperanças' e foi uma semana agradavelmente natalícia e dickensiana, na companhia das suas belas histórias. 

Enquanto 'Um Conto de Natal' me fez pensar, novamente, que é tudo menos uma história para crianças e que o Natal não é uma época, mas sim um estado de espírito (e quanto mais permanente, melhor), 'Os Carrilhões' mostra que nem sempre o que nos parece, é, e que às vezes temos o poder de mudar as coisas (ou não). Já 'Um Grilo na Lareira', mais leve e banal, acaba por ser a que mais próxima está de nós - e que inclui um bocadinho de tudo o que vimos nas outras duas: a mesma paixão, a mesma dor, as mesmas questões sociais.

Acabar livros que deixámos a meio, pois bem. 'Um Homem não Chora' estava à espera da minha leitura para aí desde setembro ou outubro - a vida não tem sido fácil. Mas soube bem voltar a pegar nesta obra de Luís de Sttau Monteiro, achá-la ainda mais parecida com a escrita humorística de Mário Zambujal, e descobrir uma outra história no final do livro, 'Pôr-do-sol no Areeiro', que desconhecia por completo. Às vezes as coisas simples são as que mais têm o poder de nos tocar, e esta história triste, honesta, dolorosa de um homem infeliz, que já não ama a esposa e quer separar-se dela a todo o custo, não podia ser mais simplesmente pesada. 

domingo, 7 de outubro de 2012

a 'camera lucida' de Barthes

"As imagens são mais vivas do que as pessoas"

Às vezes temos surpresas agradáveis com livros que temos de ler para algumas disciplinas, e  'A Câmara Clara' de Barthes foi uma delas. É o homem, Roland, que escreve, reflectindo acerca da Fotografia, com F maiúsculo, dado tudo o que o seu surgimento e o seu carácter misterioso significam. Mais do que uma imagem, uma fotografia é algo que aconteceu e que não se repetirá; é alguém que foi, mesmo que já não o seja; é a vida e a morte, é a história e em simultâneo a alucinação. Barthes mostra-nos tudo isto através de imagens e palavras, levando-nos também a reflectir acerca deste dispositivo.

É a clareza com que transmite as suas ideias que cativa, em primeiro lugar, com uma escrita fluida e coerente que quase se assemelha a um discurso falado, um monólogo com o seu interior. O que relata é a sua experiência como Spectator perante uma fotografia, na qual todos observamos mais ou menos mesmo studium, mas cada um, individualmente, descobre o seu punctum, o pormenor que fere e que atrai a atenção.

Barthes vê a fotografia como forma de prolongar a vida, ou escapar à morte, dado que a fotografia em si, ao imobilizar um momento, é imortal. Contudo, as suas reflexões filosóficas perdem-se entre a vida e a morte, no noema "isto-foi", no referente fotográfico, no passado que foi real e no real que já não é o passado. A não ficcionalidade da imagem fotográfica não deixa de confundir a memória, numa peculiar relação com o tempo que a "coloca às claras", mas sempre misteriosamente por desvendar.

Compara-a com o cinema, elevando a sua especificidade e capacidade de revelar a verdade, ainda que não necessariamente a realidade. Fala aberta e afectuosamente da mãe, de como a procurou reencontrar em fotografias antigas e apenas numa a conseguiu ver verdadeiramente, sem máscaras, quase sem medium. Desfaz-se em pensamentos fundamentados e apaixonantes sobre a fotografia, tornando-se impossível não fechar o livro por momentos e pensar no que lemos, nas fotografias que conhecemos, até mesmo na vida que temos, no tempo e na recordação.

Uma maravilhosa viagem e uma bonita surpresa neste início de ano lectivo, sem dúvida a abrir novos horizontes!

sábado, 8 de setembro de 2012

Sensibilidade e Bom Senso - Jane Austen

"Minha querida Elinor. Não deixes que a tua bondade defenda o que a tua razão deve censurar."
'Sensibilidade e Bom Senso', Jane Austen

'Sensibilidade e Bom Senso' é a história de duas irmãs com caracteres diferentes, mas mais parecidas do que parecem e se consideram. No seu primeiro romance, Jane Austen abre as portas ao seu mundo, à sociedade do seu tempo, e sobretudo à sua capacidade de contar histórias. Com muito bom senso, mas sobretudo com muita paixão e sensibilidade.

Elinor e Marianne são duas das filhas de Mrs. Dashwood, jovens com pouca riqueza mas muita personalidade. A primeira, mais velha, mais sensata, é a voz da razão tanto da irmã mais nova, sempre instintiva e emocional, como da mãe, de quem Marianne herdou este carácter. Apesar de naturalmente mais alegre e expressiva, é vulnerável no que toca às questões do coração. Mas Elinor, apesar da sua sensatez, da sua ponderação, também não escapa aos amores e desamores que Jane Austen retrata no livro. Por Edward e Willoughby, apesar de todas as aparentes certezas que lhes são dadas, as duas raparigas acabam por sofrer por amor.

É pouco mais do que uma história banal, esta sua procura de um casamento por amor, apesar de todas as condicionantes económicas e sociais. Mas é esta sociedade em que esta situação tão específica se encontra envolta que nos leva a querer saber mais sobre estas personagens e o seu desfecho - porque nos parece insólito, muitas vezes, que um homem abdique do amor em nome da riqueza, por exemplo, ou porque acreditamos que as nossas personagens vão conseguir ultrapassar todos os obstáculos e viver a vida que pretendem. Pelo menos assim queremos acreditar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Lê!


"Os benefícios vão desde a memória e do aumento da plasticidade do cérebro à melhoria das relações interpessoais e da empatia, passando, até, pela redução da pressão arterial."

É o que dizem vários novos estudos sobre os benefícios da leitura para a saúde, sobretudo quando se lê desde tenra idade. Ajuda a prevenir a doença de Alzheimer, a promover o raciocínio, a construir padrões e conhecimentos e ainda a aliviar o stress, a curto-prazo.

"As histórias têm um início, um meio e um fim, uma estrutura que encoraja os nossos cérebros a pensar em sequência, a associar causa, efeito e significado". "Num jogo podemos ter de salvar uma princesa, mas não queremos saber dela, só queremos ganhar. Mas, num livro, a princesa tem um passado, um presente e um futuro, tem relações e motivações. Podemos identificar-nos com ela."

E não só (e isto já não vem escrito em lado nenhum). É bom saber que a leitura faz bem à saúde, já que nos faz tão bem ao coração. Distrai-nos, aquece-nos, ensina-nos a viver. Faz duplamente bem ao cérebro, a nível físico e a nível psicológico. Há alguma dúvida entre ler ou não ler? Quem não o faz só tem a perder. Um livro por dia... :)

Fonte: Ler com regularidade é benéfico para a saúde

Dr. Strangelove ou como aprendi a não me aborrecer e a amar a bomba - Peter George

Mais um livro que vale bem mais do que paguei por ele - 50 cêntimos na feira da ladra. 'Dr. Strangelove ou como aprendi a não me aborrecer e a amar a bomba' é daqueles obras macabras de tão reais, que nos fazem reflectir acerca do mundo que nos rodeia - neste caso, sobretudo, no que diz respeito ao progresso. E, curiosidade das curiosidades, é um livro baseado num filme (de Kubrick), que por sua vez se baseou num livro do mesmo autor, Red Alert. Teias engraçadas.

Não vi o filme, mas a fluidez do livro não parece muito diferente. Peter George ofereceu-o a Kubrick, por ter gostado tanto da sua adaptação (é o que diz a Wikipedia!). 'Dr. Strangelove' (para resumir o título) passa-se durante a Guerra Fria, quando um General americano dá a ordem para atacar alvos soviéticos sem autorização do Presidente. A acção desenrola-se tanto na Sala de Guerra do Pentágono, como na Base Aérea de Burpelson, como ainda no Gafaria, um dos bombardeiros que segue a sua missão.

O progresso tem as suas vantagens e durante o período da "guerra sem guerra" este foi maior do que nunca, sobretudo a nível militar. Hiroshima foi apenas o início de algo que poderá ainda ser muito pior, tendo em conta o potencial destas grandes potências (passo a redundância). 'Potencial' é a palavra chave, dado que, historicamente, sempre se viveu no terror de uma guerra a sério, evitando-se a utilização destes mesmos avanços. Na obra de Peter George, essa utilização é efectivada através de uma ordem dada por alguém que é considerado "maluco" por o ter feito, sem explicação nem plano.

O que um homem só pode provocar no mundo - aqui reside o verdadeiro perigo e a ameaça que representa o progresso, que o autor pretende demonstrar na obra. Um simples 'erro' humano pode mudar o curso da história da humanidade. Particularmente quando o Juízo Final existe e nada nem ninguém o pode controlar. É tudo uma questão de confiança, ou de falta dela, já que a própria 'guerra' se baseia nisso. Mas como se pode confiar num ser que erra?

sábado, 18 de agosto de 2012

Madame Bovary - Gustave Flaubert

"Ah! Bem vê que eu tinha razão para não voltar - disse ele com voz melancólica -, pois esse nome, o nome que enche a minha alma e que deixei escapar, vejo que mo proíbe! Madame Bovary!... Toda a gente pode chamar-lhe assim!... Mas não é o seu nome; é o nome de outro!"
'Madame Bovary', Gustave Flaubert

Há quem lhe chame uma obra prima, e com razão. 'Madame Bovary' não é apenas uma história de adultério, é todo um romance acerca de uma mulher infeliz e eternamente insatisfeita, que à custa de tentar conquistar algo mais na vida acaba por ir perdendo as poucas coisas que tem. A história do julgamento de Flaubert e a não aceitação da obra à época ainda a tornam mais fascinante, pelo conhecimento dos hábitos e da sociedade que nos proporciona.

O romance realista conta a história de Charles Bovary, que se apaixona por Emma e a desposa. Quando se mudam para Yonville, uma pequena aldeia em França, Emma começa a aperceber-se da vulgaridade da vida provinciana e procura novas sensações, junto de dois homens que conhece e por quem se apaixona: Léon e Rodolphe. Gasta mais do que pode, endivida-se para ascender socialmente... No entanto, nunca consegue atingir a verdadeira felicidade que leu nos livros e com a qual sonhava e o ciclo vicioso leva a um trágico fim, 'à ópera' - o único possível!

"Repetia a si mesma: 'Tenho um amante! Um amante!', e deliciava-se ante esta ideia, como se uma nova puberdade lhe tivesse sobrevindo. Era pois certo que ia possuir enfim as alegrias do amor, essa febre da felicidade de que ela já desesperava."

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Histórias do Fim da Rua - Mário Zambujal

"Muitas partes aconteceram em cinquenta e seis anos gemidos e gozados. É tempo. Tudo tem o seu fim, até esta rua manhosa mas catita."
'Histórias do Fim da Rua', Mário Zambujal

'Histórias do Fim da Rua' é, como o título indica, uma espécie de colectânea de histórias sobre uma rua, sim, mas sobre tanto mais que a vida daquela rua engloba. Entre a inevitabilidade e a esperança, joga-se a vida através de diversos narradores, que vão contando e espelhando, à sua maneira, o que a rua e as pessoas significam para si.

A alternância entre personagens é, para mim, um ponto de destaque no romance de Zambujal, um autêntico contador de histórias, como já o sabemos. Sempre na primeira pessoa, por vezes falando também de outros ausentes, as vozes sucedem-se na narrativa, dando o seu quinhão para este pedacinho de memória de uma rua que está prestes a chegar ao fim, dado que vão deitar abaixo aquele pequeno bairro para construir uma nova estrada. Algo que pode acontecer a qualquer altura.

"Sou um céptico dos astros, das cartas, da palma da mão, e não disponho, para os trovões, de tradutor etrusco. Encontro-me, assim, numa desconfortável incerteza quanto ao acerto ou cabeçada das decisões que vou tomar. Tomei-as já. O jogo da vida é este, palpita-se, arrisca-se, em cada dia as emoções do jogador, esperança e medo, o gosto de apanhar, o prejuízo de uma opção errada."

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queirós

"Como a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha – todos eles, se a História e a Lenda não mentiam, de vidas tão triunfais e sonoras!"
'A Ilustre Casa de Ramires', Eça de Queirós

Não precisamos de grandiosas epopeias para exaltar o orgulho português. A prosa irónica e alegórica de Eça de Queirós também serve bem esse propósito, de forma simples e directa, mas tão inteligente, tão rebuscada. A história d'O Fidalgo da Torre de Santa Ireneia dá o mote para uma caracterização de Portugal aos olhos da geração do final do século XIX, sempre sob a maravilhosa pena de Eça. 'A Ilustre casa de Ramires' (e dos Ramires! de ontem e de hoje).

Gonçalo Mendes Ramires é o herdeiro da casa de Ramires que dá nome à obra, família aristocrata mais antiga que Portugal. Depois de terminar o curso em Coimbra, regressa a Vila Clara, no interior de Portugal, onde passa o tempo com os seus amigos e visita, de vez em quando, a cidade de Oliveira e a irmã Gracinha. Gonçalo ambiciona ser deputado e reabilitar a sua condição de fidalgo, pelo que aceita o convite de um amigo para escrever uma novela sobre um antepassado seu, Tructesindo Ramires.

Uma diversidade de conflitos e narrativas cruza-se nesta 'A Ilustre Casa de Ramires'. Por um lado é a vida provinciana de Vila Clara, de Gonçalo na sua Torre; por outro é a novela histórica que o aristocrata escreve sobre o seu antepassado, fantasiada (dado o carácter lendário), muitas vezes sem darmos conta da transição de uma para a outra. É curiosa a vida ociosa e mesquinha de Gonçalo, sempre em jantaradas com Titó, Videirinha e João Gouveia, os seus amigos de sempre. Em comparação com estes seus antepassados de feitos gloriosos, ele não é ninguém. E essa ideia atravessa toda a obra.

sábado, 21 de julho de 2012

As palavras de Dorian Gray


‎"Exercer influência sobre um homem qualquer é dar-lhe a nossa própria alma. Ele não pensa com o seu próprio pensamento, nem arde com as suas paixões naturais. As suas virtudes não são para ele reais. O seus pecados, se é que são pecados, são emprestados. Torna-se eco da música alheia, actor de um papel que não foi escrito para ele."

"Quando os nossos olhos de encontraram, senti-me empalidecer. Empolgou-me uma curiosa sensação de terror. Eu sabia que se me deparara alguém cuja mera personalidade me fascinava a tal ponto que, se eu o permitisse, absorveria toda a minha natureza, toda a minha alma, a minha própria arte."

"Consciência e cobardia são, na realidade, uma e a mesma coisa, Basil. A consciência é o nome da firma."

"Sim, senhor Gray, os deuses foram-lhe propícios. Mas o que os deuses dão, depressa o tiram. Tem apenas alguns anos para viver real, perfeita e plenamente. Quando passar a sua mocidade, segui-la-á a sua beleza, e depois descobrirá de repente que não lhe resta mais triunfo algum, ou terá de se contentar com esses mesquinhos triunfos que a recordação do seu passado tornará mais amargos do que derrotas."


terça-feira, 10 de julho de 2012

Terna é a Noite - F. Scott Fitzgerald

"Tu costumavas criar e agora dá a impressão de que só destróis"
'Terna é a Noite', F. Scott Fitzgerald

Este 'Tender is the Night' foi o meu primeiro contacto com Fitzgerald, de quem sempre tivera curiosidade de ler alguma coisa. Só posso dizer que foi uma boa primeira impressão, com uma história nada simples, nada leve, que em muito se identifica com a própria vida do autor. É por tudo isso um romance pesado, invariavelmente descritivo e explosivo - mas com uma sensibilidade cativante, verdadeiramente vindo do coração.

No centro uma doença: a esquizofrenia. Nasce numa clínica suíça uma paixão entre médico e paciente, desde logo condenada a uma eterna relação nesses termos - um homem a cuidar da sua esposa. Apesar de todo o amor que os unia e da família (biológica e de amizades) que construíram, a determinada altura, Dick e Nicole começam a compreender tudo o que a vida não lhes deu, e o desejo de mudança faz-se sentir de muitas maneiras diferentes.

Dir-se-ia, no início do romance, que a história superficial de um homem casado que se deixa seduzir por uma jovem actriz seria a trama da obra em questão. Ou mais: que Rosemary Hoyt seria a nossa heroína, salvando Dick de um casamento que já dera tudo o que tinha a dar. Como tudo se torna diferente quando, chegados à segunda parte, compreendemos quem são o homem e a mulher por detrás da máscara da alta sociedade, também aqui criticados por Fitgerald, seja com Mary North ou o casal Mckisco. Como estes se tornam o centro da história e controlam todo o seu rumo.

domingo, 1 de julho de 2012

O Mistério da Estrada de Sintra - Eça e Ortigão

“Desde que amei, a minha vida foi um desequilíbrio perpétuo. Não era voluntariamente que eu cedia à atracção, era com uma repugnância altiva. Mil coisas choravam dentro de mim, sofria sobretudo o orgulho. Era impossível fazer com ele uma conciliação. Reagiu sempre, protesta ainda. Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim, esbofeteia-me o coração.”
'O Mistério da Estrada de Sintra', Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão iludiram Lisboa com a história de um crime denunciado nas páginas de um jornal, no que é considerado o primeiro policial português. O génio dos autores mostra-se na escrita, na profundidade das personagens criadas e na crónica de costumes já habitual da geração de 70, aqui bem evidente. Uma excelente obra, uma intriga intemporal, sobre os amores e desamores da sociedade.

O suspense funciona na perfeição neste 'O Mistério da Estrada de Sintra', desde o momento em que os dois amigos são raptados e levados para uma casa desconhecida, até à verdadeira descoberta de quem matou o homem encontrado na casa de Sintra, como e porquê. Revela-se toda uma nova história através da publicação dos relatos no jornal, tomada por todos como verdadeira, talvez numa primeira (mas forte) crítica à sociedade da época, apática e sem valores, precisando de algo em que acreditar. Agitá-la era o seu principal objectivo.

As personagens de Eça e Ortigão são de uma profundidade envolvente, verdadeiramente densas, modeladas, muito ricas. Uma Cármen que, por amar, perde todas as suas forças; uma condessa que se deixa engolir pela ilusão, primeiro, e depois pelo arrependimento; o seu primo que procura ajudar todos e salvar as honras de todos, e acaba por se perder numa teia de histórias que não são suas. Até o doutor tem um papel fundamental na narrativa, com o qual o leitor se identifica, sabendo apenas o que este relata. Todas anónimas e fictícias, e ao mesmo tempo personagens tão reais.

O silêncio também é feito de palavras

'É tão fundo o silêncio' - e as palavras que o quebram merecem ser homenageadas. Quem melhor do que José Saramago para ser homenageado também nesta apologia da escrita, da poesia, da transmissão de um interior para o papel? Pilar del Rio e Miguel Gonçalves Mendes juntaram-se numa interessante conversa acerca da dimensão poética da obra de Saramago e da sua própria vida, revelando algumas curiosidades acerca do homem que nos deixou há mais de dois anos - com tanto ainda para dar à escrita.

Adorava ler poesia, desde clássicos a autores contemporâneos, mas sabia que não era excelente a escrevê-la, por isso não se dedicou a ela. O mesmo com o desenho e a pintura. Não o lamentava, diz Pilar: as coisas são como são, não vale a pena lamentá-las. Diz também Miguel que, para Saramago, não existia o drama romântico da página em branco para um escritor: se não se sentia inspirado, voltava a ela mais tarde. O romantismo não fazia parte de si.

A leitura de ficção científica é outro ponto muito curioso. Para além de toda a pesquisa histórica que fazia para os seus livros, a pesquisa na sua própria imaginação de novas formas de ficção científica é também bastante óbvia. Basta recordar a passarola de 'O Memorial do Convento' ou o cenário apocalíptico de 'O Ensaio Sobre a Cegueira', ou ainda o dia em que ninguém ninguém morreu em 'As Intermitências da Morte'. A sua obra está recheada de pequenas coisas que nos parecem impossíveis mas que se misturam com a realidade com uma suavidade incrível.

sábado, 5 de maio de 2012

Coração, Cabeça e Estômago – Camilo

Um livro de 1907 é o que tenho nas mãos. Valeu os cinco euros que dei por ele na Feira da Ladra. 'Coração, Cabeça e Estômago' é a história de um homem, Silvestre da Silva, contada em três partes, de acordo com o órgão que a regeu. Camilo Castelo Branco escreve como se um amigo de Silvestre, recolhendo os seus manuscritos, os publicasse postumamente, na que se torna uma bonita mixórdia de crítica social, memória de um homem e poesia.

Silvestre não quer que o romanceiem nem dramatizem. Conta as coisas em escrito como mas disse a mim conversando, e eu agora as dou em estampa ao universo”. E é tal e qual.

O período sentimental é retratado na primeira parte, inicialmente em sete mulheres que fizeram parte da vida de Silvestre, mas nenhuma delas tão marcante como a Marcolina que conhecemos no final deste “coração”, o período mais dramático da sua vida. A cabeça corresponde à fase intelectual de Silvestre, mais racional, como se deixasse de ter, inclusive, coração:

Consultei a minha cabeça, e a cabeça me disse que requestasse a viúva. Senti que o coração punha embargos; mas a veleidade foi de momentos. Caiu-lhe em cima a cabeça com todo o peso da razão; e o pobrezinho, que já me não servia para mais que centro das funções sanguíneas, gemeu, contorceu-se e amuou”.


sábado, 28 de abril de 2012

A Arte de Ler


Um rapaz, nos seus quinze, dezasseis anos, vinha no metro acompanhado pela mãe. Tinham estado na Feira do Livro de Lisboa, traziam sacos com livros acabadinhos de comprar. O rapaz tirou de um dos sacos um livro antigo, com as páginas já escurecidas pelo tempo. Começou a falar de forma entusiasmada sobre a obra, como começa e termina, e por isso supus que já o tivesse lido. "Ele vai adorar esse livro, então", disse a mãe. Tratava-se de 'A Arte de Furtar', de autor desconhecido.

Não foi o livro que me chamou a atenção, nem sequer o facto de ser uma compra de alfarrabista da feira. Foi, sim, o entusiasmo do rapaz com a leitura; a forma como falava apaixonadamente do livro e cativava quem o podia ouvir, no metro, incluindo eu própria. É tão bonito quando se observa esta paixão pelos livros, quando nos deixamos embrenhar por eles, esquecendo tudo o resto.

O livro em si também me ficou na cabeça. Já tinha ouvido falar, mas sabia pouco acerca deste 'A Arte de Furtar'. O autor 'Anónimo', diz-se, pode ter sido o Padre António Vieira, mas acredito que parte da magia esteja também neste desconhecimento. A wikipedia conta coisas engraçadas acerca da obra. E quando voltar à feira do livro, andarei à procura dele nos alfarrabistas. É certo.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

coração e cabeça

"Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como o sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas."


in 'Coração, Cabeça e Estômago', Camilo Castelo Branco

(porque foi Dia Mundial do Livro e não tinha dito nada <3)

25 a Sete Vozes

É 25 de Abril e apetece-me recomendar um livro sobre o tema, que até pode ser devorado ao longo da tarde do feriado: 'Vinte Cinco a Sete Vozes', de Alice Vieira. Li-o há alguns anos, depois tentei adquirir o hábito de o ler em todos os dias 25 de Abril, eventualmente coloquei-o na prateleira. Mas sei que está lá e que, um dia, valerá a pena ser relido. Talvez hoje, talvez daqui a um ano.

A Alice Vieira tem esta particularidade - que acho muito linda - de contar uma história para adultos como quem conta uma história para crianças, ou, melhor dizendo, o inverso: contar uma história como se fosse para crianças, mas sendo um pouco para todas as idades, adaptando-se a todos os leitores. Este 'Vinte Cinco a Sete Vozes', como o título indica, é o relato de sete pessoas de idades, profissões e vivências diversas, de três gerações, sobre a revolução.

É curiosa a forma como, através das questões de uma investigadora, vamos descobrindo o que pensam estas pessoas do 25 de Abril, como o viveram, o que sabem acerca dele. E para além do cliché que é os jovens saberem pouco e os pais lembrarem-se vagamente do dia, temos também pais que não ligaram muito à revolução, bem como jovens interessados pelo tema. E um avô, claro, que se lembra bem do antes e do depois e viveu de forma particularmente consciente e emocionante a mudança política.

Recomenda-se, pela simplicidade da escrita e o que miúdos e graúdos podem aprender com a leitura. E porque estas histórias dos avós são sempre enriquecedoras. E porque é dia 25 de Abril e qualquer recordação do mítico dia é bonita.

domingo, 1 de abril de 2012

Jane em palavras

Já que estamos numa de Jane Austen, apetece-me partilhar a bela nota biográfica que Henry Austen, o seu irmão, escreveu como prefácio da edição de 'Northanger Abbey e Persuasão' - depois da sua morte. É uma grande homenagem à autora, à sua vida, às suas obras, mas também à forma como encarou a morte aos quarenta e poucos anos. E que mulher que foi.

É um texto verdadeiramente comovente. Se não era genética, pelo menos a veia da escrita trespassou de Jane para o irmão, neste texto, que representa a dor, o amor e sobretudo o orgulho de alguém que a conheceu profundamente. Vale a pena ler.

Persuasão - Jane Austen

“Com certeza que, se existir afecto constante de ambos os lados, os nossos corações terão de se compreender em breve. Não somos um rapaz e uma rapariga, para sermos capciosamente susceptíveis, iludidos por qualquer inadvertência momentânea e brincarmos caprichosamente com a nossa felicidade.
'Persuasão', Jane Austen

É o último romance acabado de Jane Austen, que não viveu para o ver publicado, nem sequer para o intitular. 'Persuasão' é uma obra pouco complexa, tendo como pano de fundo uma crítica à sociedade do século XIX, com uma heroína sensata e uma bonita história de amor, num jogo de persuasões e ilusões que nos leva de uma ponta à outra do romance mais depressa do que inicialmente esperávamos. E, no meio de tudo isto, sobressai Anne Elliott. É impossível não gostar dela.

Sob o olhar atento de Anne, Austen caracteriza e caricatura, como é nela habitual, algumas das personagens do romance. É o caso das próprias irmãs, fúteis, mesquinhas, mais preocupadas com a condição social do que com o intelecto – sobretudo a mais velha, Elizabeth. O mesmo acontece com o pai, um baronete falido para quem importam apenas a aparência, a opinião alheia e as boas companhias.

É no seio da própria família que Anne parece mais incompreendida, e compreendida por nós, leitores. Anne é terna, inteligente, com um coração amável e uma mente sonhadora, mas também bastante perspicaz e terra a terra. Aos 27 anos, permanece por casar e mostra já um amadurecimento próprio da idade, que lhe dá uma perspetiva ponderada da realidade. Ao longo de todo o romance, colocamo-nos no lugar de Anne, tal como Jane a criou à sua imagem, e é muito fácil apreciarmos o seu bom senso, a sua personalidade tão própria.

quinta-feira, 22 de março de 2012

a vida de um livro

Feiras de rua são sempre um paraíso de livros a baixo custo. Gosto especialmente da secção de dois euros, tem um encanto especial. E às vezes encontram-se algumas pérolas. Foi o caso deste dia, em que passei por acaso numa destas feiras e me detive junto a uma banca cheia de livros. Entre os muitos volumes únicos, velhos e usados espalhados por lá, chegou-me às mãos um pequeno livro de capa esverdeada, muito antigo, com um cheiro característico.

Abri-o. Lá dentro, perdido no tempo, um negativo de uma fotografia a preto e branco, mostrando um homem, uma mulher e uma jovem rapariga ao ar livre. O primeiro impulso foi largar o livro, por uma qualquer sensação de invasão da vida privada de alguém, de entrar numa história do livro que não me pertencia. No entanto, a curiosidade chamou mais alto e comprei aquele pequeno livro, até por o desconhecer por completo, título e autor.

'Fior d'Alisa', de Lamartine, considerado um dos primeiros escritores românticos. Li-o mais tarde, encontrando uma história de amor e esperança que, por mais cliché que seja, é bonita de se ler. Descobri também que o livro é uma espécie de raridade, que não se encontra propriamente à venda nas livrarias. Sinto-me privilegiada por o ter encontrado. "Pode ser o livro da tua vida", dizia a Catarina.

terça-feira, 20 de março de 2012

Porn for book lovers.

Adoro estantes cheias de livros. Bibliotecas, com inúmeros volumes, dos mais velhos aos mais recentes. Uma imensidão de cheiros, cores e feitios que sempre me fascinou. Estudar numa biblioteca, seja ela qual for é, para mim, pior do que estudar numa esplanada. Perco-me por entre os títulos, os autores, as temáticas de cada secção. Isto para não falar dos formatos das estantes. Que é, no fundo, o ponto a que queria chegar.

Bookshelf Porn é dos tumblrs mas engraçados que alguma vez encontrei neste mundo virtual. Agrega imagens de estantes lindíssimas, recheadas de livros, bibliotecas enormes - como gostávamos tanto de ter em casa - e até simples livros empilhados numa desordem sem igual. A criatividade não tem limites no que diz respeito a estas coisas. Gosto tanto. Pornografia para amantes de livros, não podia ter um 'slogan' mais sugestivo e adequado.

P.S. - um dia vou ter uma biblioteca enorme em casa. Ou ser bibliotecária. Ou ter uma livraria.

"Uma casa não é um lar sem, pelo menos, uma estante cheia de livros"

domingo, 18 de março de 2012

O Estrangeiro - Albert Camus

"Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: 'Sua mãe falecida'. Enterro amanhã. Sentidos pêsames'. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem".
'O Estrangeiro', Albert Camus

Haverá frase melhor para começar esta obra, que condicione tanto a acção como esta o faz? Dá início ao absurdo que atravessa 'O Estrangeiro' de uma ponta à outra, um absurdo que, no final, compreendemos ser genial - e como todos os génios se revelam, sempre, minimamente loucos na sua mestria.

Este é o retrato de um homem que de humano parece ter tão pouco. O absurdo sob a forma de uma personagem tão complexa de tão simples que se nos apresenta. É fantástica a forma como Camus nos relata de forma tão fria, embora na primeira pessoa, uma vida vivida quase por acaso, sem se saber bem como nem porquê, descrevendo mais do que vivendo, propriamente. 

E todo este absurdo simplesmente porque, na sociedade em que vivemos, essas coisas são tomadas como absurdas - porque para Mersault era apenas a sua forma de ver o mundo. Para ele era normal, nem tudo precisava de ter uma causa, de ser um efeito; nem tudo precisava de ter uma explicação. Para ele, pelo menos, não tinha. As coisas são como são. Um estrangeiro dentro de si mesmo, portanto.

Heidegger/Arendt

Uma pessoa lê de tudo em CC. A meio do segundo ano apercebe-se de que há autores transversais a tantas ideias e ideologias, que acabam por ser falados inúmeras vezes em temas totalmente diferentes. É o caso de Hannah Arendt e Martin Heidegger, dois filósofos do século XX, verdadeiros mestres nestas coisas da comunicação, que se especializaram em áreas tão distintas umas das outras, no entanto todas elas relacionadas.

Já tinha ouvido falar num breve romance entre eles, mas desconhecia a história. Parece que, quando Arendt foi aluna de Heidegger, o professor deixou-se levar pelo brilhantismo da jovem judia e teve um caso com ela nas costas da esposa. Mas Heidegger era nazi e a ascensão do nazismo na Alemanha afastou-os, ideológica e fisicamente. Arendt é conhecida pelos seus relatos da vida em campos de concentração e Heidegger pela sua dedicação à causa hitleriana.

O filósofo ficou desgraçado depois da guerra, apenas Hannah se dispôs a ajudá-lo a recuperar - agora ela uma bem sucedida filósofa. A lealdade e a paixão pelo ex-professor sempre a cegaram; quanto a ele, sentia-se invejoso pelo sucesso dela. A sua relação era tensa. Pouco se sabe, mas diz-se que ele sempre a usou como um mero instrumento, enquanto ela fizera tudo por ele.

Bom, sabe-se lá se estas coisas são verdadeiras. Encontrei na internet. Mas achei uma história bem interessante. Uma leitura marginal, sem dúvida. Baseada em coisas académicas que me têm passado pelas mãos.

Goodreads


Uma bela descoberta através do StumbleUpon: uma estante virtual de livros que podemos ir actualizando com livros que queremos ler, livros que já lemos e livros que estamos a ler neste momento. O Goodreads oferece ainda uma ferramenta que recomenda livros aos utilizadores, com base nos seus interesses e nos livros já lidos e classificados.

Tem sido um bom 'companheiro' de leitura e uma forma interessante de conjugar a leitura, tradicionalmente num suporte físico, em papel, com o mundo 'virtual' da modernidade. Gosto sempre destas modernices. No Reading Challenge deste ano, propus-me a ler 28 livros ao longo de 2012 - mas, tendo em conta que, em apenas três meses, já consegui completar 8 (e o amigo Goodreads diz que vou com três livros de avanço), pode ser que aumente a expectativa daqui a uns tempos.

Aconselhado para todos os amantes de leituras :)

2012 Reading Challenge


2012 Reading Challenge

Raquel has read 8 books toward her goal of 28 books.

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Ler

Porque sempre foi uma paixão e porque sempre gostei de escrever sobre as minhas leituras. Cada história nos ensina algo novo, nos oferece uma nova visão do mundo, nos apresenta uma grande diversidade de outras histórias paralelas. Ler um livro, interpretá-lo, é das coisas mais maravilhosas que podemos fazer - e é algo que individual, através da nossa própria consciência, construindo uma opinião pessoal. Não há duas visões iguais, tal como não há duas pessoas iguais.

O que aqui pretendo é exactamente explorar e divagar acerca das leituras que vou fazendo, das histórias que vou descobrindo. Partilhar um ponto de vista ou uma simples citação de determinada obra que, por um ou outro motivo, me captou a atenção. Um primeiro blog sobre o acto de ler. Leituras marginais, por estarem à margem do verdadeiro significado intrínseco dos livros, dada a infinidade de significações que lhes podemos atribuir.

Ler. Porque a viagem é tão melhor do que o destino. Não é?